Edição angolana do livro de contos

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PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 30 de março de 2018

(Extracto do conto) CONSULTÓRIO NÚMERO QUARENTA

"O povo queixa-se, sempre, é sua natureza. Há médicos, aqui nascidos ou do estrangeiro requisitados, que plantaram morada fixa na boca do povo, e não é pelas agulhas, comprimidos, nem pela empatia. Boa fama não vem quando a nascente é o hospital, de Benguela, o geral, erguido sobre as esperanças do povo, muito dele sem fôlego para galgar a tesouraria de uma clínica. Como se já desagradasse pouco a barreira que é o pavilhão internacional, o povo que, como bem se diz, nasceu com o dom natural de reclamar, às vezes porque sente, às vezes porque mente, já não pode com médicos talhados a comerciantes da dor do próximo. É-lhes admirada a frieza de quem condiciona o atendimento da maioria, desde que qualquer singular lhes adorne a impunidade com umas dezenas de milhares de Kwanzas.

Tudo existe de reagentes, equipamentos. Fazem-se milagres, um deles sendo o da multiplicação do tempo, neste campo o recurso mais escasso. Os despojados, maldita paisagem esta, podem bem padecer à porta apinhados ou no vazio de uma enfermaria, enquanto o médico, cubano, ucraniano, vietnamita, angolano, consoante o acaso, investe horas de empreendedorismo em exames especiais, quando não em cirurgias complicadas, pois podem todos (o médico, pelo poder da função. O desesperado paciente, pelo tostão). O povo queixa-se sempre, mal sabendo conservar eventuais provas. Talvez equivocado, ainda acho que há que ouvi-lo."

Gociante Patissa. In «O Homem Que Plantava Aves», 2017. Pág. 74-75. Editora Penalux, Guarantinguetá. São Paulo, Brasil

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