domingo, 10 de abril de 2016

Turismo interno | Um sábado diferente no Cubal

Depois do município da Ganda, onde divulgamos a piscina de águas naturais no topo da íngreme montanha do Atuki, desta vez a incursão foi no município do Cubal. A intenção é a mesma de sempre: dar um outro olhar fotográfico (não jornalístico, mas autoral) sobre potencialidades turísticas do interior do país, onde gente, paisagem e frutos da acção humana saltem à vista. Visitamos a Barragem do Lomaum, a mini-hídrica em construção no Alto Cubal, entre outras coisas, o que não seria possível sem o apoio da Administração Municipal, na pessoa do seu vice, Fernando Belo, que disponibilizou uma carrinha 4x4 e o motorista/guia (o jovem Valdemar Albino). Mais fotografias vêm a caminho. Ombembwa yivyale, ou seja, viva a paz!
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sábado, 9 de abril de 2016

Citação

"A literatura angolana começa por ser reconhecida como tal pelos leitores angolanos, aqueles que nela se revêm. Não posso sentir-me satisfeito só pelo facto de um chinês ou um búlgaro achar que neste ou naquele texto se conta uma história tipicamente angolana, mesmo quando eles trabalham com critérios da sua cultura de origem. Será sempre necessário ter conhecimento da tradição literária angolana e da sua especificidade."
(Luis Kandjimbo, ensaísta e escritor angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 340. União dos Escritores Angolanos)
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Citação

"O futuro da literatura, de uma forma geral, no mundo, e em Angola, em particular, não é nada risonho. Lê-se cada vez menos. A cultura consumista derrete as emoções. Não se pensa, mostra-se o pensamento. Não se trabalha, mostra-se o trabalho. Temos de nos mostrar. É a aparência no seu pior a predominar."
(Cristóvão Neto, escritor angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 103. União dos Escritores Angolanos)
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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Divulgando | Mercado brasileiro recebe «O Domador de Burros e Outros Contos», do moçambicano Aldino Muianga

Editada pela Kapulana, é a primeira edição brasileira de um livro de Aldino Muianga, autor moçambicano renomado com contos publicados em Portugal, Suíça e França, coletânea de contos vencedora do Prêmio Literário Da Vinci (Editorial Ndjira, Moçambique).
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Divulgando | Moçambicano Clemente Bata lança livro de contos no Brasil

«Outras Coisas» é o título da obra composta de 10 contos que Clemente Bata traz à luz no Brasil pela editora Kapulana. Explora a realidade do seu país ao retratar conflitos típicos das relações humanas nos espaços rural, urbano e suburbano, com temas que vão desde o amor, os crimes, os linchamentos populares, o alcoolismo até à violência doméstica.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Opinião | O jornalismo, o poder tradicional e a lógica da não contradição

Políticas e politiquices à parte, e com o devido respeito aos concidadãos que exercem a profissão de jornalista (a qual muitos de nós relegamos para mais tarde), cada vez me questiono mais sobre a capacidade de análise dos narradores/redactores, no que respeita a questões elementares da história do país e idiossincrasias nossas. Tive a sorte de aprender um pouco de lógica duas vezes na vida, tendo sido a primeira num curso básico de jornalismo e a segunda nas aulas de filosofia no curso de licenciatura. E parto do princípio que aos profissionais de Luanda se deve exigir um pouco mais, até porque têem mais recursos e oportunidades de aprendizagem, com acesso ao ensino superior e tudo. Vem isto a propósito de uma contradição (quanto a mim grave) que acaba de desfilar numa peça de reportagem do programa dedicado à província de Luanda, emitido pelo canal principal da TPA. Depois de anunciar como facto raro a existência de uma mulher no poder tradicional em Catete, o narrador disse, e cito: "Em Calomboloca, o poder tradicional é exercido com base nos critérios estabelecidos pela população, de geração em geração". Feita a chamada, o que o tele espetador espera é a confirmação disso mesmo no relato que vem a seguir sobre os termos da sucessão, até porque o texto foi produzido, pelo menos é o óbvio, com base no discurso directo da interlocutora. Para o espanto geral (e atropelo à lógica da não contradição), eis que surge a soba Maria nestes termos (cito de memória): "O mais velho [pai] quando morreu, ficamos mesmo assim, tristes. Choramos, choramos, e depois como há um irmão, decidimos que ele é que ia ficar no lugar. Mas o camarada administrador - já sabe essa nossa vida - disse que não, que é melhor ficar uma mulher no lugar. E assim fiquei". Ora, de onde foi o repórter tirar a ideia de ter sido uma sucessão com base nos critérios estabelecidos pela população, se a interlocutora, a soba Maria (poder real/tradicional/dinastia), diz precisamente que foi co-optada pelo administrador (poder político/administrativo)? Bem sei que a autonomia/paridade do poder tradicional é um debate que se adia desde a era colonial. Mas é inquestionável que o país um dia terá de o agendar (com o Ministério da Cultura a falar ao mesmo tom que o da Administração do Território), mesmo até para se respeitar a essência étnica dos povos que fazem o mosaico desta nação em construção, sob pena de nunca mais nos reencontrarmos neste sentido.
Gociante Patissa, Benguela, 07 Abril 2016
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Trecho | Cara Podre

