Depois do município da Ganda, onde divulgamos a
piscina de águas naturais no topo da íngreme montanha do Atuki, desta vez a
incursão foi no município do Cubal. A intenção é a mesma de sempre: dar um
outro olhar fotográfico (não jornalístico, mas autoral) sobre potencialidades
turísticas do interior do país, onde gente, paisagem e frutos da acção humana
saltem à vista. Visitamos a Barragem do Lomaum, a mini-hídrica em construção no
Alto Cubal, entre outras coisas, o que não seria possível sem o apoio da Administração
Municipal, na pessoa do seu vice, Fernando
Belo, que
disponibilizou uma carrinha 4x4 e o motorista/guia (o jovem Valdemar Albino).
Mais fotografias vêm a caminho. Ombembwa yivyale, ou seja, viva a paz!
domingo, 10 de abril de 2016
sábado, 9 de abril de 2016
Citação
"A literatura angolana começa por ser
reconhecida como tal pelos leitores angolanos, aqueles que nela se revêm. Não
posso sentir-me satisfeito só pelo facto de um chinês ou um búlgaro achar que
neste ou naquele texto se conta uma história tipicamente angolana, mesmo quando
eles trabalham com critérios da sua cultura de origem. Será sempre necessário
ter conhecimento da tradição literária angolana e da sua especificidade."
(Luis
Kandjimbo,
ensaísta e escritor angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p.
340. União dos Escritores Angolanos)
Citação
"O futuro da literatura, de uma forma
geral, no mundo, e em Angola, em particular, não é nada risonho. Lê-se cada vez
menos. A cultura consumista derrete as emoções. Não se pensa, mostra-se o
pensamento. Não se trabalha, mostra-se o trabalho. Temos de nos mostrar. É a
aparência no seu pior a predominar."
(Cristóvão
Neto, escritor angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 103.
União dos Escritores Angolanos)
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Divulgando | Mercado brasileiro recebe «O Domador de Burros e Outros Contos», do moçambicano Aldino Muianga
Divulgando | Moçambicano Clemente Bata lança livro de contos no Brasil
«Outras
Coisas» é o título da obra composta de 10 contos que Clemente Bata traz à luz no Brasil pela editora Kapulana. Explora a
realidade do seu país ao retratar conflitos típicos das relações humanas nos
espaços rural, urbano e suburbano, com temas que vão desde o amor, os crimes,
os linchamentos populares, o alcoolismo até à violência doméstica.quinta-feira, 7 de abril de 2016
Opinião | O jornalismo, o poder tradicional e a lógica da não contradição
Políticas e politiquices à parte, e com o devido
respeito aos concidadãos que exercem a profissão de jornalista (a qual muitos
de nós relegamos para mais tarde), cada vez me questiono mais sobre a
capacidade de análise dos narradores/redactores, no que respeita a questões
elementares da história do país e idiossincrasias nossas. Tive a sorte de
aprender um pouco de lógica duas vezes na vida, tendo sido a primeira num curso básico de jornalismo e a segunda nas aulas
de filosofia no curso de licenciatura. E parto do princípio que aos
profissionais de Luanda se deve exigir um pouco mais, até porque têem mais
recursos e oportunidades de aprendizagem, com acesso ao ensino superior e tudo.
Vem isto a propósito de uma contradição (quanto a mim grave) que acaba de
desfilar numa peça de reportagem do programa dedicado à província de Luanda,
emitido pelo canal principal da TPA. Depois de anunciar como facto raro a existência
de uma mulher no poder tradicional em Catete, o narrador disse, e cito:
"Em Calomboloca, o poder tradicional é exercido com base nos critérios
estabelecidos pela população, de geração em geração". Feita a chamada, o
que o tele espetador espera é a confirmação disso mesmo no relato que vem a
seguir sobre os termos da sucessão, até porque o texto foi produzido, pelo
menos é o óbvio, com base no discurso directo da interlocutora. Para o espanto
geral (e atropelo à lógica da não contradição), eis que surge a soba Maria
nestes termos (cito de memória): "O mais velho [pai] quando morreu,
ficamos mesmo assim, tristes. Choramos, choramos, e depois como há um irmão,
decidimos que ele é que ia ficar no lugar. Mas o camarada administrador - já
sabe essa nossa vida - disse que não, que é melhor ficar uma mulher no lugar. E
assim fiquei". Ora, de onde foi o repórter tirar a ideia de ter sido uma
sucessão com base nos critérios estabelecidos pela população, se a
interlocutora, a soba Maria (poder real/tradicional/dinastia), diz precisamente que foi
co-optada pelo administrador (poder político/administrativo)? Bem sei que a
autonomia/paridade do poder tradicional é um debate que se adia desde a era
colonial. Mas é inquestionável que o país um dia terá de o agendar (com o Ministério
da Cultura a falar ao mesmo tom que o da Administração do Território), mesmo
até para se respeitar a essência étnica dos povos que fazem o mosaico desta
nação em construção, sob pena de nunca mais nos reencontrarmos neste sentido.
Gociante
Patissa, Benguela, 07 Abril 2016
Trecho | Cara Podre
Acordava sempre mal disposto. Nunca havia uma única razão. Dizem que foi
sempre assim, mas eu cá não sei se acredito. Que sonhos eram aqueles que o
procuravam durante a noite, que não sabiam sorrir? Umas vezes, cumprimentava;
outras vezes, nem por isso. A mulher até já estava acostumada, ou ao menos
parecia estar. Até há quem lhe vaticinasse morte breve. "Quem não vive
para servir não serve para viver", diziam com base no ditado. Eu já não
sei o que dizer. Sou mais inclinado para o lado daqueles que pensam que o homem
levava ao extremo o espírito da sua profissão de guarda, talvez por erro do seu
instrutor. Dele aprendera que um guarda deve ter sempre “cara podre"
(Gociante Patissa, improvisos de correspondência oficinal, Benguela 07.04.2016)
[Oficina] Crónica | Lito Katwia e as Chuvas da Capital
Nuvens cor de
cinza tapando o sol. INAMET a produzir prognósticos (coisas de kimbanda). Segue
pelo bairro Palanca, Golfes Um e Dois. Destino: conhecer a cidade do Kilamba
depois de ter visto o mar na véspera. Mbaias na destreza do piloto em terra,
azul e branco kandongueiro rumo à Meca.
