Acabo
de receber duas músicas em estilo Jazz, da autoria de Ndaka Yo Wiñi (na língua
Umbundu, A Voz do Povo), natural de Benguela e com vivências no Huambo e
Cabinda, um talento que por Luanda se vai afirmando essencialmente numa
vertente que mistura o experimental com temas do cancioneiro popular Umbundu,
sem deixar de cantar originais. Na sua elaboração estética e sonoridade, as
faixas promocionais são um convite para outros
paladares e sair um pouco da mesmice cada vez mais redundante do que "está
a bater". Então, toca a divulgar? Em caso de interesse, o e-mail é
patissagociante@yahoo.comquinta-feira, 3 de março de 2016
Outro desafio para amigos (no activo) com programas radiofónicos
Acabo
de receber duas músicas em estilo Jazz, da autoria de Ndaka Yo Wiñi (na língua
Umbundu, A Voz do Povo), natural de Benguela e com vivências no Huambo e
Cabinda, um talento que por Luanda se vai afirmando essencialmente numa
vertente que mistura o experimental com temas do cancioneiro popular Umbundu,
sem deixar de cantar originais. Na sua elaboração estética e sonoridade, as
faixas promocionais são um convite para outros
paladares e sair um pouco da mesmice cada vez mais redundante do que "está
a bater". Então, toca a divulgar? Em caso de interesse, o e-mail é
patissagociante@yahoo.comquarta-feira, 2 de março de 2016
Fábulas da Nossa Terra | O Cão, o Gato e o peixe na grelha
Pelo menos uma vez na vida, o Cão e o Gato
tentaram levar uma vida pacífica. É que não se justificava mais – entendiam
ambos – a rivalidade, vivendo sob o mesmo tecto:
– Vizinho Cão, consegues dizer-me a razão
de sermos inimigos?
– Para ser sincero, mano Gato, eis uma
pergunta que nunca ninguém me soube explicar! E, por falar nisso, já agora, essa
pergunta assim é p’ra quê?
– Bem, não é nada de especial. Mas…
– Eh pá! Acho melhor te afastares. Não penses
tu que me apanhaste a pata!!!
– Lá estás tu, ó Cão, com a tua parvoíce!
Por acaso te faz mal conversarmos?
terça-feira, 1 de março de 2016
Citação
"Esses anos todos, a pessoa já não conhece
o homem que tem?... O meu marido até, lá em casa, nós lhe demos nome. O nome
dele é só mesmo 'O Pediram Quanto?' Está sempre na via para trabalhar. Assim
mesmo… quatro horas… você lhe encontrar na cama?... Não é ele! Se é reunião na
escola da criança, se é consulta, até já nem espera você acabar de falar, a
resposta dele é só uma: 'Pediram Quanto?' Ó coiso, você, como pai, não
acompanha, é só dinheiro?!"
Crónica | Um sobrinho e a língua que não foi falada
![]() |
| Texto de Lauriano Tchoia Kuito 28 Fevereiro 2016 |
Olhos perfilando, na
ânsia de que algo mais poderá acontecer.
Entre ir à escola e
não, a fome empurrava para o lado da preguiça. Se dependesse apenas de mim, não
seria difícil determinar a escolha, sabendo que o foco alimentar tem resultados
imediatos. O que não entendia era o porquê de tantas disciplinas na escola, se
na prática não iremos fazer uso dela.
Lá fomos sem resmungar
para o cumprimento do dever do pioneiro, carregando na sacola uma batata doce assada
na véspera, com a missão de celebrar a morte da fome que não tardaria a chegar.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Contos da nossa Terra │O preço de um milagre (*)
Depois
de receber uma convocatória mais ou menos furiosa para comparecer no dia seguinte
à residência do Rei, o aldeão, meio-jovem, meio-homem, era um turbilhão de ideias.
Da boca do emissário, de tão telegráfico, podia-se muito bem inventariar a
mensagem em quatro palavras: “Henlã kekumbi konjo yaSoma” (amanhã à tarde em
casa do Rei). Nada mais acrescentou, nem era preciso. O assunto era grave.
O convocado
nada disse às pessoas com quem vivia. Tentou dormir. Foi assim que se lembrou
da mais sábia das soluções, acreditava ele. Fez-se à residência do mestre
sobrenatural. No escuro, manteve-se quieto, sem deixar de garantir estar fora
do alcance dos cães, ao mesmo tempo guardas e caçadores, muito amantes de ossos
(ele era muito magro).
“Tu
por aqui?”, indagou o dono de casa que deu pelo intruso no momento em que ia
atrás da árvore para aliviar a bexiga dos líquidos do dia anterior.
“Sim,
mestre, nem deixei os galos cantarem. Fui chamado pelo Rei…”
“Queres
que eu vá no teu lugar?”
“Não
é isso, mestre, quero que me tires as culpas…A fama de bom curandeiro é grande.
E se fama tem, solução também… Até porque o mestre também é feiticeiro, ou não
é?
“Ó
rapaz, cuidado, hã? Pelas tuas palavras tortas, você estragou coisa grande, não
é?”
“Engravidei
a filha do Rei, papá. Sem apresentação, sem alembamento, ainda por cima, sem
profissão, sem herança, sem beleza…”
“Mas
força de homem tens. Que mal te podem fazer?”
“O
mestre esqueceu que Rei é sempre a Lei?”
A
dado momento, a mulher do Rei interrompia para servir chá com batata-doce
fervida.
