PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Conto | E num instante, toda a sala é cacos

Tendo dedicado uma considerável fatia da sua vidinha a plantar árvores, e já conformado com a incapacidade de algum dia chegar a publicar algum livro, o cidadão Estrada sentia-se próximo da meta. Faltavam-lhe todavia dois degraus. Disso não lhe restava a menor dúvida: fazer filhos (mas para tal era preciso antes casar, e muito mais antes disso… arranjar alguém para casar) e aumentar o grau académico.

Estrada era bem dotado em todos os sentidos e talhado a transformar o sacrifício em sorte. Casou-se antes dos 40 anos. Conquistou duas bolsas de estudo para licenciatura num país à sua escolha. Como espectável de alguém meticuloso como só ele, Estrada esposara uma beldade do seu nível, o que facilitou a fazer bom uso da outra bolsa. Por acréscimo, a moça era daquelas que prestam uma homenagem ao cosmos pelo simples facto de existir.

A lua-de-mel acabou sendo um trampolim na saída para o doce exílio. Deixavam para trás o aconchego dos familiares, a boa comida da terra, o parentesco dos mosquitos, enfim, aquele conjunto agridoce que reforça o sentido de pertença ao nosso chão. Seriam só quatro anos. Para trás ficava também a boa reputação profissional do compatriota Estrada, pelo excelente trabalho que levara a cabo na gestão dos recursos humanos.

A estabilidade da empresa ficava a dever-se a ele. Vezes mil, Estrada teve de arregaçar mangas e mediar ciclos de desentendimento entre as duas cabeças da sociedade. O Dr. Caminho, médico, e o Dr. Distância, formado em relações internacionais, tinham uma relação que chegava a lembrar o leão e o mabeco). Morava em Estrada a voz e o rosto da conciliação. Sobreviveria a empresa à sua ausência? A preocupação agora era outra.

Marido e mulher fizeram, mãos sobre a bíblia, um voto de fidelidade e honestidade. Dariam o máximo para não atrapalhar os estudos e assim regressar à sua terra dentro do normal que eram quatro anos. Tudo o resto era aprendizagem, literalmente.

O mês era Novembro. Entre Kunene e o destino havia uma diferença de 33 graus celsius, um frio tal que dava até preguiça na hora de tirar a roupa e vestir-se de amor feito. Ir às compras era outro martírio. Da varanda do apartamento admiravam a vida que desfilava na avenida. Mães empurrando carrinhos de bebé, executivos acoitando-se em copos de chá comprados ao quiosque, chinês apressado para abrir a barraca de fast food, esquilos posando para a fotografia do turista, árvores de tronco nu, lençol de neve sem fim.  

Estrada levara até então uma vida tão focada, mas tão focada mesmo no trabalho que do sexo oposto entendia o equivalente a um bago de feijão. E não tardou a insegurança. Havia sempre uma semana em cada mês que julgava, desesperado, que o lar iria ruir. Ela devia estar de olhos em outro homem, que escolhera a mulher errada. No primeiro mês não disse nada à esposa a respeito. No segundo mês orou forte para que quem quer que fosse o ladrão do coração da sua amada mudasse de ideias ou então – que lhe perdoasse Deus! – ao menos tivesse um acidente fatal.

Ao terceiro mês passou a ir buscar a mulher à universidade, a beijar-lhe os pés no momento em que estes saíam da sabrina. Passou a levar o matabicho do jeito que viu na novela. Já iam ao oitavo mês, e a seu ver as causas da insegurança repetiam-se. Foi então que entendeu solicitar uma audiência com a entidade religiosa mais próxima.

Eminência, preciso da vossa intercessão. É o meu lar. Namoramos mesmo bem, noivamos ainda melhor, mas ultimamente está assim. E é quase todos os meses, o que me preocupa. A dama anda uns dias deprimida. Pequena coisa que pergunto, já lá está ela com vontade de chorar, irrita-se até por existir o pôr-do-sol. Eu sei que viver no estrangeiro não é fácil, mas só que a ansiedade e a insónia dela já… Às vezes lhe falta apetite, às vezes come demais – oh, Eminência, isso não lhe vai mexer na saúde? Tento organizar estudo em grupo com ela, mas ela demonstra falta de concentração, diz que está cansada. Não sei se é do clima, se é da saudade ou da comida. É por isso que desconfio…

O anfitrião sorriu, fez-lhe festinhas na testa, coçou-lhe a cabeça e disse: Oh, meu filho, fosse eu o teu professor de biologia, estarias reprovado na matéria de TPM. Chegado à casa, pediu perdão à esposa por todas as vezes que foi inconveniente. Beijaram-se e por pouco não se descascaram dos tecidos ali mesmo na varanda, tão ardentes de desejo. 

