segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Nota solta | Paradoxos

Cada vez que passo pelo edifício do mercado de Benguela, duas imagens saltam à vista em jeito de paradoxo: (1) Numa altura em que se obriga o (re)registo dos números, ainda estão cidadãos singulares literalmente à porta da loja, vendendo precisamente telemóveis da própria Unitel, concorrendo com esta na lei da kandonga. Ou seja, do jeito que as filas na loja são vagarosas, nada garante que não se continuem a comprar cartões SIM na rua. (2) Num outro ângulo, de vez em quando vemos fiscais da Administração Municipal em missão de desencorajar o surgimento de mercados marginais pelas bermas e passeios, na lógica de que o comércio ambulante implica movimento. Nesta senda, vendedoras de frutas e não só costumam ser apanhadas em contramão, a bem do código de postura, mas... custa entender que tal acção não afecte o outro submercado de berma, o da venda de telemóveis e acessórios, no qual predominam os nossos irmãos do Congo Democrático, já que, tal como as zungueiras, consta que estes também não tributam para o tesouro. É o que nos ocorre, claro está, sempre abertos à melhor interpretação que eventualmente alguém possa partilhar.
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domingo, 14 de fevereiro de 2016

[arquivo] Crónica | Lavar a árvore

Rua nua, viu-se, até fechar o portão. Escuro, bem escuro, como ficam os bairros de gema anárquica e que já só com o luar podem contar. Por sua vez, como também preza a saúde, foi a poeira às toneladas alojar-se nos esguios galhos da árvore do meu quintal, de poeira tingida. Há água na torneira, finalmente, como sempre, só de noite, como se fugisse do sol de sanzala, ausências mais do que presenças, a mesma cobrança no final do mês. Menos pouco para meia-noite. Não guardes para amanhã o que hoje podes fazer. Mas o quê? Jactos de água com a mangueira, para devolver o verde às folhas da árvore, do lado de fora do quintal plantada. Do nada, qual fantasma, ouve-se um masculino protesto: “não, meu kota, assim também, não!” Que protesto mais fora de hora! “Agora que há água, estou a lavar a árvore. Aqui acumula-se muita poeira”. E segue o protesto apócrifo: “Está a nos molhar”. Caramba! “Vai você lavar a árvore?”. Até porque, eu cá não sei porquê, ou talvez por não existir senão no urgente improviso das libidos, por acaso não me lembrava da inscrição "árvore para todos; sombraria de dia, namoradoria de noite". Ouve-se qualquer coisa de insulto e a voz desaparece. Já sei que me resta recolher pela manhã cacos de preservativos ou desses afrodisíacos chineses. E não é que tenha algo contra o dia dos namorados.
GP. 14 Fevereiro 2014
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

[Oficina] Conto | A infelicidade da casca de banana

Texto de David Calivala,
Lobito, 10.02.2016

Quando nasci senti que éramos uma família. Alguns lá pra cima e outros mais lá pra baixo, mas éramos uma família. Sentia eu que nossos rabos ou pés estavam presos na mesma aldeia. Perto de um riacho víamos tudo e sentíamos a nossa aldeia Cacho suportar-nos o crescimento.

Sentia muito amor e admiração a um estrangeiro que, de vez em quando, ajudava para o crescimento do meu país Bananeira. Ele dizia-se dono do continente Bananal. Independentemente do que ele fazia no seu próprio país, o que eu não sabia, porque não via, quando ele chegasse ao nosso país, todos nós ficávamos contentes. Pois ele dava-nos tratamento reconhecido para que crescêssemos saudáveis, isso via-se.

Certo dia, eu senti que a nossa aldeia foi removida do meu país. Com essa remoção o meu país foi derrubado também. Eu escondia um segredo e não contava nada, nem mesmo a ninguém.

Eu senti que, para além de crescido, o meu eu se amarelava e o meu íntimo secreto deixava a dureza e dava lugar à moleza, para o olhar ensalivador de muitos estrangeiros.

A dado momento e para meu espanto, cortaram o meu cordão umbilical, separando-me da minha aldeia. Senti medo, mas muito medo mesmo. Achei que não conseguiria viver fora da minha aldeia e sem ver meus irmãos, era verdade e eu tinha razão. Apalparam-me e fizeram alguma pressão sobre mim. Antes achei que me estavam a acariciar, mas depois senti que me estavam a sufocar com apertos. Num dado momento senti a minha cabeça decapitada, meu corpo sendo rasgado aos poucos. O que mais me doeu foi saber que me rasgavam para desnudar o meu segredo. Espantei-me quando vi que familiares do estrangeiro, que nos bem tratavam em visitas ao nosso país, aprazeiravam-se enormemente quando a suas mandíbulas entravam em confidências com o meu segredo.
Chorei, chorei e chorei muito.