“Pago duas galinhas, um porco e um cabrito,
mestre. Me tira só a chave. Faz Milagre”
“Que
chave, rapaz?!”
“A
cuspideira. Se quando eu for lá, eu alegar que não engravidei a menina, uma vez
que a natureza não me deu o equipamento cuspidor de gravidezes, escapo…”
“E
depois, quando a criança nascer e ficar parecida contigo?”
Rubrica Crónicas do Metro │ Não sobravam lugares (*)
![]() |
| Texto de Alexandra Sobral, Lisboa, Portugal, 20 Fevereiro 2016 |
Vi-nos no Metro, com 19 e 18 anos,
respectivamente. Tu sério e circunspecto, com o ar imberbe a sublinhar o adolescente
que sempre irá contigo, vestido a condizer com o que ao mesmo tempo não te
assenta e te molda, a tentar negar o tal ar. Eu com o ar travesso que teimo em
afastar e com as roupagens e caracterizações que penso me conferem a maturidade
que parece nunca mais chegar. Íamos de pé, que não sobravam lugares sentados
aos pares e as tentativas que fomos fazendo para ocupar um desses, foram, de estação em
estação, sendo frustradas, pois havia quem, por certo por insensibilidade,
distração ou puro e duro egoísmo, sempre se nos antecipasse, deixando sem vaga
o lugar par que tanto queríamos e tanto nos escapava. Não conseguia conter o
riso, que em cada nova dessas tentativas me saía nervoso e a soar a idiota,
deixando-te, eu bem presentia, deveras incomodado, diria mais, envergonhado. A
verdade é que não queria que só a minha mão ficasse junto à tua, na pega que
quem prevê essas coisas deixa disponível para esse e outros efeitos.
Finalmente, à medida que os empecilhos foram saindo, ficou ali disponível o
lugar que nos permitiu sentarmo-nos lado a lado e, passados uns breves
instantes, que me pareceram várias eternidades, encontrar coragem para deixar
que a minha cara procurasse o teu ombro e a minha mão enlaçasse a tua. Tu
desarmaste por momentos, e o teu ombro e a tua mão acolheram-me … Só fiquei
intrigada com o ar nostálgico que tinha uma mulher, com idade para ser minha
mãe, que nos vinha observando desde há umas estações atrás...
_____________
(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada
de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu
sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa
a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício
de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita
da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da
autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do
Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e
outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos
domingo, 28 de fevereiro de 2016
[Oficina] Conto | “Eu não fazi nada mamã, só tirí”
![]() |
Texto de Felisberto
|
Depois do
chamamento iroso e arrogante dela, todos ficaram sentados (numa única cadeira
que havia no jango lá em Kalweyo), a madrasta perguntou com toda energia:
— Quem tirô o cem
que tava na banca?
— Não sabo, mamã!
—
respondia assim o tímido enteado Cornelinho, um novinho irmão vindo do
Etaholwa!
— Eu também nô vi
quem tirô, tia — replicou o orelhudo Kahiva, primo por excelência.
— Vou perguntar
di novo: quem tirô o cem que deixi na banca?
— Mãe, na banca?
Dentro ou fora? — respondi com ironia por ser filho
legítimo e também por coincidir com uma aula de localizações das coisas que
tive naquele dia.
— Ó cabrão, vô ti
matar com purrada! Estava na banca eu também não mi lembro bem se tinha ficar
na cima ou na baixo. Só quero o cem que estava na banca!
— hahahahahahahahahahahahah
—
As meninas (Rosália e Laurinda) morriam de gargalhadas, porque ainda tinham a
energia voraz da gramática que a professora Júlia da Escola 10 lhes
transmitira, embora com seus dentes podres que às vezes confundem a fonética.
— Pufa! Pufa! Pufa! — Os dois enteados mais um sobrinho
levaram logo de primeira umas palmatórias do cassetete do mano Ernesto Kamwele,
coitado!, que sua alma descanse em paz e Deus o tenha…!
Lá no meu
cantinho eu tremia de susto (ao mesmo tempo mijando nos calções como era de
hábito para esvaziar o medo) e dali continuou a sova aos três azarados da nossa
casa, por sinal os mais crescidos, em fase própria de furtoszinhos domésticos.
— Pufa!
Puh!Puh!Puh! Páh!Páh!
— Aiué! Aiué! — Vô na minha
mãe! Vô na minha mãe! Eu sô órfão! Aqui me odeiam! — gemiam assim as
vítimas dos açoites do dia.
— Eu não vi o
cem, mas era só cinquenta! — Gritou o Tchipepe.
— Então, era
mesmo este dinheiro cem de cinquenta-cinquenta! — disse ela.
— Mas não sou eu
que tiri, fali que só vi. Estava na mão do Cornelinho.
— Eu também não
vi, mamã. Só o Cornelinho me mostrou um cinquenta roto que colamos com
tchimbungú para comprar califi doce! — Assim clamou o Kahiva.
— Então foi você
que tirô nem? Só estás a deixá batê os otros! Não, pensei bem, todos vocês são
culpados porqui cumeram o dinhero juntos.
— Eu só comi
califi e assistimos filme do Jerry e Avô Nombo no Dinis que mi pagarom lá!
— E você
Cornelinho onde tiraste o dinheiro?
— Então se a mamã
já sabe onde estava o dinheiro, porque pergunta onde tiraram? —questionei.
— Pufa! Pufa! — Me deram umas
bofetadas mais dolorosa e cai chorando.