![]() |
| Texto de Lauriano Tchoia Luanda, 06/04/2016 |
Viaturas em
pilhas como monte de lenha fresca a fumegar, admiração no rosto a ouvir o
zumbir nos tubos de escapes. Não se lembrava, desde que se conhece a si próprio
como pessoa, de ter visto tanto carro parado assim. Chega a ser arrepiante…
para a sua cabeça de provinciano!
“Acaba-de-me-matar”,
fumaça pelos furos a penetrar. Lata velha de ocasião. O som alto da música “mama-dji”,
de Nagrelha, não deixara perceber que a viatura tinha dado o piripaque, morreu!
Motor desligado, combustível no vermelho, justamente naquele pântano
artificial. Na rotunda do Camana, chuvas de Abril e sacos de plástico enrolando
aos pés para o desembarque. Agarrou-se à porta e, como azar não vem só, pé na
lama. Recuar é que não pode. Descuido de aldeão destreinado nas habilidades de
Luanda.
terça-feira, 5 de abril de 2016
Esclarecimento | Ausência de Gociante Patissa na Feira "Ler Paz" do Huambo
Por
razões de ordem profissional e de gestão de agendas, não poderei estar na Feira
do Livro e da Leitura "Ler Paz", marcada para o fim-de-semana de 8 a
10 de Abril, na cidade do Huambo, que está a ser organizada pelo meu mano amigo
e antigo vizinho no Lobito, Chico
Pobre, e pelo Movimento Lev'arte naquela província, onde estávamos a
projectar o lançamento dos meus livros "O Apito Que Não Se Ouviu" e
"Fátussengóla, o Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas". Para que os
amigos e leitores que tenho na província do Huambo não venham a crucificar a
organização em função da minha ausência, uma vez que figurava no cartaz do
evento, torno desde já públicas as minhas sinceras desculpas por eventuais
transtornos e, na promessa de estar presente em futuras iniciativas, aqui fica
o meu abraço sincero. Obrigado. Gociante Patissa.
Benguela, 05 Abril 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Crónica | E assim construímos reencontros
![]() |
| (C) foto: Sérgio Guerra |
Ia eu dar umas palmadinhas de empatia nas costas do
estratega, major cubano de 28 anos, barba a Ché. “CORAGEM, UNA MERDA, HOMBRE!”,
reagiu, intempestivo. O camuflado da farda coreana era irreconhecível, de tão
ensopado, mais de lágrimas, ranho e baba do que de chuva de granizo no interior
de Benguela em 1984. “CINCO HERMANOS CAÍDOS SÓLO HOY”. Estatística de um
primeiro dia para esquecer. Não se via o sol. Devia andar distraído a namorar
as nuvens de bruta chuva. Mas o relógio biológico não podia mentir. Em dias de
glória, devia poisar a mochila e abrir uma latinha da sua conserva preferida na
ração, a de porco, mas não havia fome nem peito. Cinco dos seus camaradas de
armas aguardavam por um enterro, improvisado mas condigno, ali mesmo, logo que
o tiroteio baixasse. Tinham partes dos membros por recolher entre o capinzal e
a copa de pequenitas árvores, um cenário escusado de qualificar como chocante.
Que mais minas afinavam vozes para a hora da explosão, já se sabia; só não se
sabia era onde exactamente, pelo que a hipótese de um helicóptero para a
recolha dos corpos nem se punha. Sorte a dele de ainda estar vivo, não se
sabendo ao certo para quanto tempo mais. Conseguiria por caso comer carnes? E a
missão sequer ia a meio. O único diferente aqui somos nós, continuava colérico
o major, bala na câmara, feito perigo a nu para a manutenção do moral das FAPLA
(Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), tanto do lado angolano,
como do contingente internacionalista cubano. Vai-se lá saber porquê, as baixas
neste dia só falavam espanhol. O inimigo é como vocês, fala como vocês; como
sei que não são vocês? Na recta-guarda a continuação da luta nas ondas da
rádio. Num extremo, o “Angola Combatente”. No outro, o “Alvorada”. As estações
da guerra, melhor dizer da guerrilha fratricida, podem muito bem ser contadas
em quatro actos: quando sofremos com a chuva, quando nos gela as veias o
cacimbo, quando matamos e/ou quando morremos. Ao fim de uma semana de
bombardeamentos, os resultados na contra-informação. "Na tentativa de
ocupar a localidade X, o inimigo foi rechaçado e saiu em debandada",
anunciava um lado, o que traduzido queria na verdade dizer que se reocupara
determinada localidade, até então em mãos rebeldes. "Os caudilhos,
auxiliados pelos mercenários cubanos, deixaram sangue”, anunciava o outro lado,
que chegava a recorrer às mais inverosímeis das imaginações, sendo disso
exemplo apresentar trilhos de pneus pela manhã sob alegação de ter chegado
(silencioso?) de noite avião com medicamentos. Por fim, o batalhão seguia para
outra missão, para mais um ciclo de incertezas. Implantada a bandeira, restava
aguardar pela próxima emboscada. Nada podia ser duradoiro. No meio-termo, o
povo, que adopta rapidamente o que cada lado esperava. Lei da sobrevivência.
Nas alternâncias bélicas, as inevitáveis cicatrizes sociais e familiares.