Não se importaram com a minha dor, ou talvez sim e por isso deitaram-me feito lixo num contentor, e aí eu me vi apodrecer. E só agora percebi que nem todo aquele que vem como quem te quer ajudar é porque quer teu bem. Pode sim querer preparar caminho e o momento exacto para….
                                                                                           _________________________
Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Utilidade pública | Dicas e técnicas sobre escrever crónicas

A crónica é uma forma textual no estilo de narração que tem por base factos que acontecem em nosso quotidiano, onde o leitor interage com os acontecimentos e por muitas vezes se identifica com as acções tomadas pelas personagens, uma vez que utiliza a primeira pessoa e aproxima o autor de quem o lê, como se estivessem em uma conversa informal sobre factos até mesmo íntimos com o leitor. Recorre à sátira, a ironia, o uso da linguagem coloquial demonstrada na fala das personagens, a exposição dos sentimentos e a reflexão sobre o que se passa. Quanto à forma e características:

- Narração curta;
- Descreve factos da vida quotidiana;
- Pode ter carácter humorístico, crítico, satírico e/ou irónico;
- Possui personagens comuns;
- Segue um tempo cronológico determinado;
- Uso da oralidade na escrita e do coloquialismo na fala das personagens;
- Linguagem simples.
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[arquivo] Diário | Você acha que um decreto presidencial é coisa de brincar?!

“Bom, dia.”
“Bom dia, senhor Agente.”
“A nossa legalidade?”
“Diga?”
“Documentos, por favor.”
“Meus ou da viatura?”
“Carta de condução e documentos do carro!”
“Aqui estão.”
“O senhor sabe o que fez?”
“Diga?”
“O senhor viu o que fez? Aquela ultrapassagem está correcta?!”
“Não sei… quer dizer… não havia lá linhas contínuas, que seriam de proibição.”
“Aié? Então o senhor acha que pode fazer ultrapassagem a dois veículos longos?”
“Mas ali não é na curva e a visibilidade estava boa. E, ainda, buzinei.”
“Você acha que ele te consegue ver? Não vês mesmo que o camião é muito alto? Vou-te passar uma multa! Lê ainda o artigo 18.º desse livrito.”
“Pois… Ok, já acabei de ler.”
“Isso é resumo de um decreto presidencial. A multa são 60 UCF’s, agora você faz as contas: isso vezes o artigo 18.º, são dez mil Kwanzas.”
“Mas não podemos ficar por uma advertência? Acho que os conselhos que acaba de me dar chegam a ser mais educativos do que a multa…”
“O decreto presidencial não fala em advertências! Isso até está mais do que claro: condução perigosa, multa! Você acha que um decreto presidencial é coisa de brincar?!”
“Está bem. Eu não vou desrespeitar o seu trabalho. Pode passar a multa. Mas, é assim, eu estou em serviço.” [o motorista levava consigo uma máquina fotográfica DSLR, uma bolsa e alguns jornais no carro, sem falar do colete de repórter…]
“Isso não tem nada a ver!”
“Tudo bem. Pode passar a multa, o serviço depois vai resolver…”
“Vais p’ra onde?”
“Vou fazer uma reportagem a Malanje.”
“Estás a ver? E Malanje é longe. Qual é a pressa?”
“Pronto, falhei. Vou prestar mais atenção”.
“Toma lá. Mas, te falo mesmo, meu irmão, até carros zero quilómetro acidentam. Na estrada não vale a pena se confiar só muito.”
“Obrigado, bom trabalho.”

[E lá o mot(u)orista segue a viagem, salvo pelo bluff, por sua vez estimulado pelo bluff do agente, para quem um artigo chamado 18.º, multiplicado por 60 UCF, resulta em 10 mil kwanzas recebidos à beira da estrada, provavelmente sem papel passado, ao jeito ela por ela].
 GP. Aeroporto Internacional da Katombela, 8 Fevereiro 2014
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Utilidade pública | Partilhando leituras em jeito de oficina literária

Tomei a liberdade de partilhar dois exemplos de poesia, compostos de poucas palavras mas com uma profundidade enorme, onde os elementos enunciados funcionam como uma espécie de provérbio, capaz de levantar no leitor várias inquietações. Não sei quem são os autores, mas aparecem repetidos em vários murais por este mundo do facebook (onde chegam a ser praticamente um património da humanidade). Temos um tipo narrador sugestivo, ao invés de descritivo, que por vezes peca por deixar pouca margem para o leitor pensar e descodificar pela própria cabeça. Um abraço
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domingo, 7 de fevereiro de 2016

sábado, 6 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Da série visitando o baú | Assessor de Líder da Pesquisa sobre Crianças Órfãs e Vulneráveis Na Tchikala Tcholohanga, Huambo