Acordava sempre mal disposto. Nunca havia uma única razão. Dizem que foi sempre assim, mas eu cá não sei se acredito. Que sonhos eram aqueles que o procuravam durante a noite, que não sabiam sorrir? Umas vezes, cumprimentava; outras vezes, nem por isso. A mulher até já estava acostumada, ou ao menos parecia estar. Até há quem lhe vaticinasse morte breve. "Quem não vive para servir não serve para viver", diziam com base no ditado. Eu já não sei o que dizer. Sou mais inclinado para o lado daqueles que pensam que o homem levava ao extremo o espírito da sua profissão de guarda, talvez por erro do seu instrutor. Dele aprendera que um guarda deve ter sempre “cara podre" 
(Gociante Patissa, improvisos de correspondência oficinal, Benguela 07.04.2016)
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[Oficina] Crónica | Lito Katwia e as Chuvas da Capital

Nuvens cor de cinza tapando o sol. INAMET a produzir prognósticos (coisas de kimbanda). Segue pelo bairro Palanca, Golfes Um e Dois. Destino: conhecer a cidade do Kilamba depois de ter visto o mar na véspera. Mbaias na destreza do piloto em terra, azul e branco kandongueiro rumo à Meca.
Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 06/04/2016

Viaturas em pilhas como monte de lenha fresca a fumegar, admiração no rosto a ouvir o zumbir nos tubos de escapes. Não se lembrava, desde que se conhece a si próprio como pessoa, de ter visto tanto carro parado assim. Chega a ser arrepiante… para a sua cabeça de provinciano!

“Acaba-de-me-matar”, fumaça pelos furos a penetrar. Lata velha de ocasião. O som alto da música “mama-dji”, de Nagrelha, não deixara perceber que a viatura tinha dado o piripaque, morreu! Motor desligado, combustível no vermelho, justamente naquele pântano artificial. Na rotunda do Camana, chuvas de Abril e sacos de plástico enrolando aos pés para o desembarque. Agarrou-se à porta e, como azar não vem só, pé na lama. Recuar é que não pode. Descuido de aldeão destreinado nas habilidades de Luanda.
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terça-feira, 5 de abril de 2016

Esclarecimento | Ausência de Gociante Patissa na Feira "Ler Paz" do Huambo

Por razões de ordem profissional e de gestão de agendas, não poderei estar na Feira do Livro e da Leitura "Ler Paz", marcada para o fim-de-semana de 8 a 10 de Abril, na cidade do Huambo, que está a ser organizada pelo meu mano amigo e antigo vizinho no Lobito, Chico Pobre, e pelo Movimento Lev'arte naquela província, onde estávamos a projectar o lançamento dos meus livros "O Apito Que Não Se Ouviu" e "Fátussengóla, o Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas". Para que os amigos e leitores que tenho na província do Huambo não venham a crucificar a organização em função da minha ausência, uma vez que figurava no cartaz do evento, torno desde já públicas as minhas sinceras desculpas por eventuais transtornos e, na promessa de estar presente em futuras iniciativas, aqui fica o meu abraço sincero. Obrigado. Gociante Patissa. Benguela, 05 Abril 2016
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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Crónica | E assim construímos reencontros

(C) foto: Sérgio Guerra
 Ia eu dar umas palmadinhas de empatia nas costas do estratega, major cubano de 28 anos, barba a Ché. “CORAGEM, UNA MERDA, HOMBRE!”, reagiu, intempestivo. O camuflado da farda coreana era irreconhecível, de tão ensopado, mais de lágrimas, ranho e baba do que de chuva de granizo no interior de Benguela em 1984. “CINCO HERMANOS CAÍDOS SÓLO HOY”. Estatística de um primeiro dia para esquecer. Não se via o sol. Devia andar distraído a namorar as nuvens de bruta chuva. Mas o relógio biológico não podia mentir. Em dias de glória, devia poisar a mochila e abrir uma latinha da sua conserva preferida na ração, a de porco, mas não havia fome nem peito. Cinco dos seus camaradas de armas aguardavam por um enterro, improvisado mas condigno, ali mesmo, logo que o tiroteio baixasse. Tinham partes dos membros por recolher entre o capinzal e a copa de pequenitas árvores, um cenário escusado de qualificar como chocante. Que mais minas afinavam vozes para a hora da explosão, já se sabia; só não se sabia era onde exactamente, pelo que a hipótese de um helicóptero para a recolha dos corpos nem se punha. Sorte a dele de ainda estar vivo, não se sabendo ao certo para quanto tempo mais. Conseguiria por caso comer carnes? E a missão sequer ia a meio. O único diferente aqui somos nós, continuava colérico o major, bala na câmara, feito perigo a nu para a manutenção do moral das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), tanto do lado angolano, como do contingente internacionalista cubano. Vai-se lá saber porquê, as baixas neste dia só falavam espanhol. O inimigo é como vocês, fala como vocês; como sei que não são vocês? Na recta-guarda a continuação da luta nas ondas da rádio. Num extremo, o “Angola Combatente”. No outro, o “Alvorada”. As estações da guerra, melhor dizer da guerrilha fratricida, podem muito bem ser contadas em quatro actos: quando sofremos com a chuva, quando nos gela as veias o cacimbo, quando matamos e/ou quando morremos. Ao fim de uma semana de bombardeamentos, os resultados na contra-informação. "Na tentativa de ocupar a localidade X, o inimigo foi rechaçado e saiu em debandada", anunciava um lado, o que traduzido queria na verdade dizer que se reocupara determinada localidade, até então em mãos rebeldes. "Os caudilhos, auxiliados pelos mercenários cubanos, deixaram sangue”, anunciava o outro lado, que chegava a recorrer às mais inverosímeis das imaginações, sendo disso exemplo apresentar trilhos de pneus pela manhã sob alegação de ter chegado (silencioso?) de noite avião com medicamentos. Por fim, o batalhão seguia para outra missão, para mais um ciclo de incertezas. Implantada a bandeira, restava aguardar pela próxima emboscada. Nada podia ser duradoiro. No meio-termo, o povo, que adopta rapidamente o que cada lado esperava. Lei da sobrevivência. Nas alternâncias bélicas, as inevitáveis cicatrizes sociais e familiares. “Chegou a meio da noite, bateu à porta. Abri. Assim que abri, apontou-me a arma na cara, ‘vais morrer hoje, seu traidor!’ Meu próprio sobrinho, agora dirigente. Então porquê? ‘Aceitaste ser soba no tempo do inimigo’. Eu lhe disse: filho, tem toda a razão. Até vou tirar a camisa, assim a bala entra directamente. Mas a tua bala é comprida o suficiente para me trespassar o corpo e atingir os dois partidos? Se não, vais ter de viajar para a Jamba e para Luanda, assim matas a Unita e o Mpla pelo prejuízo que te vão causar. Mesmo morto, eu pago a passagem e a comida da viagem. Se me matas, eles não perdem, eu também não, que já estou velho. Já tu perdes um tio e a inocência. E ele saiu a chorar, eu tremi do medo que andei a conter”. Depois veio 2002, os angolanos ouviram o mais nobre dentro de si… e assim construímos reencontros.
Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 04 Abril 2016
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Citação