— Mamã, encontri
dois cinquentas no chão e não na banca, só tiri dinheiro do chão, mas mesmo eu não fazi nada, mamã, só tirí. — concluiu o
Cornelinho, quando já havia acabado a sova. ___________
Nota do Blog Angodebates: No ano em
que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer
junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de
contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos
colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão
editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar
para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for
alcançando. Caso queira participar, pode mandar textos (crónica, poesia, conto)
para patissagociante@yahoo.com
Nota solta | Livres para desaprender
Houve tempos em que a gramática e o dicionário
também eram para se lerem; tempos em que a vírgula entre o sujeito e predicado
era um erro de palmatória; houve tempos em que ler várias vezes o que
escrevemos era um dever. Havia excessos de zelo, é verdade, como o facto de os
enunciados dos exames finais serem levados à sala de aulas por militares
armados da Segurança do Estado. Depois, felizmente, desarmou-se a educação,
ficamos livres de tudo, até do sentido de correcção (antes um sinal de respeito
pelo receptor, na cadeia da comunicação). Viva a era do primado do desaprender.
Gociante
Patissa, Benguela, 28.02.2016
sábado, 27 de fevereiro de 2016
A música a preto-e-branco
(O modelo é Lucas Manuel, talento bem encaminhado que animou
hoje palestra enquadrada no primeiro aniversário da ALCA. Alguém completa o
nome?)
Crónica | Uma década de ambivalências
Estava
tenso, um misto de incompetente com impotente. Tinha a manifestar 14
passageiros, mas pareciam 14 mil, até para mim, que escrevo rápido à mão. O meu
primeiro dia foi um trauma. Imagine você o que é ser lançado para um cenário de
atendimento público sem treinamento ao menos sobre as ferramentas em uso.
Para
além do colete reflector, do lugar ao balcão e dos 60 minutos planificados para
a tarefa, nada mais dominava. Tive de ser ajudado a preencher a papelada, à frente
de todo o mundo, por um dos candidatos que derrotei nos exames de admissão
(escritos e orais). Há como esquecer a nobreza de tal gesto? Sem que lho pedisse,
estava ele a tutorar precisamente quem ficou com o emprego com que há muito
vinha sonhando.
Eu
desde pequeno que sonho com muita coisa nesta vida. Com aeroportos é que não me
lembro. De sorte que a minha relação com o sector, que no próximo dia três de
Março assinala o nono aniversário, dá-se mais no espírito piloto-automático. Tenho,
sempre tive, dos aeroportos a mesma percepção sombria que me ocorre dos
cemitérios. Talvez pelas emoções de rotura entre quem parte e quem fica; talvez
pela natureza “pronto a explodir” dos aviões; talvez pela vocação autoritária
dos sistemas de segurança, enfim, há qualquer coisa de potencialmente lúgubre na
aura dos aeroportos.
Em
2006, ao cabo de sete anos exercendo um pouco de tudo no ramo das ONG’s, acolhi
com certo entusiasmo a ideia de trabalhar para um ente para-estatal. Aspirava,
finalmente, curtir uma praia ao domingo e, ainda mais excitante, usufruir
fins-de-semanas prolongados. Engano. Começava a odisseia de oficial de tráfego
aéreo. “Como vai a vida? Continuas naquele
emprego? Espero bem que não!”, escreveu-me uma ex-chefe um ano depois. E
eu continuava. Ironia.
Não
há nada de comparável entre o sector da sociedade civil e o serviço de terra em
aviação, desde logo porque no primeiro imperam a criação, a fertilidade dos
debates e a natureza horizontal das estruturas hierárquicas, ao passo que no
segundo, tudo gira em torno da lei da rotina. Para as mesmas coisas, nas mesmas
circunstâncias, as mesmas reacções. Hoje, sou testemunha de grandes progressos na
história da aviação cá, com realce ao rigor do Instituto Nacional da Aviação
Civil na certificação de operadoras, o que levou à extinção de várias, mas
também à redução de casos de acidentes. Louvo ainda a transição dos sistemas de
check in, do manual para o electrónico.
Certa
vez, tivemos um passageiro a mais na classe executiva. Tinha talão de embarque,
mas não o manifestei. Escapou-me. Nestes casos, infelizmente, a reacção do
pessoal de bordo, colegas por sinal, é a enxovalhar, sem ter em conta a tensão natural
do balcão. O passageiro era o deputado Akwá. Tive de o mobilizar para ir na económica.
Garanti que restituiria do meu salário a diferença. O deputado relevou sem o
estrebuchar previsível de gente poderosa. Só aumentou a minha admiração por
aquela estrela do futebol.
Já
vai quase uma década de ambivalências. Empregador generoso, emprego nem tanto. Possibilidades
de alicerçar o capital de prestígio, dando aulas ou integrando redacções jornalísticas
não faltam, pelo que não me queixo da sorte. Prevalece a esperança de vir algo
melhor dentro da casa, nem que seja até um dia antes da aposentadoria.
Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da
Catumbela, 27 Fevereiro.2016
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Citação
"Nós falamos assim: 'você vais bater uma
mulher grávida, lhe empurras nas escadas, ferir a filha alheia?! Não sabes que
isso é matar a tua esposa e o filho que lhe deste?! Se não lhe gostas, você não lhe
devolve na mãe dela?! Já porque, se te queixarmos na polícia, só vais ir
preso, nós mesmo é que vamos te dar a lição'. Olha, pegamos no jovem, lhe demos
uma boa surra, esses batem ali, aqueles batem lá, ficou todo inflamado. E lhe
falamos: 'torna mais!' Aquilo parece foi remédio, já passam anos, a mulher até
hoje... nunca mais se queixou".