Em Outubro de 2005, sob contrato da Save The Children-Uk, vivi um período marcante profissionalmente, enquanto membro da equipa de pesquisa de grupos focais sobre Crianças Órfãs e Vulneráveis no município da Tchikala Tcholohanga. O roteiro era alternado, uma semana no interior a recolher dados, uma semana na cidade a processá-los. As localidades-alvo eram as comunas de Sambo (aldeias de PedreiraPedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia) e Mbave. Foi na verdade esta realidade que inspirou o conto OS DENTES DO SOBA, do meu livro A ÚLTIMA OUVINTE. Andávamos intrigados (tal como o fictício o Chefe do Concelho) com a notícia do registo de dezassete óbitos em oito meses (estatística mais do que real). Foi na vila da Tchikala Tcholohanga que acompanhei pela TV a partida que qualificou Angola para o (único) mundial (da sua existência) de futebol, que se realizaria um ano mais tarde na Alemanha. Este contrato representou para mim o meu maior salário de sempre, porque o primeiro, que eram mil e 600 USD em 30 dias, contra os 500 mensais que me pagaria a Handicap mais tarde. As condições de hospedagem no terreno eram as mais precárias possíveis, as comunicações péssimas, tanto que para falar ao telefone, na sede do município, era preciso escalar as bancadas do estádio de futebol. Na altura elaborei uma crónica, que pode ser encontrada através deste link .
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

[Oficina] Poema | Em cada promessa do vento

Texto de Cambinda. Sem mais dados
Do fundo do túnel está uma luz que vislumbra
ilumina aos marfins de sorrisos esquecidos
nos lábios selados com a corrente de tristezas.

Há uma melodia sonante no bico da gaivota
que remexe as nádegas da mwana-pwo
presas nos gelos de montanhas ensanguentadas
com o ruído voraz dos mutimbas.

Há um clamor na voz do poeta
que despedaça as lágrimas da mulher que chora
pelos  filhos adormecidos no sofá ilusório

Quem os devolverão sorrisos
se a sabedoria clamou
e a inteligência escondeu a sua voz

Quem os devolverá a prudência de asas
e as trilhadelas de pés dançantes
estando no cume das alturas
a harmoniosa voz da gaivota

Quem os devolverá a voz que despedaça os lacrimejares
se nos abismais mistérios da incredulidade
está impregnada a voz do poeta

Os tesouros da piedade?
Os lábios dos justos?

A isso, não couberam as nossas opiniões

A opulência está estendida sobre o odor da esterilidade
o bom orvalho faz-se espremível
 por entre mesas bastardas   
de papos que acenam promessas ao vento.

Na maré baixa,
vemos o fundo do mar;

Em cada sopro do vento,
vemos os pedaços de terra

No imensurável brilho das águas
vemos a abastança
esplêndida no infinito Atlântico
e nos fonemas do nosso Kwanza.

Porém,
na crueldade de misericórdias
de mentes legiferantes
está a hipocrisia de bocas danificadas
perturbadoras de pacíficas tempestades  

Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. 
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Nota solta | O 4 de Fevereiro, a história de todos e de cada um

Manuel Patissa, preso político em
São Nicolau entre 1961-66
A história universal só faz sentido se for colectiva. Por outro lado, a mesma história, porque assenta no registo de acontecimentos sobre pessoas, também só faz sentido como somatório de relatos individuais dos visados. Afinal, tanto os protagonistas, como as vítimas, vêm de núcleos familiares. Embora a nossa história mediatizada só realce o 4 de Fevereiro e, consequentemente, os heróis do território de Luanda, a verdade porém é que o ano de 1961 marcou irreversivelmente localidades, comunidades e os valores de família de muita gente também no centro e sul do país.

As rusgas dos alegados «turras», que ocorreram neste ano, uma reacção desesperada das autoridades coloniais portuguesas, atingiram muitos, entre comerciantes, líderes religiosos evangélicos, e não só, no interior da província de Benguela, empurrados para o centro prisional de São Nicolau (Moçâmedes, hoje Bentiaba, no Namibe). As sevícias a que foram sujeitos os prisioneiros, relatadas na primeira pessoa, viriam a fortalecer as convicções do ainda adolescente (meu pai), que aos 15 anos viu o pai, ainda enlutado, ser torturado e humilhado. Foi na verdade esta revolta de filho que o levaria à adesão dos movimentos, ao exercício da política, administração e tudo mais (com os desencantos previsíveis no rumo do país sonhado).