"O que mata, na ditadura, é que não há espaço para a verdade, porque não há espaço para a vida. Porque algumas verdades, até as mais banais, podem conduzir à morte."
(Dilma Rousseff, presidente brasileira, falando ao congresso sobre a sua experiência nos anos 70. Vídeo disponível no Youtube)
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domingo, 3 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | Oito Anos de Juras

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 02.04.2016
“Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro, o pensamento lá em você eu sem você não vivo”. Com a devida permissão de Djavan, exubero-me no trecho-lenda de sua canção.

Abriam-se e encerram-se anos aritméticos, o desespero em auto-reverso, sonho adiado e a infindável tortura. Tardava o surgimento do rebento pretendido. Meia-volta o suspiro, é Chissola expondo-se à permanente melancolia, mão em arco sobrepondo-se o queixo e o plácido rosto segredando com o silêncio.

Esforços familiares conjugados, prestativo marido sujeitando-se à vigília continua, até de beber deixara, por se lhes ter sido dito que o álcool e o cigarro reduziam o sêmem reprodutor.

“Então, até agora, nada?! Nem um exemplar? O problema é teu ou dele?” Bocas de veneno, víboras à solta, queriam saber de tudo e mais algo, como que a ajudar. Porém no lugar de dó, trespassavam flechas sobre o cândido e já dolorido coração da aspirante a progenitora.
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sábado, 2 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | Kissungos

Texto de Catarina Fortunato Linda

Lobito 1997. Fazia sol numa manhã fria, onde a alegria nos aquecia. Bellamie acabava de me contar do convite do tio Simonal para irmos a Benguela de comboio. Obaaaaaa!, gritei eufórica, hoje é hoje!!!... Bella sorria como só ela sabia. Para ela, eu era uma “maluca”.

Em poucos segundos, lá íamos nós de mãos dadas, abraçadas ao tio Simonal, contando humoristicamente as nossas experiências do dia -dia. E ele sorria olhando para nós com orgulho e muito agradecimento. Nem desconfiava do nosso plano de o desfalcarmos durante a viagem…

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Euclides Sabino (Junho 1993 - Abril 2016)

Chegou-me esta noite a informação do falecimento, por doença (não descrita), do jovem rastafari na foto, uma alma conhecida pelo génio cordato e engajamento no activistmo cultural, com destaque para a poesia e o teatro. Cruzei-me com ele em Benguela, no mês de Março de 2014, por ocasião do recital "Para Ti Mulher", realizado na Mediateca pelo Movimento Lev'arte (versão pré dissidência), tendo-me brindado com a declamação de poemas do meu livro de estreia, "Consulado do Vazio". Residia em Luanda e frequentava o curso de comunicação social. Uma partida prematura, indiscutivelmente!
Gociante Patissa, 02.01.2016
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sexta-feira, 1 de abril de 2016

Citação

"Ela até aqui mesmo não tem argumentos de razão do motivo que lhe faz ficar com aquele senhor."
(Anónimo da mesa ao lado)
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quinta-feira, 31 de março de 2016

Diário | Afinali?...