Cada Natal celebrado anunciava um ano académico vencido. Certo dia receberam um telefonema de natureza profissional. Na verdade foram dois com o mesmo fim. Primeiro o Dr. Distância, a seguir o Dr. Caminho. A firma enfrentava um impasse devastador e os sócios, esgotadas todas as tentativas de resolução intramuros, convenceram-se de que salvar a empresa passaria pela sabedoria do senhor Estrada. E viajaram para o estrangeiro em busca de mediação. Estrada, que conhecia o projecto melhor do que ninguém, aceitou recebê-los em sua casa. Hospitaleira, a esposa preparou uma ceia. Mesa posta. Já só faltava meia-hora para a chegada dos hóspedes.

A mulher estava naqueles dias, razão pela qual o homem não conseguia relaxar de todo. Arrumava-se ela para a ocasião. À chegada, o Dr. Distância e Dr. Caminho foram acolhidos por Estrada com piadas na ponta da língua, seu isco favorito para amenizar o ambiente tenso que antecede a resolução de conflitos. Nisto surge disparada a esposa do quarto, recolhe os dois pratos de porcelana postos para os hóspedes e arremessa-os violentamente contra o chão. E num instante, toda a sala é cacos. Incrédulos era pouco para descrever o estado dos hospedes. NUNCA MAIS APAREÇAM AQUI! Imperava a dona de casa num tom inusitado a dar para a súplica. A que propósito vinha tanta fúria?

Não havendo clima possível de emendar, os visitantes partiram. A mulher fechou-se no quarto a chorar. O marido anunciou divórcio. Ela não reluctou, impôs apenas uma condição: como faltava pouco para a outorga, só quando retornassem desfariam os votos e na presença das pessoas que testemunharam o casamento. E assim ficou combinado.

O ancião da família deu voz ao marido, a parte lesada. Ele falou do trauma pelo vexame que passou, pois uma tensão pré-menstrual não justificava a enorme falta de respeito demonstrada pela esposa. Foi um sinal de como não poderá contar com ela para os desafios de uma auspiciosa carreira profissional. A audiência anuiu.

Depois foi a vez da mulher. Com lágrimas no rosto, contou que naquele dia notara algo estranho na posição dos pratos e copos na mesa, que já no quarto encontrara o frasco de raticida semi-aberto. Neste instante o marido abaixou a cara de vergonha. A mulher acrescentou que se sentia traída, uma vez que o resultado das autópsias desembocaria nela. 
Gociante Patissa | Lobito, 20 Julho 2017 | www.angodebates.blogspot.com

Divagações | ALGUÉM VIU O QUE OS PROGRAMAS DOS PARTIDOS DIZEM SOBRE O DIA MUNDIAL DA SOLTEIRICE?

Vendo a tendência infernal em que se transforma a vivência de alguns casais no século 21, onde o lar (que você mesmo formou com a pessoa escolhida de livre vontade e almejando felicidade) já só representa energia negativa e ciclos de tortura, corpos unidos para agradar a construção social que exige o prestígio de constituir a todo custo família (às vezes com desesperado olho gordo na herança), entretanto almas há muito distanciadas, você até se pergunta: como é que ainda não foi instituído o Dia Mundial da Solteirice Libertadora? A propósito, sei que os concorrentes às eleições já começaram a apresentar os seus programas de projecto de governo. Dá para vossas excelências dizer o que trazem os partidos e partidecos sobre o assunto em abordagem? Qual seria a melhor altura do ano para comemorar tão importante data mesmo? Ainda era só isso. Obrigado HAHAHAHAHA
www.angodebates.blogspot.com

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Citação

[Ela] é um novo talento do nosso jornalismo, formada na "Escola Superior de Modelos e Manequins" 
(tirada de de Sérgio Piçarra)

Não sabem o que é invadir vida privada?!