“Chegou a meio da noite, bateu à porta. Abri. Assim que abri, apontou-me a arma
na cara, ‘vais morrer hoje, seu traidor!’ Meu próprio sobrinho, agora
dirigente. Então porquê? ‘Aceitaste ser soba no tempo do inimigo’. Eu lhe
disse: filho, tem toda a razão. Até vou tirar a camisa, assim a bala entra
directamente. Mas a tua bala é comprida o suficiente para me trespassar o corpo
e atingir os dois partidos? Se não, vais ter de viajar para a Jamba e para
Luanda, assim matas a Unita e o Mpla pelo prejuízo que te vão causar. Mesmo
morto, eu pago a passagem e a comida da viagem. Se me matas, eles não perdem,
eu também não, que já estou velho. Já tu perdes um tio e a inocência. E ele
saiu a chorar, eu tremi do medo que andei a conter”. Depois veio 2002, os angolanos
ouviram o mais nobre dentro de si… e assim construímos reencontros.
Gociante Patissa, Aeroporto
Internacional da Catumbela, 04 Abril 2016
Citação
"O que mata, na ditadura, é que não há
espaço para a verdade, porque não há espaço para a vida. Porque algumas
verdades, até as mais banais, podem conduzir à morte."
(Dilma
Rousseff, presidente brasileira, falando ao congresso sobre a sua experiência
nos anos 70. Vídeo disponível no Youtube)
domingo, 3 de abril de 2016
[Oficina] Crónica | Oito Anos de Juras
![]() |
| Texto de Lauriano Tchoia Luanda, 02.04.2016 |
“Um dia frio, um
bom lugar pra ler um livro, o pensamento lá em você eu sem você não vivo”. Com
a devida permissão de Djavan, exubero-me no trecho-lenda de sua canção.
Abriam-se e
encerram-se anos aritméticos, o desespero em auto-reverso, sonho adiado e a
infindável tortura. Tardava o surgimento do rebento pretendido. Meia-volta o
suspiro, é Chissola expondo-se à permanente melancolia, mão em arco
sobrepondo-se o queixo e o plácido rosto segredando com o silêncio.
Esforços familiares
conjugados, prestativo marido sujeitando-se à vigília continua, até de beber
deixara, por se lhes ter sido dito que o álcool e o cigarro reduziam o sêmem
reprodutor.
“Então, até
agora, nada?! Nem um exemplar? O problema é teu ou dele?” Bocas de veneno,
víboras à solta, queriam saber de tudo e mais algo, como que a ajudar. Porém no
lugar de dó, trespassavam flechas sobre o cândido e já dolorido coração da
aspirante a progenitora.
sábado, 2 de abril de 2016
[Oficina] Crónica | Kissungos
Texto de Catarina Fortunato Linda
Lobito 1997. Fazia sol numa manhã fria, onde a alegria nos aquecia. Bellamie acabava de me contar do convite do tio Simonal para irmos a Benguela de comboio. Obaaaaaa!, gritei eufórica, hoje é hoje!!!... Bella sorria como só ela sabia. Para ela, eu era uma “maluca”.
Em poucos segundos, lá íamos nós de mãos dadas, abraçadas ao tio Simonal, contando humoristicamente as nossas experiências do dia -dia. E ele sorria olhando para nós com orgulho e muito agradecimento. Nem desconfiava do nosso plano de o desfalcarmos durante a viagem…
Euclides Sabino (Junho 1993 - Abril 2016)
Chegou-me esta noite a
informação do falecimento, por doença (não descrita), do jovem rastafari na
foto, uma alma conhecida pelo génio cordato e engajamento no activistmo
cultural, com destaque para a poesia e o teatro. Cruzei-me com ele em Benguela,
no mês de Março de 2014, por ocasião do recital "Para Ti Mulher",
realizado na Mediateca pelo Movimento Lev'arte (versão pré dissidência),
tendo-me brindado com a declamação de poemas do meu livro de estreia,
"Consulado do Vazio". Residia em Luanda e frequentava o curso de
comunicação social. Uma partida prematura, indiscutivelmente!
Gociante
Patissa, 02.01.2016sexta-feira, 1 de abril de 2016
Citação
"Ela até aqui mesmo não tem argumentos de
razão do motivo que lhe faz ficar com aquele senhor."
(Anónimo
da mesa ao lado)
quinta-feira, 31 de março de 2016
Diário | Afinali?...
"Meu
kota, esse livro é mbora da igreja?"
"Não."
"Waaah"
"É literatura."
"Afinali?..."
"Sim. É uma novela."
"Hahahah. Afinal também há livro de novela?"
"Não."
"Waaah"
"É literatura."
"Afinali?..."
"Sim. É uma novela."
"Hahahah. Afinal também há livro de novela?"
GP,
Malanje, 2013
EM PLENA AVALIAÇÃO ORAL NUMA AULA DO CURSO DE DIREITO (de certa Universidade em Benguela há poucos anos):
Professor:
“Qual é o papel de um juiz?”
Estudante: “Condenar, professor! O papel do juiz é condenar!”
quarta-feira, 30 de março de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
A QUEM POSSA INTERESSAR: "Gostaria que convidasse escritores angolanos que escrevam com qualidade para colaborarem"
Fui
contactado há dias por uma interessante revista cultural inter-comunitária,
mensalmente editada na Europa, no sentido de retomar a minha colaboração, que
se ficou o ano passado por dois textos. É um projecto editorial que visa a
integração de artigos do espaço de língua portuguesa e por vezes também acolhe
textos em espanhol. Para aqueles que estão na escrita como missão, a
colaboração, ainda que não remunerada monetariamente, pode ser uma oportunidade
de conquistar leitores fora "da zona de conforto". Para mais
informações, estou no patissagociante@yahoo.com
Era só isso. Obrigado.
segunda-feira, 28 de março de 2016
Citação
“A
literatura é quase sempre uma perspectiva diferenciada de se olhar uma mesma
sociedade maculada pela oficialidade dos factos. Os textos literários não são –
ou não devem ser – para consumo imediato. Parece-me que esta é uma divergência
entre a literatura comparada e os estudos culturais. Mesmo que não queiramos
admitir, a literatura é um produto elitista: não é qualquer um que o consome ou
compreende. E essa ideia exclusivista do produto literário coloca-o numa prateleira diferenciada e a apreciação exige outros
requisitos de consumo e compreensão. O que é literário não é sensacionalista a
favor ou a desfavor. É literário e pronto. As abordagens, perspectivas,
referências e outros, como podemos observar em certos romances históricos, não
sendo história nem oficial, trazem outros desafogos dum mesmo mundo. Os meios
existirão sempre, mas não esgotarão a capacidade de o produto literário
conquistar os outros olhares necessários à construção de vários prismas.”