GP. Benguela, 25.02.2016 www.angodebates.blogspot.com
GP. Benguela, 25.02.2016 www.angodebates.blogspot.com
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Rubrica Crónicas do Metro | Diferentes (*)
![]() |
| Texto de Alexandra Sobral, Lisboa, Portugal, 20 Fevereiro 2016 |
As viagens de Metro são sempre um manancial para a
observação e permitem pensamentos
desgarrados sobre a natureza humana, que, até para quem os tem, esse tipo de
pensamentos, no caso eu, não podem deixar de se qualificar como extravagantes.
Hoje, para além da já habitual profusão de cidadãos que se adivinham de
paragens tão diferentes, distantes e muitas delas de difícil determinação e
denominação, havia uma rapariga com um cabelo comprido, imensamente comprido, tão comprido que sugeria tratar-se de Lady
Godiva, estivéssemos nós no campo e a mesma cavalgasse o cavalo branco que a
identifica. Mas o que era mais surpreendente, para além do tamanho do cabelo,
era a cor do mesmo que oscilava entre o verde esmeralda e o azul lazuli, numa
cor de difícil qualificação. A tez tão branca, que se diria transparente, fazia
ressaltar ainda mais aquelas tonalidade e cor que lhe emolduravam a face. Uma
pequena argola metálica, dourada, colocada na narina esquerda, quebrava, ainda
que só aparentemente, a harmonia criada por aquele contraste. Apanhei-me a
divagar se teria sido transportada para o reino dos Elfos pela mão de Gandalf,
tal o fascínio que aquela visão me provocava. Mas a voz maviosa a lembrar-me
Baixa-Chiado, fez-me perceber que não passava de mais uma manifestação destes
tempos, que, tal como em todos os outros, todos queremos, de uma forma ou de
outra, ser diferentes... na imensa e confrangedora mediania que se nos agarra à
pele e não nos deixa distinguirmo-nos.
(*) O Blog Angodebates lança hoje a rubrica
«Crónicas do Metro», com textos da nossa amiga Alexandra
Sobral,
advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe
o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que
passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao
exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito
cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural
Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade
do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre
uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves
apontamentos
«Filhos de estrangeiros nascidos no tempo colonial já não terão direito a nacionalidade», noticia o REDE ANGOLA
O parlamento aprovou ontem, depois de vários
adiamentos, a Lei da Nacionalidade, diploma que impede agora cidadãos
estrangeiros e seus descendentes, nascidos em Angola no tempo colonial
português, de serem angolanos.
A Lei da Nacionalidade foi aprovada com 142
votos a favor do MPLA, 34 contra dos partidos UNITA e CASA-CE e
quatro abstenções do PRS e da FNLA.
“Cidadãos filhos de estrangeiros, nascidos em Angola antes da
independência que não tenham regularizado a sua situação já não podem adquirir
a nacionalidade, perdem o direito, a partir da data da publicação da lei”,
reforçou Isabel Tormenta. Ler artigo inteiro aqui
Nota do blog Angodebates:
Falar disso era convite para receber o rótulo
de "preconceituoso". Mas em boa verdade, essa lei chega tarde, talvez
demasiado tarde, já depois de tantas irregularidades e tanta nacionalidade
atribuída. Tivessem os parlamentares um ouvido mais próximo do povo, isso
estaria arrumado logo que se conquistou a independência.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Diário | O trabalho dignifica o cão, não?
"Esse cão comeu mesmo?"
"Comeu, tio!"
"Comeu, tio!"
"Não
parece... Olha a barriga dele..."
"Mas
comeu."
"Lhe
deste o quê?"
"Arroz
guisado com guelras de peixe."
"Verifica
outra vez a tigela dele então."
"Já.
Ó tio, comeu uma metade. Assim, a outra metade ele vai comer mais tarde. Esse
cão é mesmo assim quando vê pessoas; gosta de boa vida, comer bem..."
"Neste
caso, é melhor o cão arranjar emprego. O trabalho dignifica o cão, não?"
GP. Benguela, 23.02.2016
Mediateca de Benguela acolhe sábado (27/02) conferência sobre | NECESSIDADE LITERÁRIA NUMA ANGOLA EM CRISE | O evento enquadra-se nos festejos do primeiro aniversário da ALCA
Segundo a nota de imprensa da Associação
Literária e Cultural de Angola (Alca
Benguela), a
conferência, que tem como prelector o linguista e docente David
Calivala, está
aberta ao público e visa promover uma reflexão em torno de duas questões
cruciais, nomeadamente, "que desafios a Literatura deve enfrentar nesta
época que se vive actualmente?" e "que contributos práticos a
Literatura pode dar para a superação da Crise que se Vive no País?" A par
da conferência, agendada para sábado às 14 horas, várias outras actividades estão programadas na jornada do
primeiro aniversário da agremiação, em curso de 18 de Fevereiro e que encerra
no próximo dia 7 de Março.
[Oficina] Crónica | Girabola weza mu Saurimo (*)
![]() |
| Texto de Guilson Silvano Saxingo Saurimo, 23.02.2016 |
Muitos foram os esforços das autoridades locais e agentes
desportivos que lutaram e labutaram dia após dia para acontecer o tão esperado
e cobiçado Girabola, que há 23 anos por cá não acontecia! Na última jornada da
"segundona", o centro do Leste vibrou, festejou e viu o sonho feito
realidade.