(I)
“Sim. Bom dia, quem fala?”
“Falo com o doutor Escopro, da revista Pirilampo da Moda?”
“Sim, o próprio. Mas por favor, não sou doutor. Licenciatura é tudo quanto tenho…”
“Ok, amigo Escopro. Aqui fala Damasceno Miúdo. Tenho um furo, um exclusivo para a vossa revista. Aquilo, sinceramente, vai disparar a vossa audiência.”
“Aié? Isso é óptimo. Assaltaram um banco, exoneraram um governador, ou como é?”
“Não. Quero vos oferecer a cobertura do meu casamento. A nata toda do país vai lá estar. Sabe, doutor Escopro, aliás editor Escopro, é uma placa giratória para conhecer gente que presta e, quem sabe, conseguir patrocínios para outros negócios colaterais seus…”
“Ah, casamento, né? Vai desculpar, mas temos de racionalizar os parcos meios técnicos e humanos que temos. Receio que…”
“Ó homem, quando uma porta abre assim tipo magia na nossa vida, é preciso saber aproveitar. Quando mais nessa vida é que vossa excelência vai ter o céu ao vosso alcance? Me fala só: qual é a entidade que queres que eu te apresente?!”
“Eu como conheço o faro dos jornalistas, adianto já. O mobiliário da festa veio de propósito da China, os anéis da Rússia, champagne do coração de Paris, o padre a celebrar a missa vem do Vaticano, o conservador é top, a limousine é um ferrari importado em série do sheik do Dubai. Helicóptero privado pronto em caso de emergência médica, papel higiénico de liamba. Salão para adultos, para crianças e um terceiro para animais de estimação. Ah, a noiva é quem? Vais saber no próprio dia, é depois de amanhã. Ela chega amanhã do Japão, foi fazer depilação geral, dizem que lá a virilha volta como nova…”
“Ok. Negócio fechado. Mas só uma coisa. Em ocasiões deste tipo, há sempre o problema de os convidados se sentirem incomodados com o nosso trabalho, não sei se é receio de quê. Já várias vezes fui, eu pessoalmente, chamado a atenção de lado…”
“Deixa isso comigo, cuidarei de desbastar qualquer obstáculo, doutor Escopro…”

(II)
“Aló, amigo Escopro, é só para agradecer a estampa. Até chorei. Vocês são profissionais, ya!… É cada ângulo fotográfico que, sinceramente, posso morrer amanhã, estou feliz… Por quanto que fica? Porque de graça mesmo é só o ar que respiramos. Diga o preço e eu fecho os olhos...”
“Mano Miúdo, não agradeça. A revista Pirilampo da Moda persegue o interesse público.”
“Acho que foi o casamento dos dois últimos séculos, meu caro. Até não se fala em mais nada, nem na crise, nem na vadiagem dos dólares, que não se lembram de voltar… Meu irmão, o vosso trabalho na minha vida, palavra de honra, jamais esquecerei.”

(III)
“Aló. Doutor Damasceno?”
“Sim. Quem fala?”
“Escopro…”
“Escopro? Fala da parte de quem?”
“Revista Pirilampo da Moda. Já não se lembra? Cobri no ano passado o seu casamento…”
“Hã, e agora quer o quê?!”
“Dentro da nossa boa colaboração, queríamos dar seguimento nessa fase do divórcio…”
“O que é que vocês têm a ver com isso?! Vai à merda, ouviu? Hum! Onde é que já se viu falar do meu divórcio com jornalistas?! Dá para ver que não são profissionais, pá! O vosso lixo de revista vai se ver com o meu advogado! Não sabem o que é invadir vida privada?!”

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 19.07.2017

Citação

"Grande parte dos escritores brasileiros modernos cria a partir do que determinam professores universitários. Delimitam as experiências estéticas conforme os livros da própria biblioteca. Pensam que compõem, mas fazem releituras."
(Bernardo A. Bernardo A. de Almeida, Brasil)

terça-feira, 18 de julho de 2017

A luz acabou de chegar. A água deve estar a tomar banho para sair"

Do arquivo, porque... claro que sim

Diário | O meu kota não leva nem pelo menos um?!

"Chefe, desculpa incomodar."
"Sim?"
"Gostaria só que o chefe desse uma vista de olhos aos livros que estou a vender."
"Ok. Deixa ver..."
"São livros espirituais. Origem do Brasil. Esse aqui é O Casal que Tem Acordo com Deus. É sobre o relacionamento do casal, como a mulher deve se comportar no lar..."
"Ok..."
"Pode mesmo segurar, meu kota, ver o sumário, a mensagem que está dentro. Eu não obrigo ninguém a comprar. Só dou a conhecer e a pessoa, gostando, compra..."
"Faz sentido..."
"Esse é sobre a fé. O outro também. Bem dizer são estes três tipos que tenho, é só escolher..."
"Aié? E quanto é o preço de cada exemplar?"
"Aos bancários estive a vender a dois mil e quinhentos, ao kota só faço só já por dois mil kwanzas..."
"Ah, está bem. Não tenho dinheiro, mas gostei da sua atitude: vender com respeito, iniciativa e criatividade..."
"Assim o meu kota não leva nem pelo menos um?!"
Gociante Patissa | Benguela, 18.07.2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Crónica | Da memória familiar: Onde José Samuel e Gociante cruzam