(António
Quino, jornalista, escritor, ensaísta e professor angolano, entrevistado pelo
portal Rede
Angola, 28.03.2016)
domingo, 27 de março de 2016
Diário | E quem te autorizou por escrito, hã?
“Senhor Director, vim falar com o senhor
Director.”
“Qual é o
assunto?”
“Queria
uma guia médica. O corpo não está só assim bem…”
“MAS ISSO NÃO É ASSIM, Ó SENHOR
PROFESSOR!!!”
“Diga?”
“E quem te autorizou por escrito, hã?”
“Autorização para quê?”
“Ficar doente…”
“Mas doença é doença, senhor Director…!”
“Seja o que for, tem que saber esperar a tua vez! A
tua colega Doroteia já não pediu guia? Não autorizei?”
“Sim…”
“Mas então se a outra ainda não acabou o
tratamento, você agora vem outra vez com essa conversa? Vocês não sabem que no
hospital os medicamentos são poucos, reagentes para análises é ouro? Quer
dizer, logo, logo a minha escola entra na estatística… com dois professores a
dar cabo dos medicamentos?”
“Mas vou fazer mais como, ó senhor Director?”
“Volta para o teu trabalho, mais é, homem! Há gente
mais carente de remédios; não é um professor!!! Vá, agora desaparece-me das
vistas e vê se ficas doente mais tarde; nessa época de crise é que não! Faço-me
entender, pá?! Aprende de uma vez por todas a evitar gastos no OGE, ok?!
GP, Lubango, 27.03.2016
sábado, 26 de março de 2016
Tudo é alguma coisa
Diante da felicidade
da prosperidade
longas filas.
Nos bairros nus
tantos corpos nus por vestir
crianças perdidas por salvar
palavras obscuras por apagar
do Livro do Mundo –
se o ler, perco a minha vista.
Tudo está nas pedras do caminho.
Tudo é alguma coisa.
Em torno dessa alguma coisa
eu escondo a minha pele
transformo-me em nada.
Mergulhado numa água por branquear.
João Maimona, in “Trajectória Obliterada”, pág. 53. União dos Escritores Angolanos, 2013. Colecção 11 Clássicos da Literatura Angolana, 1ª edição. Luanda
da prosperidade
longas filas.
Nos bairros nus
tantos corpos nus por vestir
crianças perdidas por salvar
palavras obscuras por apagar
do Livro do Mundo –
se o ler, perco a minha vista.
Tudo está nas pedras do caminho.
Tudo é alguma coisa.
Em torno dessa alguma coisa
eu escondo a minha pele
transformo-me em nada.
Mergulhado numa água por branquear.
João Maimona, in “Trajectória Obliterada”, pág. 53. União dos Escritores Angolanos, 2013. Colecção 11 Clássicos da Literatura Angolana, 1ª edição. Luanda
citação
"Chefe, chefe! O chefe sabe que eu não tenho lá muito estudo na cabeça. O chefe sabe também que de ideias não sou bom, mas acho que a minha ideia com as ideias dos outros podem-se aproveitar. Então, ó chefe, se cada vez que chove, as pessoas sofrem, as cidades ficam intransitaveis... né?... E é o país todo. Quer dizer que o nosso problema é os esgotos que não existem ou não funcionam. Mas assim, ó chefe, será que não dá para pegar assim uns quinhentos gajos, lhes mandar ao estrangeiro, para estudar sistemas de esgoto?"
(De uma pessoa devidamente identificada, Catumbela. 24.03.2016)
www.angodebates.blogspot.com
(De uma pessoa devidamente identificada, Catumbela. 24.03.2016)
www.angodebates.blogspot.com
quarta-feira, 23 de março de 2016
terça-feira, 22 de março de 2016
O que ficou por dizer no aparente desmaio em directo do repórter TPA hoje?
Fiquei com a impressão que o repórter da TPA,
Alves Fernandes, desmaiou durante o apontamento em directo agora há pouco (22/03/2016) no
telejornal. Alves entrevistava uma alta patente militar em Menongue, Kwando
Kubango, sobre inauguração amanhã de uma grande ponte. A meio da entrevista, perdeu
equilíbrio e foi agarrado por um senhor que estava aí lado, momento em que a
pivot Ana Lemos interrompeu o directo como se nada se passasse. A ausência de uma informação oficial só pode contribuir
negativamente, pois abre espaço à especulação.
Diário | Você lhe chamou de porco ou não?
"Obrigado,
meritíssimo."
"MAS O QUE É QUE QUER ACRESCENTAR MAIS, SE O DEFENSOR OFICIOSO JÁ TUDO FEZ POR SI?"
"Meritíssimo, eu apelo à sua generosidade, por favor. Tem de me perdoar, porque não vou aguentar tanto processo..."
"'TANTO PROCESSO', COMO ASSIM?"
"A pessoa não pode ser julgada duas vezes pelo mesmo crime, não é isso?"
"MEU CARO, NÃO ESTAMOS PROPRIAMENTE NUMA AULA DE JURISPRUDÊNCIA, ESTÁ BEM?"
"Meritíssimo, eu apelo que reconsidere. Dois processos é muito..."