Barracas aqui e acolá, quase todos automobilistas,
motociclistas, velocípedes e aqueles a quem os pés eram únicos escravos que os
possibilitavam ver o céu! Abastecimento grátis, Cuca à metade do preço
habitual, barris de garrafas ensanguentadas ao dispor dos jovens cegos e
corrompidos… pelo álcool. Começou a festa…
96 dias e noites, o sol bravo e bonito raiou. Logo nas
primeiras horas do dia, começou a desordem organizada. Todavia, às sete da
manhã saía eu de rosto envergonhado a caminho da capela que dista uns poucos
quilómetros da minha cabana. Logo à porta, as crianças correram para abraçar o
indigno servo, pois foi o primeiro dia de catequese naquele ano. Quebramos e
matamos saudades com um bom sorriso. Quando ministrava a catequese apareceu-me
uma menina neófita, rabugenta e atrevida, disse: “Catequista tens que me
aguentar e se dar bem comigo!” Inquieto e pávido diante do carácter da menina,
retorqui: “Filha fique calma, vou trabalhar convosco e terei de suportar e ter
boa relação com todos, sem excepção”.
Peguei nas minhas "imbambas" de regresso a casa.
Nisto, deparo-me com grupo de manifestantes políticos com cores e rostos dos
seus líderes estampados nas T-sshirts, bonés e panfletos! Mas algo mais
chamou-me a atenção. Reparei que havia arroz e massa mistos, a manifestarem. Ou
seja, dois partidos "políticos" com ideologias diferentes. Dum lado
um sekulu, e doutro, um novato, juntos e unidos numa autêntica passeata.
Impressionante!...
A partir de uma hora da tarde muitas cabeças, troncos e
membros dirigiam-se ao estádio das mangueiras (que um dia antes da partida
esteve em reabilitação). E como não gosto que me contem, consegui
"trezentos pica" para comprar o ingresso, que já não havia. Fui salvo
por um kandengue que revendeu o seu a quatrocentos pica. Fui suportar a
insuportável "bicha" que já nem no tempo de PAM (**) era assim.
Sujeitei-me aos empurrões até estar na bancada barata do estádio. De facto,
aquilo ficou repleto de pessoas ávidas de ver a primeira partida da maior festa
do futebol angolano! Aposto que os os jovens da ponta da língua do sec. XX
jamais viram!
O jogo prosseguiu, com outras tantas cenas que ocorriam,
desde a invasão dos adeptos habituados a favores, as dignas mamãs zungueiras
deambulando com os seus negócios, ou as moças aparecedoras desfilando
irritantemente por todo o lado, exibindo as mabubas. E no final, o resultado
ditou: Progresso do Nagrelha 1-2 Progresso do Bikuku.
Guilson Silvano Saxingo (angolano, nasceu na Província da
Lunda Norte (1994). Actualmente a residir na cidade de Saurimo, é estudante de
Direito no Instituto Superior Politécnico Lusíada da Lunda Sul e membro do
movimento Lev´Arte)
_________
(*) Na língua Cokwe, do leste de Angola, quer dizer O
Girabola chegou ao Saurimo
(**) Programa Alimentar Mundial (organismo humanitário das
Nações Unidas)
_________
Guilson Silvano Saxingo (angolano, nasceu
na Província da Lunda Norte (1994). Actualmente a residir na cidade de Saurimo,
é estudante de Direito no Instituto Superior Politécnico Lusíada da Lunda Sul e
membro do movimento Lev´Arte)
_________
Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º
aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus
leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos,
crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos
colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão
editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar
para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for
alcançando.
Crónica | Preços com prepúcio
Com
a empregada doméstica em defeso, ainda que justamente justificado, já só sobra
pouco menos de uma camisa para vestir a rua de banga. No canto do dormitório,
uma pilha no cesto cheirando a amoníaco.
Houvesse
cá concurso de suores, a selecção angolana estaria nos lugares cimeiros, só a
contar com Benguela, tal é a quentura ambiente e o húmido clima.
Mas
como lavar e comprar até concorrem para o mesmo, sai o cidadão, quem sabe,
atrás de umas camisolas interiores. Vou à loja do árabe, lhe encontro não está.
O libanês alheio "crisou". A vitrine, envergonhada de vazio,
agasalhou-se de velhos jornais, estendidos quais cortinas. Segue-se um salto à
imponente loja mais a sul. Tudo no lugar, beleza, luxo e montras... Mas também
a "crisar", só que de outra forma. Moça, vocês não facilitariam a
vida aos clientes se pusessem o preço? Mas tem lá preço. Tem? Não vi. Vem
comigo.
E a
jovem (muito bem apresentada, calças maleáveis a descrever cada detalhe do
itinerário entre os glúteos e o tornozelo) inclina-se sobre a montra, põe a mão
e volta de dentro de uma pólo com a etiqueta de preço em cordel. Não tivesse
tido um mata-bicho reforçado, estaria caído o cliente, dada a violência do
preço.
Temos
essas de 12 mil Kwanzas, mas também aquelas de seis, diz, solícita, a beldade,
ante a reacção facial de choque do outro. Infere-se dali uma estratégia, que
até não é má, da gerência em ocultar os preços... para não afugentar já à
primeira vista. O resto é ter uma atendedora sobriamente sensual para
convencer.
Na
hora de deixar a loja, o cliente pensa: xé! Crise é mesmo crise, ya?! Que até
os preços agora têem prepúcio?...