Em 1961, Manuel Patissa, o meu avô paterno e xará, aos 45 anos de idade e menos de seis meses passados sobre a morte da mulher, foi preso pelo regime colonial português na região do Bocoio, Benguela, e mandado para a cadeia de São Nicolau, abandonando cinco filhos menores. O único crime? Ser líder da sua sinagoga (Igreja Evangélica do Sudoeste – agora Sinodal – de Angola) e saber ler e escrever. Só foi libertado em 1966.

O fascista e racista regime andava tresloucado pelo efeito contrário da sua arma opressora, a fé cristã (usada para amaciar e patrocinar a escravatura), que se revestiu do carácter libertário. De cristãos e bons indígenas, já se encaixavam no estatuto de “turras” (terroristas), associados ao início da luta armada de libertação nacional. Juntamente com meu avô teriam cumprido cadeia o “Liambandino” (corruptela de Diamantino), que cheguei a conhecer enquanto motorista de Chevrolet cinzenta, e o reverendo Malaquias (pai da jornalista RNA Bela Malaquias, salvo erro).

Como em tudo, o ano de 1961, o do 4 de Fevereiro, determinou o destino ideológico de muitos. E isso transcende gerações, não se podendo esperar que os nascidos depois de 1975 sejam completamente alienados ao legado familiar. É certo que se deve olhar para a coisa despidos de sentimentos de vingança. Seja como for, como aliás disse alguém recentemente, não foi à procura de glorificação que os nossos se sacrificaram pela sua Terra.
 Gociante Patissa, Benguela, 04 Fevereiro 2016
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Há instantes fui espreitar o estado da rua, alagada o máximo que pôde pelas chuvas desta manhã em Benguela

Não podendo crescer, o meu carrito (fabricado em 2014) deverá ficar pelo menos uma semana estacionado no quintal. Foi então que me lembrei dos anos em que o meu pai (Victor Manuel Patissa) era administrador da comuna da Kalahanga (município da Baía Farta, aprox. 1991/93)... altura em que a única viatura protocolar era um destes. Dava-me cá um jeito, pá... (foto de Hildete Amorim, via Net)
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

(arquivo) Diário | Ai, palavra de homem não conta?

“Excelência Investigador, eu sou aquele que ontem veio buscar notificação.”
“POIS CLARO! ENTREM!”
“Trouxe já o burlador…”
“SENTEM-SE. O QUEIXOSO TEM A PALAVRA!”
“Excelência Investigador, o que o outro me fez… se até aqui ainda não cometi, é mesmo já graças à tal educação de ignorante que temos. É que eu sou muito ignorante. Porque se a pessoa não ignora as provocações e falta de respeito, qualquer dia comete um homicídio…”
“VÁ DIRECTO AO ASSUNTO, CAMARADA, NÃO HÁ TEMPO A PERDER!”
“Então o outro me adeve dinheiro e, na hora de pagar, não quer pagar os juros?!”
“É só porque o outro não quer entender a outra parte. Quando recebi um e meio, era para o tratamento da tua cunhada na Namíbia…”
“UM E MEIO QUÊ?”
“Mil e quinhentos Dólares, chefe! Era para dar juros de quinhentos Dólares. Como o crédito estava a atrasar, então fui fiar um e meio para pagar dois. Só que depois com a crise complicou…”
“Mas quando fiaste, não estávamos sentados só os dois, aqui eu e aqui você? Havia uma terceira cadeira para a crise sentar?! Eu só mudo de posição na cama, na boca não, ouviu?”
“EXPLIQUEM-SE MELHOR!”
“Chefe, naquele tempo, mil dólares era cem mil Kwanzas. Só que o crédito bancário de 500 mil Kwanzas demorou muito. Agora que saiu, ainda assim graças a um filho alheio, de boa-fé, que só pediu gasosa dele de dez por cento. Hoje em dia, no banco, para te dar crédito, é rezar. A nota que era dez mil, agora na rua comprar está 30 mil. Com a crise, chefe, 1500 dólares no câmbio da rua ficou por 450 mil Kwanzas. Por isso pedi para o outro receber só o dinheiro dele, o juro, palavra de honra, não consigo pagar.”
“Mas tem contrato assinado?”
“Não, excelência Investigador. Foi tudo bocal…”
“Queres dizer verbal?”
“É isso, excelência. Foi tudo verbalizado bocalmente.”
“Falar que vou pagar juros, chefe, estou a mentir. No banco vão-me descontar cinco anos. Ainda tenho renda de casa. Propina das crianças. Era só o outro entender…”
"POR ACASO, PAGAR A DÍVIDA FICOU-TE PELO TRIPLO..."
“Você vai falar isso ao lado da pessoa de sua Excelência o Investigador?! Assim já queres chegar aonde? Excelência, me dá só ainda licença – tufas! tufas! – tufas! Te dei! Bem dado! Agora refila mais!”
“MAS QUEM É QUE O CAMARADA PENSA QUE É PARA AGREDIR ALGUÉM NO MEU GABINETE?”
“Eu tenho sistema nervoso, chefe. Já fui ignorante demais. Ignorei muito a provocação dele. Agora não aturei… Dei duas bofetadas e um pontapé. O chefe não vê como ele não reagiu? É porque sabe que errou. Ou não é assim?”
“OFICIAL-DIA! RECOLHE-ME ESTE DETIDO PARA A CELA!!!”
“Detido em cima do meu dinheiro?”
“VOCÊ TEM ALVARÁ PARA CONVERSÃO DE MOEDA E CRÉDITO?”
“Excelência! Ele e eu se apertamos a mão. Ai, palavra de homem não conta?”
Gociante Patissa. Lubango, 10 Janeiro 2016
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(arquivo) Sonhar como campeão