"Meu kota, esse livro é mbora da igreja?"
"Não." 
"Waaah"
"É literatura."
"Afinali?..."
"Sim. É uma novela."
"Hahahah. Afinal também há livro de novela?"
GP, Malanje, 2013
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EM PLENA AVALIAÇÃO ORAL NUMA AULA DO CURSO DE DIREITO (de certa Universidade em Benguela há poucos anos):

Professor: “Qual é o papel de um juiz?”
Estudante: “Condenar, professor! O papel do juiz é condenar!”
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terça-feira, 29 de março de 2016

A QUEM POSSA INTERESSAR: "Gostaria que convidasse escritores angolanos que escrevam com qualidade para colaborarem"

Fui contactado há dias por uma interessante revista cultural inter-comunitária, mensalmente editada na Europa, no sentido de retomar a minha colaboração, que se ficou o ano passado por dois textos. É um projecto editorial que visa a integração de artigos do espaço de língua portuguesa e por vezes também acolhe textos em espanhol. Para aqueles que estão na escrita como missão, a colaboração, ainda que não remunerada monetariamente, pode ser uma oportunidade de conquistar leitores fora "da zona de conforto". Para mais informações, estou no patissagociante@yahoo.com
Era só isso. Obrigado.
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segunda-feira, 28 de março de 2016

Citação

“A literatura é quase sempre uma perspectiva diferenciada de se olhar uma mesma sociedade maculada pela oficialidade dos factos. Os textos literários não são – ou não devem ser – para consumo imediato. Parece-me que esta é uma divergência entre a literatura comparada e os estudos culturais. Mesmo que não queiramos admitir, a literatura é um produto elitista: não é qualquer um que o consome ou compreende. E essa ideia exclusivista do produto literário coloca-o numa prateleira diferenciada e a apreciação exige outros requisitos de consumo e compreensão. O que é literário não é sensacionalista a favor ou a desfavor. É literário e pronto. As abordagens, perspectivas, referências e outros, como podemos observar em certos romances históricos, não sendo história nem oficial, trazem outros desafogos dum mesmo mundo. Os meios existirão sempre, mas não esgotarão a capacidade de o produto literário conquistar os outros olhares necessários à construção de vários prismas.”

(António Quino, jornalista, escritor, ensaísta e professor angolano, entrevistado pelo portal Rede Angola, 28.03.2016)
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domingo, 27 de março de 2016

Diário | E quem te autorizou por escrito, hã?

“Senhor Director, vim falar com o senhor Director.”
“Qual é o assunto?”
“Queria uma guia médica. O corpo não está só assim bem…”
“MAS ISSO NÃO É ASSIM, Ó SENHOR PROFESSOR!!!”
“Diga?”
“E quem te autorizou por escrito, hã?”
“Autorização para quê?”
“Ficar doente…”
“Mas doença é doença, senhor Director…!”
“Seja o que for, tem que saber esperar a tua vez! A tua colega Doroteia já não pediu guia? Não autorizei?”
“Sim…”
“Mas então se a outra ainda não acabou o tratamento, você agora vem outra vez com essa conversa? Vocês não sabem que no hospital os medicamentos são poucos, reagentes para análises é ouro? Quer dizer, logo, logo a minha escola entra na estatística… com dois professores a dar cabo dos medicamentos?”
“Mas vou fazer mais como, ó senhor Director?”
“Volta para o teu trabalho, mais é, homem! Há gente mais carente de remédios; não é um professor!!! Vá, agora desaparece-me das vistas e vê se ficas doente mais tarde; nessa época de crise é que não! Faço-me entender, pá?! Aprende de uma vez por todas a evitar gastos no OGE, ok?!
GP, Lubango, 27.03.2016
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sábado, 26 de março de 2016

Tudo é alguma coisa

Diante da felicidade
da prosperidade
longas filas.

Nos bairros nus
tantos corpos nus por vestir
crianças perdidas por salvar
palavras obscuras por apagar
do Livro do Mundo –
se o ler, perco a minha vista.

Tudo está nas pedras do caminho.
Tudo é alguma coisa.

Em torno dessa alguma coisa
eu escondo a minha pele
transformo-me em nada.
Mergulhado numa água por branquear.

João Maimona, in “Trajectória Obliterada”, pág. 53. União dos Escritores Angolanos, 2013. Colecção 11 Clássicos da Literatura Angolana, 1ª edição. Luanda
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citação

"Chefe, chefe! O chefe sabe que eu não tenho lá muito estudo na cabeça. O chefe sabe também que de ideias não sou bom, mas acho que a minha ideia com as ideias dos outros podem-se aproveitar. Então, ó chefe, se cada vez que chove, as pessoas sofrem, as cidades ficam intransitaveis... né?... E é o país todo. Quer dizer que o nosso problema é os esgotos que não existem ou não funcionam. Mas assim, ó chefe, será que não dá para pegar assim uns quinhentos gajos, lhes mandar ao estrangeiro, para estudar sistemas de esgoto?"
(De uma pessoa devidamente identificada, Catumbela. 24.03.2016)
www.angodebates.blogspot.com
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quarta-feira, 23 de março de 2016

terça-feira, 22 de março de 2016

O que ficou por dizer no aparente desmaio em directo do repórter TPA hoje?

Fiquei com a impressão que o repórter da TPA, Alves Fernandes, desmaiou durante o apontamento em directo agora há pouco (22/03/2016) no telejornal. Alves entrevistava uma alta patente militar em Menongue, Kwando Kubango, sobre inauguração amanhã de uma grande ponte. A meio da entrevista, perdeu equilíbrio e foi agarrado por um senhor que estava aí lado, momento em que a pivot Ana Lemos interrompeu o directo como se nada se passasse. A ausência de uma informação oficial só pode contribuir negativamente, pois abre espaço à especulação.
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Diário | Você lhe chamou de porco ou não?