Gociante
Patissa, Benguela, 23 Fevereiro 2016
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Nota solta | Dever de casa mal feito ou excesso de maquilhagem ao microfone?
Gongo
ou Ngongo? Alguém consegue explicar por que razão o locutor do espaço da
própria Administração Municipal do Lobito, emitido na manhã de hoje pela Rádio
Mais, dizia "Gongo" /gon-gu/? Seria uma espécie de maquilhagem para
poupar a entidade da classe dos "nomes feios"?
Parece
que o trabalho de arrumar a casa no mandato de Alberto Ngongo
Beto deverá incluir a
área de comunicação e imagem. De contrário, seria
pois complicado partir dali a própria confusão na cabeça do cidadão comum, que
até sabe que Ngongo (com as vogais todas abertas), na língua Umbundu, significa
sofrimento e também terra. Uma barreira escusada.
Que
os nossos locutores padecem algumas vezes de um certo complexo de "cultura
superior" quando se trata de pronunciar nomes tradicionais africanos, isso
é já um facto inquestionável. No outro dia, uma competente apresentadora da TPA
teve a "pertinência" de impôr ao interlocutor que encurtasse o nome,
pois era (se não estranho) muito comprido. E fê-lo com aberta risada de
sarcasmo, ainda que breve. Mas desconfio que a profissional tenha levado um
puxão de orelhas pelo intercomunicador, pois a seguir ao intervalo já passou a
empreender algum esforço em "tolerar" o nome do outro.
40
anos depois da independência e com tantos progressos registados enquanto país
soberano, ainda continua uma boa parte da elite intelectual da comunicação com
o preconceito, a tal ponto que se pronunciam com perfeição nomes como /drrogbá/
ou /maiquel jaecson. Entretanto não se padroniza o nome do ministro das
relações exteriores, que quando não é chicote, é chicot ou então tchikoti.
É
estranho que cadeias de informação como a BBC (inglesa) tenham uma espécie de
caderno de estilo, precisamente para padronizar palavras e expressões que não
sejam do domínio da maioria.
O
nosso problema é dever de casa mal feito, ou questão de excesso de maquilhagem
ao microfone só mesmo?
Partilhando leituras | Esquemas de argumentos que funcionam
Existem muitas maneiras clássicas de se
construir um argumento: o caçador caçado, o triângulo amoroso, o mundo do
avesso, a astúcia diante da força... Se nos aproximarmos um pouco, vamos
observar que esses modelos podem reduzir-se a alguns esquemas conflituantes básicos.
Sem pretendermos esgotar o assunto, propomos estes quatro que, bem trabalhados,
sempre atraem o interesse do ouvinte.
- Existe uma CULPA e
vários suspeitos: Trata-se de descobrir quem é o culpado e por que age assim.100
É o esquema típico do gênero policial e de tantos filmes de suspense. Com
freqüência esses argumentos são finalizados com um julgamento ou com uma
acareação final entre todos os implicados
- Existe um DESEJO e
outros candidatos: Trata-se de averiguar quem consegue o objeto ou a pessoa
desejada e a maneira como consegue. No final das intrigas e dos desenganos,
quem ficará com quem? O gênero romântico não pode prescindir desse esquema.
Tampouco a infinita gama de dramas passionais que giram em torno do amor, do
dinheiro e do poder.
- Existe um PERIGO e
poucas escapatórias: Trata-se de conhecer como o protagonista vai encarar os
obstáculos que se apresentam, as 100 Umberto Eco. “No fundo, a pergunta
fundamental da filosofia, assim como a da psicanálise, coincide com a do
romance policial: quem é o culpado? (Apostillas al nombe de la rosa, Barcelona,
Lumen, 1984, p.59).
O cinema norte-americano, refletindo a
sociedade leguléia desse país, tem abusado desse esquema. Experimente contar os
filmes que terminam na sala de um tribunal e perceberá o novo deux ex machina com
que trabalham. ameaças cada vez maiores que o acossam. O gênero de aventura, os
chamados filmes de ação, são o melhor exemplo desse esquema.
- Existe um MISTÉRIO e
nenhuma pista: Trata-se de resolver a intriga. Quanto mais obscura se
apresente, mais excitante será. Os bons argumentos de terror se apóiam nesse
esquema. Os ruins, lançam mão de truculências, saturação de gritos e efeitos
especiais.
Como os minerais, esses esquemas — e
outros do gênero — não costumam ocorrer em estado puro. Amalgamam-se uns aos
outros. Um argumento de ficção científica pode basear-se nas peripécias e
perigos da viagem espacial. Mas não vai faltar a traição de um dos tripulantes.
Nem um enigma indecifrável. Nem um romance dentro da nave.
José
Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas Apaixonados», Pág. 117. Edição
Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
A dupla surpresa do Lenguito
Ligou-me ontem o homem a dizer que tinha algo
para me entregar. Como me tratou pelo nome de Daniel, ainda fui a tempo de
perguntar se não se tinha enganado no número, pois não esperava receber nada
dele. Combinamos que iria ter com ele logo que terminasse o meu horário
laboral. Noutra ocasião, nada me seguraria de vontade de saber do que se
tratava, mas com a idade, a gente aprende a gerir a ansiedade e a curiosidade.