"VOCÊ CHAMOU O SEU VIZINHO DE PORCO, ACUSANDO-O DE DESVIAR AS OFERTAS DA IGREJA PARA COMPRAR UMA MOTORIZADA PESSOAL. O OFENDIDO PEDE REPARAÇÃO PELOS DANOS MORAIS AO BOM NOME. NÃO SEI SE SABE, MAS A LEI DEVE SER CUMPRIDA. VOCÊ LHE CHAMOU DE PORCO OU NÃO?"
"É esse o problema, meritíssimo. Os porcos abriram outro processo contra mim por esta comparação, sentem-se difamados. Assim vou indemnizar quem neste meio?"
"MAS O QUE É QUE QUER ACRESCENTAR MAIS, SE O DEFENSOR OFICIOSO JÁ TUDO FEZ POR SI?"
"Meritíssimo, eu apelo à sua generosidade, por favor. Tem de me perdoar, porque não vou aguentar tanto processo..."
"'TANTO PROCESSO', COMO ASSIM?"
"A pessoa não pode ser julgada duas vezes pelo mesmo crime, não é isso?"
"MEU CARO, NÃO ESTAMOS PROPRIAMENTE NUMA AULA DE JURISPRUDÊNCIA, ESTÁ BEM?"
"Meritíssimo, eu apelo que reconsidere. Dois processos é muito..."
"VOCÊ CHAMOU O SEU VIZINHO DE PORCO, ACUSANDO-O DE DESVIAR AS OFERTAS DA IGREJA PARA COMPRAR UMA MOTORIZADA PESSOAL. O OFENDIDO PEDE REPARAÇÃO PELOS DANOS MORAIS AO BOM NOME. NÃO SEI SE SABE, MAS A LEI DEVE SER CUMPRIDA. VOCÊ LHE CHAMOU DE PORCO OU NÃO?"
"É esse o problema, meritíssimo. Os porcos abriram outro processo contra mim por esta comparação, sentem-se difamados. Assim vou indemnizar quem neste meio?"
Excerto
"Temos
uma crítica muito forte e assertiva sobre os manuais do sistema de educação em
Angola. Posso dizer publicamente, mesmo que não seja entendido, que isso tem
muito a ver com as assessorias estrangeiras, particularmente a portuguesa, que
vão sendo buscadas para elaboração do sistema de ensino angolano. E é por isso
que a nossa história que está a ser ensinada aos miúdos continua a ser
adulterada.
A
literatura que é ensinada não é suficiente nem é bastante, e assim sucessivamente. Aliás, independentemente da minha
condição de escritor e autor como estou a falar, também sou um quadro do
Ministério da Cultura. Posso dizer-vos seguramente que o Ministério da Cultura
em tempo útil pronunciou-se sobre essa questão, daquilo que são os conteúdos da
história e da literatura.
Chegou
mesmo a ser criada uma comissão que envolvia a comunicação social, educação e a
cultura para abordar essa problemática. Não sei em que ponto ficou essa
situação, mas houve essa preocupação. Mas enquanto cidadão escritor assumo essa
afirmação de que os manuais estão errados na sua substância e não vão
contribuir seguramente para aquilo que é o propósito do patriotismo, da
angolanidade e da cultura angolana, do homem angolano consciente da sua
história e do interesse da cultura."
(António Fonseca, jornalista, escritor e docente angolano, in entrevista ao Jornal O País, Luanda, 22/02/2016)
Citação
“Eu
creio que o critério da naturalidade não é suficiente nem bastante para
identificar um autor como autor de literatura angolana. Temos autores que
nasceram em Angola mas que escreveram literatura colonial. Portanto, não são
autores de literatura angolana. Entretanto, temos autores que não nasceram
em Angola, mas, efectivamente, engajaram-se com a angolanidade
com obras monumentais no quadro da literatura angolana. Agora, o problema que
podemos discutir é
se no contexto do século
XVII, em que é referido António Dias Macedo, António de Oliveira Cadorneira, na
História das Guerras Angolanas, e sendo ele um nativo, o próprio José da Silva
Maia Ferreira, um mestiço de Benguela, se naquele contexto
em que os letrados eram educados de maneira europeia, se podemos
relativizar e dizermos que este era nacional, de Benguela e é de facto o patrono
da literatura angolana.”
(António Fonseca, jornalista, escritor e
docente angolano, in entrevista ao Jornal O País, Luanda, 22/02/2016)
domingo, 20 de março de 2016
Dos meus, o livro mais vendido de sempre | «Fátussengóla, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas»
“Devo
comunicar-lhe que do seu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA
DÚVIDAS, foram vendidos 441 exemplares”, escreveu-me anteontem o distribuidor,
reportando-se ao período de Fevereiro de 2015 a Fevereiro de 2016. Julgo que
três factores terão determinado o que no mercado angolano representa um
retumbante indicador de vendas: (a) O preço de capa barato, que é de quinhentos
Kwanzas; (b) A divulgação do livro com breve sinopse
através de spots esporádicos na TPA2 desde Novembro de 2014, altura do
lançamento; (c) Uma estratégia funcional (podia ser melhor) de distribuição
(que envolve as livrarias do grupo Texto Editores e a rede de mercados KERO).
Pois, como é bem sabido, o grande calcanhar de Aquiles da literatura feita em
Angola (mais do que na alegada fraca procura ou pobres hábitos de leitura)
reside exactamente na ausência da figura do distribuidor, com os livros
geralmente a ganharem bolor encaixotados na editora, sem falar da moda que é a
tiragem não passar de mil exemplares por título, tão desproporcional para um
país com 18 províncias e mais de 20 milhões de habitantes.