 Benguela, 31.01.2016
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(arquivo) Crónica │Leite gelado?

Na foto, Rex (Nigéria) e Patissa (Angola) à
mesa do matabicho no Washington Marriot
Entre Luanda e Newark residem umas 14 horas úteis de voo, acabando metade deste tempo gasto ainda na rota de escala, via Lisboa. Somam-se a isso duas horas de ligação, as quais no meu caso foram agradáveis com cicerone de luxo, de quem ainda ganhei um par luvas pretas.

O entusiasmo de conhecer América, ainda por cima com todas as despesas patrocinadas pelo Departamento de Estado e o Programa de Líderes Internacionais Visitantes, não suplantava o desgaste a todos os níveis, desde as nádegas anestesiadas de tanto sentar, o choque térmico entre o calor da banda e o inverno pelo caminho, as bruscas mudanças de paisagem, a língua, os fusos horários que alargavam cada vez mais o comprimento das horas do dia, a preocupação em achar o lugar marcado no bilhete para sentar, a comida, enfim. Tinha pela frente ainda mais três horas de voo para aterrar em Dulles, Washington-DC, isso há três anos.

Já pouco, ou quase nada mesmo, me apetecia, quando a hospedeira passava com aquele carrinho de víveres e me consultou sobre o que queria beber. Farto da típica variedade de refrigerantes, respondi-lhe, lacónico: cold milk, please!

Conhecendo a tendência americana da preocupação com a reputação, diria que a hospedeira não foi a tempo de esboçar aquele discurso floreado em jeito de negação. Era escusado pronunciar a palavra NÃO, de tão evidente na expressão facial. Trabalho também em aviação, e sei que em certas circunstâncias, o humano escapa na reacção do profissional. Sorri e lhe disse que estava tudo bem.

Recuperado o controlo da situação, assegurou que havia leite apenas para misturar com chá e café, não serviam um copo inteiro. No problem, tranquilizei. Uma vez servidos os passageiros sem que um deles se lembrasse de pedir leite, ela veio ter comigo. Desculpa, o senhor ainda quer leite? Sorri outra vez. Sim. E lá trouxe um pacote que dava para um copo e meio, para meu agrado. I am truly sorry about that, desculpou-se ela, acrescentando que era a primeira vez que lhe pediam leite gelado. Thanks.

A Cristina bem dizia, num desses bate-papos cibernéticos, que o ser humano é dos mamíferos o único que continua com leite depois do desmame (ao que acrescento, com pequenas doses de café para fingir que não, como no galão).
 Gociante Patissa, 30 Janeiro 2013
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domingo, 31 de janeiro de 2016

Desafio Ganda │A convite do amigo Banny di Castro, tive o privilégio de escalar a rocha do Atuki (aprox. 300 metros) para ver a piscina de águas naturais, também conhecida por lagoa do Atuki, situada bem no topo. O caminho é íngreme, exige o dobro dos pulmões, mas vale a pena visitar. É um rico pedaço turístico a clamar por investimento e maior divulgação.

 O primeiro passo para se chegar à serra. Haja estaleca
 Adrenalina ao rubro, para quem está de chinelos e se arrisca à picada de serpente
 Pormenor da piscina ou lagoa do Atuki, um importante fenómeno natural, que infelizmente corre o risco de ver o seu ecossistema enfraquecer, uma vez que os banhistas, embora poucos, conspurcam a nascente com lixo de vária ordem
 Uma selfie para a posteridade com o amigo Albano Sapondiya
 A piscina, também conhecida por lagoa do Atuki, faz a delícias dos miúdos e não só 
Na hora de descer da serra, a velhice usa as pernas para impôr um descanso
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sábado, 30 de janeiro de 2016

Crónica │Uma hotelaria em forma tentada

Pode-se dizer que a única forma com que me drogo, depois de largar a “chupeta” de cerveja há dois anos, é somar distâncias. Alguém diria: e amor não se faz? Então não conta? Conta, é certo, mas é noutra categoria, do que não pode ser contado, pelo menos não como droga, de tão elementar, fisiologicamente falando. Para ser droga, teria pois de ter outra opção. E neste quesito a humanidade ainda não achou concorrência à altura.