"Obrigado, meritíssimo."
"MAS O QUE É QUE QUER ACRESCENTAR MAIS, SE O DEFENSOR OFICIOSO JÁ TUDO FEZ POR SI?"
"Meritíssimo, eu apelo à sua generosidade, por favor. Tem de me perdoar, porque não vou aguentar tanto processo..."
"'TANTO PROCESSO', COMO ASSIM?"
"A pessoa não pode ser julgada duas vezes pelo mesmo crime, não é isso?"
"MEU CARO, NÃO ESTAMOS PROPRIAMENTE NUMA AULA DE JURISPRUDÊNCIA, ESTÁ BEM?"
"Meritíssimo, eu apelo que reconsidere. Dois processos é muito..."
"VOCÊ CHAMOU O SEU VIZINHO DE PORCO, ACUSANDO-O DE DESVIAR AS OFERTAS DA IGREJA PARA COMPRAR UMA MOTORIZADA PESSOAL. O OFENDIDO PEDE REPARAÇÃO PELOS DANOS MORAIS AO BOM NOME. NÃO SEI SE SABE, MAS A LEI DEVE SER CUMPRIDA. VOCÊ LHE CHAMOU DE PORCO OU NÃO?"
"É esse o problema, meritíssimo. Os porcos abriram outro processo contra mim por esta comparação, sentem-se difamados. Assim vou indemnizar quem neste meio?"
GP, Benguela, 22.03.2016
www.angodebates.blogspot.com
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Excerto

"Temos uma crítica muito forte e assertiva sobre os manuais do sistema de educação em Angola. Posso dizer publicamente, mesmo que não seja entendido, que isso tem muito a ver com as assessorias estrangeiras, particularmente a portuguesa, que vão sendo buscadas para elaboração do sistema de ensino angolano. E é por isso que a nossa história que está a ser ensinada aos miúdos continua a ser adulterada.

A literatura que é ensinada não é suficiente nem é bastante, e assim sucessivamente. Aliás, independentemente da minha condição de escritor e autor como estou a falar, também sou um quadro do Ministério da Cultura. Posso dizer-vos seguramente que o Ministério da Cultura em tempo útil pronunciou-se sobre essa questão, daquilo que são os conteúdos da história e da literatura.

Chegou mesmo a ser criada uma comissão que envolvia a comunicação social, educação e a cultura para abordar essa problemática. Não sei em que ponto ficou essa situação, mas houve essa preocupação. Mas enquanto cidadão escritor assumo essa afirmação de que os manuais estão errados na sua substância e não vão contribuir seguramente para aquilo que é o propósito do patriotismo, da angolanidade e da cultura angolana, do homem angolano consciente da sua história e do interesse da cultura."

(António Fonseca, jornalista, escritor e docente angolano, in entrevista ao Jornal O País, Luanda, 22/02/2016)
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Citação

“Eu creio que o critério da naturalidade não é suficiente nem bastante para identificar um autor como autor de literatura angolana. Temos autores que nasceram em Angola mas que escreveram literatura colonial. Portanto, não são autores de literatura angolana. Entretanto, temos autores que não nasceram
em Angola, mas, efectivamente, engajaram-se com a angolanidade com obras monumentais no quadro da literatura angolana. Agora, o problema que podemos discutir é
se no contexto do século XVII, em que é referido António Dias Macedo, António de Oliveira Cadorneira, na História das Guerras Angolanas, e sendo ele um nativo, o próprio José da Silva Maia Ferreira, um mestiço de Benguela, se naquele contexto
em que os letrados eram educados de maneira europeia, se podemos relativizar e dizermos que este era nacional, de Benguela e é de facto o patrono da literatura angolana.”

(António Fonseca, jornalista, escritor e docente angolano, in entrevista ao Jornal O País, Luanda, 22/02/2016)
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domingo, 20 de março de 2016

Dos meus, o livro mais vendido de sempre | «Fátussengóla, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas»

“Devo comunicar-lhe que do seu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, foram vendidos 441 exemplares”, escreveu-me anteontem o distribuidor, reportando-se ao período de Fevereiro de 2015 a Fevereiro de 2016. Julgo que três factores terão determinado o que no mercado angolano representa um retumbante indicador de vendas: (a) O preço de capa barato, que é de quinhentos Kwanzas; (b) A divulgação do livro com breve sinopse através de spots esporádicos na TPA2 desde Novembro de 2014, altura do lançamento; (c) Uma estratégia funcional (podia ser melhor) de distribuição (que envolve as livrarias do grupo Texto Editores e a rede de mercados KERO). Pois, como é bem sabido, o grande calcanhar de Aquiles da literatura feita em Angola (mais do que na alegada fraca procura ou pobres hábitos de leitura) reside exactamente na ausência da figura do distribuidor, com os livros geralmente a ganharem bolor encaixotados na editora, sem falar da moda que é a tiragem não passar de mil exemplares por título, tão desproporcional para um país com 18 províncias e mais de 20 milhões de habitantes.


Este meu segundo livro de contos faz parte de 11 obras inéditas selecionadas por candidatura à Bolsa Ler Angola, colecção designada «Novos Autores», do programa «Ler Angola», levado a cabo pelo GRECIMA (Gabinete de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional e Marketing da Administração), que também reedita obras mais antigas na colecção «11 Clássicos».
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sexta-feira, 18 de março de 2016

[Oficina] Crónica | Sando (Xará ) II

Texto de Lauriano Tchoia
Benguela, 06.03.2016
“Donana trás mais comida para o Sando!” Era assim o meu Xará que a todo o custo queria me ver feliz.