Este
meu segundo livro de contos faz parte de 11 obras inéditas selecionadas por
candidatura à Bolsa Ler Angola, colecção designada «Novos Autores», do programa
«Ler Angola», levado a cabo pelo GRECIMA (Gabinete de Revitalização e Execução
da Comunicação Institucional e Marketing da Administração), que também reedita
obras mais antigas na colecção «11 Clássicos».
sábado, 19 de março de 2016
PARA IR OUVINDO (1h20min): 17.03.2016: Mesa-Redonda na Rádio Benguela, programa "Tudo à Noite", moderado por Aldemiro Cussivila (locutor), com análises de Alves Bambi (professor e estudante de direito), António Andrade (Engenheiro) Hélder Elavoko (Associação de Pais, ONG), José Mulangui (sociólogo), Gociante Patissa (escritor e activista social) O PAPEL DO PAI NA SOCIEDADE (COM INCIDÊNCIA NA FUGA À PATERNIDADE)
sexta-feira, 18 de março de 2016
[Oficina] Crónica | Sando (Xará ) II
quinta-feira, 17 de março de 2016
Citação
“Trabalho sozinha. Faço agendamento, faço tudo.
Isso dificulta muito, porque tem de ter sempre alguém a assessorar uma cantora,
a tratar de diversos assuntos que não seriam mais da responsabilidade do
artista. Porque, às vezes, quando o cantor entra em contacto directamente com
os promotores, fica meio-complicado. Tem aquelas situações em que, se o
promotor quiser baixar o cachet, baixa; se for para te dar voltas, te dá. Tendo
um agente, esses problemas todos estariam resolvidos.”
(Neusa
Sessa, in portal Pérola das Acácias. Benguela, 16.03.2016)
| Um conto que marcou a parte teórica do meu curso de pedreiro em 1997 | A ESCOLA. A FLOR. A FLOR. A ESCOLA...
Tudo
ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar
com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela
olhou para mim com tristeza. Quando terminou a aula, me chamou. — Quero falar
uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco. Ficou arrumando a bolsa que não
acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava
a coragem entre as coisas. Afinal se decidiu. — Godofredo me contou uma coisa muito
feia de você, Zezé. É verdade? Balancei a cabeça afirmativamente. — Da flor? É,
sim, senhora. — Como é que você faz? — Levanto mais cedo e passo no jardim da
casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo
uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta. — Sim. Mas isso não é direito.
quarta-feira, 16 de março de 2016
[Oficina] Crónica | NOVOS VENTOS: DEMO(S)C(R)ACIA
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| Texto de Lauriano Tchoia Catete, Luanda, 13.03.2016 |
Como a casa é
pequena as regras tinham de ser ditadas ao rigor.
Uns para aqui, “quarto
dos rapazes”. Outros para lá “quarto das meninas”. Papá e mamã no quarto do
meio, se vier visita, dorme na varanda.
O tudo para
todos foi dando certo até então, tarefas divididas para homens e meninas.
Quem disse que
rapaz tem de lavar fraldas de nenê? Quem disse que mulher tem de ser raboteira?
Rubrica Crónicas do Metro | "Para quem não se deixa vender aos falsos moralistas"
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| Texto de Alexandra Sobral Lisboa, Portugal, 23.02.2016 |
Eu não dou esmolas por princípio, ainda
que seja um princípio repassado de excepções. No metro irritam-me sobremaneira
os indivíduos que, cegos, fazem do pedir modo de vida. Alguns conheço desde o
tempo de antes da minha era automobilística, alguns mantendo a postura, que já
nessa época tinham, a de repetirem sem inovação a mesma lenga-lenga lamurienta
e miserabilista, apelando à dor de consciência de quem, mais afortunado, pensa-se, não
padece daquela insuficiência, ou ainda a de ficarem furibundos quando a
colheita não corre de feição. Mas, como já atrás disse, as minhas regras, pelo
menos nessa matéria, não são absolutas, o que se confirma sempre que de mim se
vem aproximando o som de um certo ritmo, que já se tornou um ex libris, no que
a esse aspecto respeita, do Metro de Lisboa.
terça-feira, 15 de março de 2016
Partilhando leituras | Género dramático
Era a época das
radionovelas puras. Em Havana, as emissoras encaixam uma novela à outra, da
manhã à noite. A CMQ e a Cadena Azul disputam não só a audiência feminina como
os roteiristas para servi-las. Os atores não dão conta, vão de cabine em
cabine. Casam-se em uma, divorciam-se na outra, em todas vivem amores
adocicados e tremendos desenganos. Se um deles resolve pedir aumento de
salário, o diretor dá uma piscada para o roteirista e este os faz morrer no
capítulo seguinte, e ressuscita quando voltam pedindo emprego. (…) Junto com o
açúcar, Cuba exporta lágrimas para todo o continente. No exterior, os roteiros
das radionovelas são vendidos a peso de ouro.segunda-feira, 14 de março de 2016
domingo, 13 de março de 2016
Partilho uma amostra do resultado de uma tarde animada e criativa na sessão fotográfica (voluntária) à cantora Neusa Sessa (participante no The Voice angola 2016), numa grande entrevista feita por um amigo para o seu portal. Sei que o dono da matéria vai-me matar, pelo que, como cantou o outro, "se preparem para receber o corpo" hahaha
No calor de Março | ELA
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| Texto de Lauriano Tchoia Kilamba, Luanda 12.03.2016 |
Altiva,
serena e possessiva, é a estética de um corpo que nasceu a dançar.
Faz de Júpiter a razão guia e apaixona ao toque no sabor tácito do olhar.
Seguir em frente e não se deixar hipnotizar, qual magia de mumuila na puberdade
do ufiko....
Louca a cabeça que desvia a metafísica do sono que não vem dormir de tanto
pensar.
Vê-la embriagada na harmonia do jazz em pés em lustro, deslizar feita pluma
sobre a sala meio escura.
E a alma não sossega.
É assim este vazio que domina quanto mais distante da órbita te deslocas, ó
forças apelativas de Zeus e Hermes do meu mito.