Pois, continuando. Os dias de ócio são uma tentação para fazer “reset” ao tempo de vida, viajando. E mais ainda nesta época de chuvas, de verdejantes paisagens… sabe tão bem sair por Angola dentro, enfim vestir a vida de razões para continuar por cá… Com a folga a calhar ao sábado, mochila feita para uma noite na sede do município da Ganda, aproximadamente 200 km de Benguela, onde resido. Na verdade eram duas mochilas, uma para o computador e acessórios da máquina fotográfica, outra para o uniforme de serviço, pois só uma directa me safaria da falta ao serviço no domingo.

Já às seis e meia da manhã se tinha ido embora o sono. Há quem lhe chame tensão pré-viagem. Asseguro apenas que não seria a primeira vez, talvez nem a última em iguais circunstâncias. Bom, escusado será falar da higiene matinal. A passagem pelo café faz-se rápido, mais umas águas e refrigerantes para a jornada. Ah, música? Bebe-se bem, obrigado, de preferência variada. O pote chama-se Pendrive MP3.

Toma conta de mim a estrada nacional 260 às oito da matina. Com alguns solavancos pelo meio, o bom dia Ganda é às dez e meia. Travão de mão. O Hotel é homónimo à vila. Não se fazem reservas em antecipação. Ao primeiro contacto, nenhuma alma ao balcão que parece ser a recepção, desculpa, não parece, é.

Sim, bom dia! Ah, bom dia. Vocês têm quartos disponíveis? Sim, solteiro dez mil, casal doze. Pela diária, mediana no padrão do sector, a expectativa é grande. Ok, queria ver os dois para poder escolher. O senhor quer dois quartos? Não, queria ter ideia das condições antes de optar. Está bem. MANA FULANA! DÁ AINDA A CHAVE! Pode vir. E ainda a meio dos degraus para o primeiro andar: como é a questão da energia? Mas aqui, a energia é mesmo geral. Vem às dezoito, vai às zero. Ah, sim? Então não há uma fonte alternativa? Tem o gerador, mas só ligam de manhã por uns minutos, que é para as pessoas tomarem banho. Neste caso, o dia todo é sem energia? É isso.

Faz-se escuro no corredor, enquanto não se abrem as portas da varanda dos quartos. É um escuro incompleto, valha-nos a verdade, não fosse o heroico papel da lanterna do telemóvel, algumas vezes apoiado entre os lábios. O hóspede, que por sorte ainda tem as mochilas por desfazer no porta-malas do carro, agradece a atenção e promete voltar dentro de instantes, para não sair mal na fotografia. Por acaso, o almoço come-se bem.

Até percebo que se esmerem para a hospedagem aproximar-se ao ambiente de casa. Só que talvez se tenha levado a originalidade ao excesso nisso de servir aos apagões. Por fim, temos um HG com nome, configuração e diária de hotel. Mas sem o básico pressuposto da era industrial, a electricidade… o exercício não passa de hotelaria em forma tentada.
Gociante Patissa. Ganda, 30 Janeiro 2016       www.angodebates.blogspot.com
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[Oficina] Conto | A conquista do mundo