Cérebro de elefante na grandeza de ver as coisas, os bois faziam dele um homem satisfeito e honrado.

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quinta-feira, 17 de março de 2016

Citação

“Trabalho sozinha. Faço agendamento, faço tudo. Isso dificulta muito, porque tem de ter sempre alguém a assessorar uma cantora, a tratar de diversos assuntos que não seriam mais da responsabilidade do artista. Porque, às vezes, quando o cantor entra em contacto directamente com os promotores, fica meio-complicado. Tem aquelas situações em que, se o promotor quiser baixar o cachet, baixa; se for para te dar voltas, te dá. Tendo um agente, esses problemas todos estariam resolv
idos.”

(Neusa Sessa, in portal Pérola das Acácias. Benguela, 16.03.2016)
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| Um conto que marcou a parte teórica do meu curso de pedreiro em 1997 | A ESCOLA. A FLOR. A FLOR. A ESCOLA...

Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza. Quando terminou a aula, me chamou. — Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco. Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a coragem entre as coisas. Afinal se decidiu. — Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade? Balancei a cabeça afirmativamente. — Da flor? É, sim, senhora. — Como é que você faz? — Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta. — Sim. Mas isso não é direito.
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quarta-feira, 16 de março de 2016

[Oficina] Crónica | NOVOS VENTOS: DEMO(S)C(R)ACIA

Texto de Lauriano Tchoia
Catete, Luanda, 13.03.2016
Como a casa é pequena as regras tinham de ser ditadas ao rigor.

Uns para aqui, “quarto dos rapazes”. Outros para lá “quarto das meninas”. Papá e mamã no quarto do meio, se vier visita, dorme na varanda.

O tudo para todos foi dando certo até então, tarefas divididas para homens e meninas.
Quem disse que rapaz tem de lavar fraldas de nenê? Quem disse que mulher tem de ser raboteira?

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Rubrica Crónicas do Metro | "Para quem não se deixa vender aos falsos moralistas"

Texto de Alexandra Sobral
Lisboa, Portugal, 23.02.2016
Eu não dou esmolas por princípio, ainda que seja um princípio repassado de excepções. No metro irritam-me sobremaneira os indivíduos que, cegos, fazem do pedir modo de vida. Alguns conheço desde o tempo de antes da minha era automobilística, alguns mantendo a postura, que já nessa época tinham, a de repetirem sem inovação a mesma lenga-lenga lamurienta e miserabilista, apelando à dor de consciência de quem, mais afortunado, pensa-se, não padece daquela insuficiência, ou ainda a de ficarem furibundos quando a colheita não corre de feição. Mas, como já atrás disse, as minhas regras, pelo menos nessa matéria, não são absolutas, o que se confirma sempre que de mim se vem aproximando o som de um certo ritmo, que já se tornou um ex libris, no que a esse aspecto respeita, do Metro de Lisboa.
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terça-feira, 15 de março de 2016

Partilhando leituras | Género dramático

Era a época das radionovelas puras. Em Havana, as emissoras encaixam uma novela à outra, da manhã à noite. A CMQ e a Cadena Azul disputam não só a audiência feminina como os roteiristas para servi-las. Os atores não dão conta, vão de cabine em cabine. Casam-se em uma, divorciam-se na outra, em todas vivem amores adocicados e tremendos desenganos. Se um deles resolve pedir aumento de salário, o diretor dá uma piscada para o roteirista e este os faz morrer no capítulo seguinte, e ressuscita quando voltam pedindo emprego. (…) Junto com o açúcar, Cuba exporta lágrimas para todo o continente. No exterior, os roteiros das radionovelas são vendidos a peso de ouro.
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segunda-feira, 14 de março de 2016

Idade de janela

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domingo, 13 de março de 2016

No calor de Março | ELA

Texto de Lauriano Tchoia
Kilamba, Luanda 12.03.2016
Altiva, serena e possessiva, é a estética de um corpo que nasceu a dançar.
Faz de Júpiter a razão guia e apaixona ao toque no sabor tácito do olhar.
Seguir em frente e não se deixar hipnotizar, qual magia de mumuila na puberdade do ufiko....
Louca a cabeça que desvia a metafísica do sono que não vem dormir de tanto pensar.
Vê-la embriagada na harmonia do jazz em pés em lustro, deslizar feita pluma sobre a sala meio escura.
E a alma não sossega. 
É assim este vazio que domina quanto mais distante da órbita te deslocas, ó forças apelativas de Zeus e Hermes do meu mito. 
DEIXA-ME POR UM MINUTO SER O TEU DONO, ...EM CONTRAMÃO!
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sábado, 12 de março de 2016

Crónica | Uma brasa ao comité do tio

Em tempos, por mais de uma vez, telefonei para uns amigos activos no exercício político-partidário ligado ao emblema tradicional da minha família (MPLA).

Entre sugestões e o puxão de orelhas, contestei o aspecto pouco atraente de alguns comités de acção, quase sempre bem localizados. Será que não podiam os deputados de cada partido contribuir com uma pequena mensalidade capaz de formar salário de uma ou duas pessoas administrativas e deste modo manter a casa aberta?