Não é que o "malandro" do Arnaldo Samulingua
Mussolovela Sandambi resolveu pregar-me uma dupla surpresa? Primeiro, porque o
conhecia artista do ramo da música (RAP) só. A segunda, porque entendeu
fazer-me homenagem reproduzindo a lápis e carvão aquela que é talvez a mais
pessoal das fotos do meu passado, que reporta o período em que fui pedir
emprego a uma Foto precária do meu bairro, em 1993, aos 15 anos, como aprendiz,
para poder custear os estudos da 7.ª Classe, numa escola que distava pelo menos
5 km a pé de casa. O Lenguito, como também é conhecido o desenhador, para além
de ter sido colega do Curso de Linguística/Inglês na Universidade e de nos ter
emprestado a vestimenta para defesa da tese de licenciatura, é também meu
familiar pela parte materna, pelo parentesco com Gociante Kapiñalã, meu avô, da
Ganda. Wayaka, a manji!, ou seja, bravo, irmão!
Partilhando leituras | A arte de escrever como se fala
Faça um teste: deixe
um microfone aberto em uma reunião de amigos. Quando eles forem embora, pegue a
fita e transcreva-a. Você vai se surpreender. Ao passar a linguagem falada para
o papel, vai descobrir as infinitas repetições, a sintaxe quebrada, as frases
curtas e diretas, as expressões inacabadas, as hesitações, os exageros, as
palavras provocadoras, o desembaraço e o frescor de nossa maneira de falar
quando não estamos cuidando da gramática nem nos colocamos em pose
profissional.
É disso que se trata
no momento de abordar um roteiro dramático: de reproduzir a linguagem falada,
de escrever como se fala. Cada personagem deve expressar-se de acordo com seu
perfil, com o estilo próprio da pessoa real que representa. Como se treina para
essa arte?
Antes de tudo,
prestando atenção no próximo. Ouvindo como as vendedoras argumentam, como um
caipira narra, como um advogado filosofa, como as vizinhas cochicham e como os
jovens inventam outro idioma... Quem não sabe escutar, também não poderá
escrever diálogos dramáticos. Quem não se deixar surpreender por uma frase criativa,
por um grafite da rua, por um ditado pitoresco... também não poderá
incorporá-los em seu roteiro. Porque a fonte da eterna juventude da linguagem é
a boca do povo.
Estamos com o papel
em branco. O que fazer? Não escreva nada. Primeiro, escute. Feche os olhos,
mentalize os personagens que você mesmo gerou, batizou, repare em seus rostos,
em seus movimentos, ouça-os falar, deixe que discutam, que desabafem. Deixe que
eles próprios ditem os diálogos. Isso não tem nada de feitiçaria nem exige um
esforço exaustivo. Pelo contrário, é divertido. Só é preciso dar passagem à
criatividade e brincar de espião de nossa própria imaginação. A primeira pessoa
a sentir empatia com os personagens é o próprio autor.
Há quem prefira
começar rabiscando em um papel, outros vão para a frente da máquina de escrever
ou do computador. Questão de hábito. Seja qual for a maneira de redigir, o importante
é não se conformar com o primeiro rascunho. Nem com o segundo ou terceiro. Uma coisa
que ajuda muito a dar leveza ao texto é lê-lo em voz alta. Vá modificando o
diálogo escrito ao ritmo de sua interpretação falada. Você deve ser o primeiro
ator do seu drama.
Escrever escutando os
personagens. Essa norma facilita a redação do roteiro e a posterior
interpretação. Nenhum ator salva um texto rígido, um diálogo empertigado e
livresco.
José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas
Apaixonados», Pág. 124. Edição Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Partilhando leituras | Locutoras e Locutores
Faltavam dez
dias para ir ao ar e ainda não tínhamos locutores. Impaciente, coloquei um
anúncio na própria emissora que já havia iniciado as transmissões
experimentais. Como Tamayo é uma cidadezinha do interior, será preciso
repeti-lo várias vezes, pensei ingenuamente. Uma menção foi suficiente. No dia
seguinte, quando cheguei à rádio, vi a fila de jovens, todos ansiosos em se
tornar locutores da Radio Enriquillo.
A verdade é que
ainda não havia pensado em como faria a seleção. Então decidi colocar uma mesa
sob o mogno do pátio e fui fazendo passar os candidatos um a um, uma a uma, para
avaliar suas qualidades locutorais. Ao primeiro, entreguei um jornal para que o
lesse em voz alta. Levou a mão ao ouvido, pigarreou e começou a atropelar as
palavras como se estivesse sendo perseguido pela polícia. A segunda era uma
moça muito simpática e muito decotada. Aproximou-se com olhar malicioso,
inclinou-se mais do necessário para pegar o jornal... e em vez de lê-lo,
abanou-se com ele por causa do calor. O terceiro da fila pegou o jornal de
ponta-cabeça.
Não sabia ler,
embora declarasse ter estudado locução por correspondência. (Jamais consegui entender
como é possível aprender a falar pelo correio!) Enfim, depois de duas
intermináveis horas dispensando os aspirantes, chegou um rapaz risonho, suado,
de aparência humilde. Manuel leu bem, sem afetação, com surpreendente
desenvoltura. Contratei-o imediatamente para fazer o jornal matutino que
começava às cinco, antes do sol.
Manuel vinha
montado em um burro até a emissora. Amarrava o animal ao poste de luz, entrava
na cabine, tirava a camisa e começava a locutar com toda a disposição. Discos, piadas,
atendimento aos ouvintes. Seu entusiasmo era tal que rapidamente despertou a
admiração no bairro e nos campos. Ser locutor em Tamayo, no marginalizado
sudoeste da República Dominicana, equivale a ser Jack Nicholson em Hollywood.
Choviam convites, aproximavam-se os amigos. As amigas, principalmente.