DEIXA-ME POR UM MINUTO SER O TEU DONO, ...EM CONTRAMÃO!
sábado, 12 de março de 2016
Crónica | Uma brasa ao comité do tio
Em
tempos, por mais de uma vez, telefonei para uns amigos activos no exercício
político-partidário ligado ao emblema tradicional da minha família (MPLA).
Entre
sugestões e o puxão de orelhas, contestei o aspecto pouco atraente de alguns
comités de acção, quase sempre bem localizados. Será que não podiam os
deputados de cada partido contribuir com uma pequena mensalidade capaz de formar
salário de uma ou duas pessoas administrativas e deste modo manter a casa aberta?
De
argumento em argumento, sublinhei que tal aparente desleixo punha em causa o
princípio da ascensão a partir da base, pois se não arrumamos o ponto de
partida, ficaria complicado convencer novos militantes. Mas as minhas
intervenções, confesso, só pecam pela sua agenda escondida, ou não fossem elas
motivadas por memórias de infância e melancolia familiar. É que tal génio
conselheiro só salta do estado de hibernação cada vez que passo pelo comité
José Samuel, na Zona Comercial ou 28. O anúncio mais recente, colado na porta, é
sobre um evento ocorrido em 2014, salvo erro.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Já lá vão 16 anos desde que saí | Alguém aí capaz de meter cunha para uma visita guiada minha ao estaleiro da Sonamet?
Passou-me por esta
peregrina cabeça a ideia de visitar, num exercício de reencontro com o passado,
o estaleiro da Sonamet (Sociedade Nacional de Metalurgia), no Lobito, empresa
de construção de estruturas metálicas de apoio ao sector petrolífero, da qual fui
trabalhador (Lob 020) durante 22 meses (1998-2000) como ajudante de soldador e
armazenista de consumíveis para a produção, depois de um insatisfatório
aproveitamento na escola de soldadura (três meses). Sei que muitos progressos
têem sido registados, entre os quais a ascensão de angolanos aos cargos de
chefia (até ao nível de superintendentes). Gostaria de andar pelas secções,
rever o pessoal da minha geração. Sempre podia oferecer de forma simbólica
alguns livros meus, por exemplo este O APITO QUE NÃO SE OUVIU, cuja crónica
ASSINAR NO LOBO é referente ao meu tempo de trabalhador. Não sei é se a
biblioteca ainda continua (no meu tempo, havia um pequeno club de vídeo na
seccção dos recursos humanos, que disponibilizava cassetes a preto e branco e
com filmes em francês). Se me deixassem, faria umas fotos. Quanto à protecção
da boa imagem da empresa, podem ficar descansados, pois até tenho limites de
ordem deontológica que me impediriam "beliscá-la". Então, não há aí
nenhum amigo capaz de influenciar a viabilização de tal vontade deste também
fundador?
Era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa
quinta-feira, 10 de março de 2016
Partilhando leituras | Lavagante
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| Safio. Imagem sem assinatura de autor |
«Então
expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa
memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como
ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as
horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes
sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de
sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na
abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento, fica sabendo, o lavagante
servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras
afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.»(Pag.16)
(José
Cardoso Pires, 2008, escritor português. In «Lavagante. Encontro Desabitado»,
excerto. Imagem: portal O Retiro do Sossego)
quarta-feira, 9 de março de 2016
Humor | Piada de bar
"Marreco!
Ouve lá, ó corcunda! Dá-me cá um copo de água, se faz favor!"
"Sim, senhor."
"Ó homem, deixa de lhe chamar 'Marreco', pá! Ele tem nome, meu!"
"Mas por acaso ouviste o gajo a reclamar?! Ele
nem se importa..."
"Não fica bem tratar o homem pela deficiência.
E já lá vão cinco anos..."
"Pronto. Ó marreco! É assim, daqui para
frente, vou passar a te chamar pelo teu nome, não mais marreco ou corcunda,
como fiz estes anos todos."
"Ah, é assim? É de maneira que também vou deixar
de cuspir no teu copo de água, como fiz estes anos todos."
(adaptado de autor desconhecido)
Rubrica Crónicas do Metro | Não pude deixar de ouvir
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| Texto de Alexandra Sobral Lisboa, Portugal |
Hoje não andei de Metro. Tinha de ir almoçar com uma
cliente, perto da praia da Adraga (até parece que não faço mais nada, senão
andar em almoços e jantares… enfim, de vez em quando concentra-se o social e dá
nisto… e, a cause de, o que não dirão as más línguas, mas adiante…) a um
estabelecimento que foi revelador das mais apaladadas e apelidadas “entradas”,
que se me foram apresentadas a degustar nos últimos tempos. Tanto assim que
delas, das “entradas”, não saí. Mas falar dos prazeres do palato apenas serve
de intróito ao que aqui me traz, ou seja, a necessidade que uns, uns mais que
outros, têm de se fazer ouvir, mesmo por aqueles que nisso não estão
interessados. Lá pelo meio da segunda “entrada”, não obstante ser boa a
conversa com a minha interlocutora, não pude deixar de ouvir o que um
empertigado cavalheiro fazia questão de perorar, de forma bem audível para a
outra ponta da sala, que era, de resto, onde eu me encontrava. Dissertava o
mesmo sobre o quão são"petites" as mulheres, algumas, claro,
esclarecendo que com isso pretendia dizer que as mesmas são fofinhas, docinhas,
lindinhas, simpaticazinhas e outras coisas terminadas em inhas que não me dei
ao trabalho de decorar. Lindo e enternecedor e agoniante… Não que eu seja dada
a preocupações libertárias, porque há que tempos que sei que entre homens e mulheres
a equidistância se afere pelos conhecimentos, competência e empenho que todos,
e cada um, como seres humanos que são, manifestem, mas sempre me irritaram
paternalismos, venham eles de onde vierem. Paternalismos, machismos, racismos,
xenofobismos, chauvinismos e outros da mesma laia que se resumem à mania de uns
têm de que são mais do que os outros. E isso leva-me às queixas que foram
feitas, bem feitas por sinal, junto da ERC, por via do título mesquinho,
desprovido (para outra expressão não usar) daquele pasquim infecto denominado
Correio da Manhã, acerca dos chamamentos da cega e do cigano para o Governo…
Mas isso levar-me-ia a outros considerandos que não cabem por aqui, pelo menos
por hoje.