De argumento em argumento, sublinhei que tal aparente desleixo punha em causa o princípio da ascensão a partir da base, pois se não arrumamos o ponto de partida, ficaria complicado convencer novos militantes. Mas as minhas intervenções, confesso, só pecam pela sua agenda escondida, ou não fossem elas motivadas por memórias de infância e melancolia familiar. É que tal génio conselheiro só salta do estado de hibernação cada vez que passo pelo comité José Samuel, na Zona Comercial ou 28. O anúncio mais recente, colado na porta, é sobre um evento ocorrido em 2014, salvo erro.
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sexta-feira, 11 de março de 2016

Já lá vão 16 anos desde que saí | Alguém aí capaz de meter cunha para uma visita guiada minha ao estaleiro da Sonamet?

Passou-me por esta peregrina cabeça a ideia de visitar, num exercício de reencontro com o passado, o estaleiro da Sonamet (Sociedade Nacional de Metalurgia), no Lobito, empresa de construção de estruturas metálicas de apoio ao sector petrolífero, da qual fui trabalhador (Lob 020) durante 22 meses (1998-2000) como ajudante de soldador e armazenista de consumíveis para a produção, depois de um insatisfatório aproveitamento na escola de soldadura (três meses). Sei que muitos progressos têem sido registados, entre os quais a ascensão de angolanos aos cargos de chefia (até ao nível de superintendentes). Gostaria de andar pelas secções, rever o pessoal da minha geração. Sempre podia oferecer de forma simbólica alguns livros meus, por exemplo este O APITO QUE NÃO SE OUVIU, cuja crónica ASSINAR NO LOBO é referente ao meu tempo de trabalhador. Não sei é se a biblioteca ainda continua (no meu tempo, havia um pequeno club de vídeo na seccção dos recursos humanos, que disponibilizava cassetes a preto e branco e com filmes em francês). Se me deixassem, faria umas fotos. Quanto à protecção da boa imagem da empresa, podem ficar descansados, pois até tenho limites de ordem deontológica que me impediriam "beliscá-la". Então, não há aí nenhum amigo capaz de influenciar a viabilização de tal vontade deste também fundador?
Era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa
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[arquivo] "A cor dessa cidade sou eu"

Benguela, 21 Janeiro 2016
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quinta-feira, 10 de março de 2016

Partilhando leituras | Lavagante

Safio. Imagem sem assinatura de autor
«Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.»(Pag.16)
 
(José Cardoso Pires, 2008, escritor português. In «Lavagante. Encontro Desabitado», excerto. Imagem: portal O Retiro do Sossego)
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quarta-feira, 9 de março de 2016

Humor | Piada de bar

"Marreco! Ouve lá, ó corcunda! Dá-me cá um copo de água, se faz favor!"
"Sim, senhor."
"Ó homem, deixa de lhe chamar 'Marreco', pá! Ele tem nome, meu!"
"Mas por acaso ouviste o gajo a reclamar?! Ele nem se importa..."
"Não fica bem tratar o homem pela deficiência. E já lá vão cinco anos..."
"Pronto. Ó marreco! É assim, daqui para frente, vou passar a te chamar pelo teu nome, não mais marreco ou corcunda, como fiz estes anos todos."
"Ah, é assim? É de maneira que também vou deixar de cuspir no teu copo de água, como fiz estes anos todos." 
(adaptado de autor desconhecido)
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Rubrica Crónicas do Metro | Não pude deixar de ouvir

Texto de Alexandra Sobral
Lisboa, Portugal
Hoje não andei de Metro. Tinha de ir almoçar com uma cliente, perto da praia da Adraga (até parece que não faço mais nada, senão andar em almoços e jantares… enfim, de vez em quando concentra-se o social e dá nisto… e, a cause de, o que não dirão as más línguas, mas adiante…) a um estabelecimento que foi revelador das mais apaladadas e apelidadas “entradas”, que se me foram apresentadas a degustar nos últimos tempos. Tanto assim que delas, das “entradas”, não saí. Mas falar dos prazeres do palato apenas serve de intróito ao que aqui me traz, ou seja, a necessidade que uns, uns mais que outros, têm de se fazer ouvir, mesmo por aqueles que nisso não estão interessados. Lá pelo meio da segunda “entrada”, não obstante ser boa a conversa com a minha interlocutora, não pude deixar de ouvir o que um empertigado cavalheiro fazia questão de perorar, de forma bem audível para a outra ponta da sala, que era, de resto, onde eu me encontrava. Dissertava o mesmo sobre o quão são"petites" as mulheres, algumas, claro, esclarecendo que com isso pretendia dizer que as mesmas são fofinhas, docinhas, lindinhas, simpaticazinhas e outras coisas terminadas em inhas que não me dei ao trabalho de decorar. Lindo e enternecedor e agoniante… Não que eu seja dada a preocupações libertárias, porque há que tempos que sei que entre homens e mulheres a equidistância se afere pelos conhecimentos, competência e empenho que todos, e cada um, como seres humanos que são, manifestem, mas sempre me irritaram paternalismos, venham eles de onde vierem. Paternalismos, machismos, racismos, xenofobismos, chauvinismos e outros da mesma laia que se resumem à mania de uns têm de que são mais do que os outros. E isso leva-me às queixas que foram feitas, bem feitas por sinal, junto da ERC, por via do título mesquinho, desprovido (para outra expressão não usar) daquele pasquim infecto denominado Correio da Manhã, acerca dos chamamentos da cega e do cigano para o Governo… Mas isso levar-me-ia a outros considerandos que não cabem por aqui, pelo menos por hoje.
Depois falamos.
_____________ 
(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos
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Partilhando leituras | Minha terra tem