Passados alguns
meses, Manuel havia mudado sua forma de falar pelo rádio e de se relacionar com
os colegas. Mudara até o jeito de andar. Agora ia pela rua todo vaidoso, de
peito erguido, cumprimentando para um lado e para outro, com um sorriso
plastificado. Quando o salário foi suficiente para trocar o burro por uma moto,
então a metamorfose foi completa. Não queria mais visitar as comunidades para
fazer entrevistas, não colocava mais o galo madrugador de fundo nem lia as
cartas dos agricultores, e não havia quem pudesse corrigi-lo. Ele sabia mais do
que todos. Era o locutor!
Tive de
despedi-lo, tão insuportável se tornara. E, sobretudo, porque não fazia mais o programa
com a graça do começo. Tinha asas de barata na cabeça, como costumam dizer por
lá. Tenho certeza que casos semelhantes foram vividos por muitos chefes de
programação de muitas emissoras.
José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para
Radialistas Apaixonados», Pág. 74. Edição
Paulinas,
2004. São Paulo, Brasil.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
[Oficina] Poesia | Perdoa-me, mulher
na ingenuidade que brota
Sorriste à possibilidade
Clamaste esperando vento e fumo.
Agora mesmo recolho os pedaços
Desiludi
a filosofia que acreditavas possuir.
Só digo que não fui representação
Isso ao menos garanto.
Tenho pena,
Perdoa-me, mulher!
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. Os textos devem ser preferencialmente curtos (uma página A4) e enviados para patissagociante@yahoo.com
Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. Os textos devem ser preferencialmente curtos (uma página A4) e enviados para patissagociante@yahoo.com
Uma outra antologia de contos angolanos, intitulada PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS, será lançada no dia 1 de Março em Lisboa, Portugal, na qual Gociante Patissa participa a convite dos organizadores com os contos «O calendário da Viúva» e «O Mestre Que Disso não Passava» (ou pelo menos um dos dois), numa edição da União dos Escritores Angolanos. A selecção de textos foi feita por Margarida Gil dos Reis e António Quino. O livro vai custar naquele mercado 15 Euros e o lançamento ocorre no âmbito do Festival Literário Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, 24 de Fevereiro e 03 de Março 2016
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
[Oficina] Crónica | Praia Morena
![]() |
Texto de
Julio Novadi Dimas Teixeira Benguela, 17.02.2016 |
Na costa benguelense encontramos uma
grande praia, repleta de encantos: a praia morena, linda e serena com um
espírito cada vez mais jovem, altruísta e de reflexão.
É um espetáculo da natureza, um mistério
da criação que deixa pasmado quem segue a sua direcção. É idosa como o tempo e
seus cabelos são areias lindas que servem de leito e, para alguns, brinquedo.
Possui ondulações excepcionais, está repleta de peixes e milhares de marítimos
temperados com sal. A sua maresia é uma autêntica fantasia; o seu semblante e a
sua luta constante vale um diamante.
Está sempre em companhia das gigantescas
árvores que a rodeiam e ouve suaves vozes de seu estômago. Já foi canal de
passagem de inúmeras rotas anteriormente.
Uma das praias que não dorme, popular a
nível local e mundial, pois várias vezes recebe turistas que vêm
cumprimentá-la. O astro-rei a ilumina e a deixa clara.
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.
Nota de Imprensa e Convite
A
Mayamba Editora tem a honra e o grato prazer de convidá-lo(a) a participar no
acto de lançamento do livro ANGOLA 40 ANOS – 40 CONTOS – 40 AUTORES, a ter lugar no dia 18 de Fevereiro de 2016 (Quinta-feira), às
16:00, na União dos Escritores Angolanos, em Luanda.
Com
esta antologia de contos de 40 autores angolanos, a Sonangol e a Mayamba Editora,
promotoras desta iniciativa, rendem preito ao 40º aniversário da Independência Nacional.
Sobre o livro (Preço: 2.500,00 Kz,
ISBN: 978-989-761-070-7, 380 páginas).
A independência é também filha da Literatura enquanto forma de
expressão de ideias e de divulgação do ideário da luta pelo resgate da
soberania nacional usurpada pelo poder colonial, ora denunciando as práticas
repressivas e a tentativa de inferiorização da nossa cultura, por um lado, ora,
por outro, desenvolvendo todo um esforço no sentido da exaltação da
angolanidade, consubstanciada nos usos e costumes endógenos e no direito
natural de pertencer à cultura universal.
Autores dos 40 contos:
Adriano Mixinge, Albino Carlos, Aníbal Simões, António Fonseca,
António Gonçalves, António Quino, António Setas, Arnaldo Santos, Augusto
Alfredo, Carmo Neto, Chicoadão, Conceição Luís Cristóvão, Dário de Melo, David
Capelenguela, Domingos de Barros Neto, Fragata de Morais, Gociante Patissa,
Hendrik Vaal Neto, João Melo, Jonuel Gonçalves, José Luís Mendonça, José Mena
Abrantes, Laurindo Vieira, Luciano Canhanga, Luís Fernando, Luís Rosa Lopes,
Manuel Rui, Maria Celestina Fernandes, Maria Eugénia Neto, Maria Helena Miguel,
Marta Santos, Ondjaki, Onofre dos Santos, Paula Russa, Pepetela, Ras Nguimba
Ngola, Roderick Nehone, Silvino Mazunga, Vlady Russo e Zetho Cunha Gonçalves.Autores dos 40 contos:



