Texto de Déborah Dornellas,
ecritora e tradutora brasileira
Para Clarice
A penugem anêmica, o bico minúsculo, as asas de nada. Quando era menina, Mirtes tinha loucura por pintos. Sempre que olhava para o serzinho ínfimo, ela se enternecia.
A paixão começou no dia em que a Tata começou a trazer pintos da feira, junto com as galinhas vivas. Às quartas, tinha sempre uma receita diferente: assada, frita, ao molho pardo, ensopada com batatas, no salpicão, na canja do jantar. Toda terça cedo, a Tata trazia uma bicha segurando pelos pés, de cabeça para baixo, e a guardava no tanque, amarrada à torneira, para matar e depenar depois. Mirtes ficava espiando de uma distância segura, na ponta dos pés, assustada e curiosa. Escutava o cró-có có e o bater inútil das asas, presas no quadrado de pedra. Chegava perto de jeito nenhum. 
Quando, no fim do dia, a Tata torcia e cortava o pescoço, depois jogava água fervente no corpo da galinha, para remover as penas, subia pelos azulejos azuis da cozinha um odor de morte. Fazia Mirtes engulhar. Ela nem abria mais a geladeira o resto do dia, para não dar com a ave morta, oca e sem cabeça, marinando dentro da bacia coberta com um plástico.
O primeiro pinto que a Tata trouxe quase enlouquece Mirtes de amor. Ela apertou tanto, acariciou tanto, carregou tanto o bichinho de um lado para o outro, que o pinto não resistiu dois dias. Amanheceu a quinta-feira morto na caixa de sapato. Mirtes chorou até domingo. Na segunda-feira, a Tata viu a Mirtes e pensou: essa criança vai morrer de tristeza. Então trouxe outro pintinho da feira, no dia seguinte. Mais amarelinho ainda. Mirtes, quando viu o pinto novo, deu um salto e agarrou o coitado de um golpe. Ficou o resto do dia brincando com ele. À noite, enquanto namorava o bicho acanhado no fundo da caixa, cismou que o pinto estava tremendo demais, e era de frio. Teve a ideia de desmontar uma luminária velha e fazer uma gambiarra, para improvisar uma estufa. Enfiou soquete, fio e lâmpada de 40 watts caixa de sapato adentro, rasgando um buraco feio. Colou a tampa com durex. Engenhoca inapropriada para um pinto já fora do ovo. Resultou que a caixa entrou em combustão de madrugada, e a ave amanheceu torrada. 
Com a ajuda da Tata, Mirtes enterrou o corpinho teso e escuro num canto do gramado, debaixo de um ipê roxo, na lateral do bloco B, perto do primeiro morto. Uma cruz para cada um.
A Tata, coração mole, ficou com dó da menina mais uma vez e trouxe o terceiro pinto. Esse chegou a botar corpo. Mirtes amava o bicho com loucura. Fez roupas, pôs laço de fita. Um belo dia, concluiu que tinha chegado a hora do banho, porque o pinto começou a cheirar mal. Preparou com muito esmero e higiene uma cumbuca com água morna, cortou um pedaço de sabonete Palmolive, arranjou uma bucha velha e pôs o bicho dentro do recipiente, inventando que era uma banheira para pintos. Banhou penugem, cabeça, bico, asinhas, pés, tudo. Com água e sabão. Não adiantou nada a Tata falar dez mil vezes que pinto não toma banho, Mirtes. O bicho se afogou. E Mirtes quase se afoga em lágrimas. 
Mais uma cruz no gramado. A cova do afogado era a maior.
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Crónica | Uma vénia ao repórter Carlos Marques

foto de autor desconhecido
Ao contrário da tendência que se assiste nas últimas duas décadas, a da consagração do jornalismo ou estrelato de cabine, a reportagem é o género jornalístico mais completo. Pelo menos assim diziam alguns manuais de jornalismo que andamos a devorar ainda na década de 1990 do século vinte. Então porquê?

Porque a reportagem carrega um pouco de crónica, outro pouco de notícia, mais outro pouco de análise, e mesmo opinião, onde o estilo do autor faz a diferença dentro da mesmice que seria a redacção de só dar resposta literal a «O quê, Onde, Quem, Quando, Como e Porquê». Repórteres há vários, incluindo os que a gíria jornalística em rádio e TV trata por “mudos”, convencionalmente afastados do microfone devido a debilidades na dicção, na articulação ou no domínio da língua de trabalho. Estes fazem a recolha e depositam o material na Redacção, cabendo ao editor indicar quem “põe a voz na peça”.

Como é de imaginar, é nas situações adversas que o verdadeiro profissional emerge. O estilo, o faro, o sentido de persuasão e a resiliência costumam ser determinantes na hora de arrancar da fonte aquela cirúrgica informação, parecer ou estado de alma, seja a propósito do facto do dia, seja uma radiografia social de determinado grupo, entre a interminável lista de motivos de cobertura.

Ontem, ao ouvir o noticiário vespertino da Rádio Lobito, vi-me obrigado a fazer uma vénia ao trabalho do repórter Carlos Marques (que não faz parte dos “mudos”), numa radiografia pelos bairros do subúrbio do Lobito, visando auscultar os moradores sobre a ausência (já se passou da condição de falhas) de energia.

A dado momento, surge um impasse. Dois interlocutores revelam-se agastados, não acreditam em mais nada, nem em ninguém. Já por lá tinham passado várias equipas, a da própria companhia eléctrica inclusive, mas nada de resolver o problema. Nestes casos, é sobre o repórter que o cidadão descarrega o rancor, o que exige um grande sentido de tacto para a necessária isenção e levar o interlocutor a falar para o microfone.