Depois falamos.
_____________
(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos
Partilhando leituras | Minha terra tem
Minha terra tem
a cor
que lhe devolvemos do chão
Minha terra tem
o odor
dos que lhe separam os grãos
Minha terra tem
a força
do clandestino encontro das mãos.
terça-feira, 8 de março de 2016
Brevemente | ALMAS DE PORCELANA | Poesia de Gociante Patissa reunida em livro sob iniciativa da editora brasileira Penalux
"Ao mergulharmos no universo de Almas de
Porcelana, temos que nos desamarrar daquilo que guardamos do significado de
“fragilidade”. Agarrado à imagem da porcelana, Patissa sabe construir a beleza
daquilo que um dia foi apenas mero barro, mas graças ao calor da poesia e ao
talento do poeta transfigura-se em algo de inestimável valor. Sua fragilidade reside na apreciação pacífica
que emana de seus poemas sensíveis, preciosos; há neles belas filigranas de
esperança, como num delicado conjunto de fina porcelana, em cujas peças brilha
um arremate de debruns nostálgicos. No vigor destes poemas, evidencia-se a
demonstração de como se processa a força nos indivíduos, herdeiros de passados
árduos, roubados e massacrados (ou, no mínimo, ignorados). Indivíduos que, através
da própria resiliência, transformam sua vida em arte. De alto nível. As terras
verde-amarelas, tão fatigadas com histórias estereotipadas sobre nossos irmãos
africanos, não poderiam mais esperar para apreciar as importantes – e
inevitáveis – palavras de Patissa, poeta com quem comungamos os Cantos da
África e a Língua de Camões." (orelha do livro, nota do editor)
Partilhando leituras | Uma certa Madalena
…
Ruas misteriosas, sombras pelo caminho e uma sensação de perigo e paz, aquele
silêncio magnífico, eu e Deus, aos poucos um e outro atleta, um e outro escravo
do horário, e aquelas gloriosas mulheres que de sol-a-sol cruzam ruas e
avenidas levando consigo quase sempre dois embrulhos humanos e um material,
este ultimo, o garante do sustento dos humanos: zungueiras! …como em todas as
manhãs, trouxe-me um: preto, cremoso, cheiroso -mesmo depois de já me ter feito companhia um outro, aceito-o,
mais pela gentileza do que pelo desejo - ela que vem de outro extremo distante
da cidade, e garante o pão para filhos e netos a oferecer o precioso café.
Muitas vezes, o pão fica pela metade porque a outra metade é consumida na
própria luta pelo pão, entre o asfalto de azul e branco e a vermelha terra
batida – uma certa Madalena! Cortinas afastadas, olhar perdido no vermelho das
acácias, poucas, mas tão rubras que contrastam com o céu azul onde o lápis
insiste em escrever os tons da vida: certezas, incertezas, as angustias…
Entrincheirados em seus pensamentos atravessam a curta avenida rumo a um longo
dia que muito cedo começou (deve ter começado), lá a frente a certeza de um
futuro melhor, estudantes! Um e outro, os humanos se sucedem na expectativa do
amanhã incerto, e a sirene entrecorta o pensamento, é um deles rumo ao lugar
onde proíbem e permitem, rumo às estratégias do egoísmo que acaba com a vida
dos que dizem governar, mas, a vida segue curso... deixo o lápis solto no ar,
ainda com muitos tons por escrever…e separo-me então da observação dos humanos,
afinal viver ultrapassa qualquer entendimento e, e Deus, Deus certamente dá a
cruz que cada um consegue carregar... eu aqui a carregar a minha!
Crónica
de Anna Mathaya. Luanda, 16 dezembro 2009 (blog «Don’t Give UP»)
segunda-feira, 7 de março de 2016
[Oficina] Crónica | «Abre Salão»
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| Texto de Albano Epalanga, Lobito, 07.03.2016 (foto de autor não disponibilizada) |
Maria Antónia. Calma, simples e muito
reservada. Dona de uma beleza natural incomparável, era única na banda que não
passava despercebida. Eu já estava com os meus 25 anos, futuro quase definido:
Pastor. Muito por influência de meus pais que foram sacerdotes durante muito
tempo e parece que a única forma de honrá-los seria seguir a mesma carreira
«sacerdotal» fazendo jus ao ditado «filho de peixe é peixe». Os meus Pais eram
responsáveis pela evangelização a nível do Lobito. Morávamos no Bairro da
Bandeira, segundo alguns dos antigos moradores, o nome terá surgido devido a
uma bandeira enorme (da república) que ali se achava, bem no local onde se
situa a actual Comarca do Lobito.
domingo, 6 de março de 2016
Crónica | Estará um Big Brother acima do prestígio do Ladislau?
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| Foto do seu mural no Facebook |
Amigos, colegas e familiares juntaram-se à
indignação do jornalista Ladislau
Fortunato , em consequência de o profissional ter perdido a
oportunidade de enriquecer o seu curriculum, desta feita para integrar a
direcção de conteúdos do Big Brother Angola e Moçambique, a convite da
organização.
Contos seculares universais | O Rei Vai Nu
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| Foto disponível em bip.inesctec.pt |
Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava
de andar muito bem arranjado.
Um dia
vieram ter com ele dois aldrabões que lhe falaram assim:
– Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido – bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.
– Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido – bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.












