Minha terra tem
a cor
que lhe devolvemos do chão

Minha terra tem
o odor
dos que lhe separam os grãos

Minha terra tem
a força
do clandestino encontro das mãos.

poema de Arnaldo Santos, in Momentos (1958-2011), apud Revista Austral Nov/Dez 2013, pág. 98. Taag. Luanda, Angola
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terça-feira, 8 de março de 2016

Brevemente | ALMAS DE PORCELANA | Poesia de Gociante Patissa reunida em livro sob iniciativa da editora brasileira Penalux

"Ao mergulharmos no universo de Almas de Porcelana, temos que nos desamarrar daquilo que guardamos do significado de “fragilidade”. Agarrado à imagem da porcelana, Patissa sabe construir a beleza daquilo que um dia foi apenas mero barro, mas graças ao calor da poesia e ao talento do poeta transfigura-se em algo de inestimável valor. Sua fragilidade reside na apreciação pacífica que emana de seus poemas sensíveis, preciosos; há neles belas filigranas de esperança, como num delicado conjunto de fina porcelana, em cujas peças brilha um arremate de debruns nostálgicos. No vigor destes poemas, evidencia-se a demonstração de como se processa a força nos indivíduos, herdeiros de passados árduos, roubados e massacrados (ou, no mínimo, ignorados). Indivíduos que, através da própria resiliência, transformam sua vida em arte. De alto nível. As terras verde-amarelas, tão fatigadas com histórias estereotipadas sobre nossos irmãos africanos, não poderiam mais esperar para apreciar as importantes – e inevitáveis – palavras de Patissa, poeta com quem comungamos os Cantos da África e a Língua de Camões." (orelha do livro, nota do editor)
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Partilhando leituras | Uma certa Madalena

… Ruas misteriosas, sombras pelo caminho e uma sensação de perigo e paz, aquele silêncio magnífico, eu e Deus, aos poucos um e outro atleta, um e outro escravo do horário, e aquelas gloriosas mulheres que de sol-a-sol cruzam ruas e avenidas levando consigo quase sempre dois embrulhos humanos e um material, este ultimo, o garante do sustento dos humanos: zungueiras! …como em todas as manhãs, trouxe-me um: preto, cremoso, cheiroso -mesmo depois de já me ter feito companhia um outro, aceito-o, mais pela gentileza do que pelo desejo - ela que vem de outro extremo distante da cidade, e garante o pão para filhos e netos a oferecer o precioso café. Muitas vezes, o pão fica pela metade porque a outra metade é consumida na própria luta pelo pão, entre o asfalto de azul e branco e a vermelha terra batida – uma certa Madalena! Cortinas afastadas, olhar perdido no vermelho das acácias, poucas, mas tão rubras que contrastam com o céu azul onde o lápis insiste em escrever os tons da vida: certezas, incertezas, as angustias… Entrincheirados em seus pensamentos atravessam a curta avenida rumo a um longo dia que muito cedo começou (deve ter começado), lá a frente a certeza de um futuro melhor, estudantes! Um e outro, os humanos se sucedem na expectativa do amanhã incerto, e a sirene entrecorta o pensamento, é um deles rumo ao lugar onde proíbem e permitem, rumo às estratégias do egoísmo que acaba com a vida dos que dizem governar, mas, a vida segue curso... deixo o lápis solto no ar, ainda com muitos tons por escrever…e separo-me então da observação dos humanos, afinal viver ultrapassa qualquer entendimento e, e Deus, Deus certamente dá a cruz que cada um consegue carregar... eu aqui a carregar a minha!

Crónica de Anna Mathaya. Luanda, 16 dezembro 2009 (blog «Don’t Give UP»)
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segunda-feira, 7 de março de 2016

[Oficina] Crónica | «Abre Salão»

Texto de Albano Epalanga, Lobito, 07.03.2016
 (foto de autor não disponibilizada)
Maria Antónia. Calma, simples e muito reservada. Dona de uma beleza natural incomparável, era única na banda que não passava despercebida. Eu já estava com os meus 25 anos, futuro quase definido: Pastor. Muito por influência de meus pais que foram sacerdotes durante muito tempo e parece que a única forma de honrá-los seria seguir a mesma carreira «sacerdotal» fazendo jus ao ditado «filho de peixe é peixe». Os meus Pais eram responsáveis pela evangelização a nível do Lobito. Morávamos no Bairro da Bandeira, segundo alguns dos antigos moradores, o nome terá surgido devido a uma bandeira enorme (da república) que ali se achava, bem no local onde se situa a actual Comarca do Lobito.
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domingo, 6 de março de 2016

Crónica | Estará um Big Brother acima do prestígio do Ladislau?

Foto do seu mural no Facebook
Amigos, colegas e familiares juntaram-se à indignação do jornalista Ladislau Fortunato , em consequência de o profissional ter perdido a oportunidade de enriquecer o seu curriculum, desta feita para integrar a direcção de conteúdos do Big Brother Angola e Moçambique, a convite da organização.
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Contos seculares universais | O Rei Vai Nu

Foto disponível em bip.inesctec.pt
Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado.
Um dia vieram ter com ele dois aldrabões que lhe falaram assim:
– Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido – bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.
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Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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