O ponto mais alto de toda a reportagem, a meu ver, dá-se na entrevista a uma anciã, voz trémula, aparentemente doente. A caminho da terceira pergunta, a anciã diz-se pouco confortável, talvez a cabeça a chatear. Instintivamente, o repórter flexibiliza o registo do diálogo, abandona a língua oficial e fala a língua materna da interlocutora, o Umbundu. Ela até já falava com o fôlego redobrado, discurso a fluir impecavelmente.

Mesmo sendo bilingue, um outro repórter desistiria, na mania das "finuras" e exclusão de classes que grassam na comunicação social, até porque a estação tem uma Editoria de Línguas Nacionais. O Marques, não. Fora da pauta, mostrou saber do valor profundo da língua na vivência do cidadão comum, entre a cultura e a sociolinguística.

Ora, uma vez ganha a confiança e vendo que o repórter se identificava com ela, vieram revelações marcantes sobre o modo de vida nos bairros emergentes, onde a energia falha, o combustível foge do alcance para alimentar o gerador, sem falar das pilhas que se esqueceram de alimentar a lanterna. O grande medo é que a noite dure para sempre.
Gociante Patissa, Benguela 29.01.2016
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

[Oficina] Crónica | Quando o calar ilude

Texto de Felisberto Ndunduma
Sakutchatcha
Calar só por calar não basta quando a batata quente estiver na boca, pois sem querer ela tem de se abrir para lançar fora o prejudicial;

Somos coroados de acção e força para agir e nos tornarmos mais tarde donos dos nossos próprios actos, assim é a vida dentro de uma sociedade, meramente quando se envereda pela defesa da humanidade;

Existe momentos em que o discurso público muda para uma única folha, todos protestam, todos contendam, porque querem vencer;

Quanto mais se ignora o pequeno chilrear da criança, não tarda, um grande choro vem por detrás e não será pacífico, pois perturbará até o vizinho que ora não terá sono e será obrigado a agir contra nós;

Calar nunca basta quando as palavras existirem para actuar e tecer considerações que possam ajudar;

Nós muitas vezes pintamos o nosso rosto com a marca do silêncio, mas estejamos conscientes de que isto é uma traição fatal ao nosso desejo de ser e servir: A Pátria chama, a família quer de nós, por isso não há equívocos para oferecer a voz para grande intervenção;

A voz é sagrada e nunca deve ser poupada para coisas necessárias e também sagradas, pois, nada nos pode devolver a dignidade senão o uso das nossas próprias palavras desenhadas sob a lúcida arquitectura da nossa causa;

Não basta calar quando a razão nos obriga a falar, porque o calar ilude e não mostra ao lado oposto o nosso posicionamento actual.

Não se cale nunca em altura desnecessária; e não é pessimismo quando se admite popularmente que “quem cala consente” pois, muitas vezes somos condenados pelo nosso rugoso silêncio e que parecendo silencioso, afinal diz mais que as palavras, apesar de serem escondidas. Fale e mostre que entendes, cale e nada mostre, pois, a abstinência é perigosa e nunca se sabe o que soa dentro do calado.

Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. 
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Nota solta | Quando o bom-senso prevalece ao lucro

Depois de várias voltas pelas lojas de principal referência na cidade do Lobito e outras por Benguela, sem sorte, à procura de um desses coletes clássicos de repórter, acabei visitando ontem uma loja benguelense de materiais de construção. Os coletes dão mesmo muito jeito em actividades de campo, já que podemos carregar nos bolsos o material de trabalho (gravadores, lentes/objectivas, blocos de apontamentos, etc.), dispensando bolsas. O meu primeiro colete, cinzento, tinha-o adquirido no balão de roupa usada da praça da Kaponte. O segundo, verde, era parte do uniforme de uma delegação governamental ao Brasil. O desgaste natural do tecido atirou-os para o museu afectivo. Posto na loja, finalmente encontrei o que queria a preço razoável. Comprei dois, sempre a pensar no suplente. Infelizmente, já em casa, notei que o colete castanho claro, o meu preferido, era demasiado largo (XL), só o caqui ficava bem (L). Hoje voltei à loja para trocar por outro de tamanho adequado, mas daquela cor já não havia. Assim, não me interessando dois coletes iguais, pedi devolução, antevendo já uma daquelas resistências a mwangolê dos longos anos do "não aceitamos devoluções" estampado na factura. Mas, não. O pessoal foi impecável e, em pouco menos de dez minutos, deixei a loja satisfeito. É um exemplo que serve de referência para aferir o impacto de instituições e leis de defesa do consumidor, bem como a maturidade social progressiva no exercício da cidadania. Assim, sim, senhor comerciante!

Gociante Patissa, Benguela, 28.01.16 www.angodebates.blogspot.com
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Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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