Gociante Patissa (sobrinho) e Isaac Samuel (tio)
Passei a tarde de hoje em ambiente de óbito no bairro Pomba, zona Alta da cidade do Lobito, pelo duplo tio Eurico Ângelo, primo da minha mãe, falecido na quarta-feira-feira. Duplo, porque a viúva, a tia Suzana, é prima do meu pai. Este estatuto marcou a nossa infância e adolescência com o à vontade redobrado de visitante que não receia desagradar a parte oposta. Havia dois destinos na família assim, outro sendo o do tio Higino (pai do Jacob Higino), primo da minha mãe, esposo da tia Inácia Cândido, prima-irmã do pai.

Não havendo nada que se possa gostar em circunstâncias do género, o óbito tem a virtude de reencontrar membros da família dispersos um pouco por todo o país. As apresentações ganham vez. No caso concreto de hoje, regressei com um sem número de informações valiosas da história da parte materna da família, o que me expôs (por culpa das minhas perguntas) à travessia de memórias emocionalmente fortes e desgastantes, sobretudo porque os algozes estão vivos, bem localizados, numa sociedade cujo fim do conflito armado não ensaiou uma espécie de Comissão de Reconciliação e Verdade.

Há um assunto geralmente evitado, o das circunstâncias do assassinato do político José Samuel, no fervor da rivalidade entre Unita e Mpla no ano de 1975, o patriota que dá nome a três instituições no município do Lobito, nomeadamente, a praça José Samuel, adjacente ao BFA da Zona Comercial (também conhecida por Terreiro do Pó), e na mesma zona o Comité de Acção do partido Mpla, bem como a Escoa José Samuel, sita na Lixeira Kandimba.

Soube da existência do herói da família em meados de 1985, quando chegamos ao Lobito, fugidos da guerra do Monte Belo, do Município do Bocoio, interior da província de Benguela. Sabíamos que fora filho do avô Samuel Manuel Ferramenta, primo-irmão de Gociante Kapiñala, meu avô materno (falecido em finais da década de 1970). O avô Samuel, de um português rebuscado, fruto do convívio com a comunidade colonial, deu o máximo que pôde para suprir a ausência do primo. Íamos passear à sua casa do bairro da Kambembwa, também na Zona alta. Recebemo-lo várias vezes em casa (tanto na Bela Vista, como no Bar Africano).
Gociante Kapiñalã

Fosse por sermos menores, fosse pela dor de revisitar memórias do ente querido, não me lembro de a minha mãe alguma vez ter entrado em pormenores das circunstâncias das ausências de Gociante ou de José. Em 1992, adolescente, fomos ao Monte Belo para dar vida ao projecto agrícola do meu pai. Nessa altura o avô Samuel decidira fixar lá residência (onde por ironia veio a ser abatido alguns anos mais tarde). Era nosso vizinho. Velho simpático, trabalhador, afectuoso, mas também reticente e de certa forma enlutado.

Os filhos do avô, o Benjamim, o Enoc, o Isaac e o Fernando, que viviam na Restinga, foram sempre desgarrados do resto da família. A referência que retenho era a de um camião Isuzu cinzento de transporte e revenda de lenha e carvão, que morava ali pelos edifícios circundantes ao Centro de Formação Comandante Nzaji, à subida da Bela Vista.

Hoje fiquei a saber é que o avô Gociante, acossado por uma doença indomável no município da Ganda, veio ao Lobito para junto do seu primo Samuel Ferramenta, que vivia em casa do seu filho Isaac Samuel (na foto), professor de profissão, onde acabou por perder a vida. Soube também que José Samuel teve um filho de nome Apolo, que faleceu por doença na província da Lunda-Norte, onde desenrascava como motorista.
Gociante Patissa | Lobito, 17 Julho 2017 | www.angodebates.blospot.com

Jovens em época de campanha eleitoral | Um exemplo louvável de coabitação política

(Foto via Siona Júnio, Facebook)

sábado, 15 de julho de 2017

Porto do Lobito visto da Colina da Saudade

Face ao desgaste na credibilidade, que tal ensaiar debate entre representantes de partidos ao invés do modelo actual de analistas?

Pungu-a-Ndongo, município do Kakusu, Malanji

Divagações | Uma assessoria grátis em época de campanha eleitoral

Cruzei com um líder de um partido político da oposição pelos degraus do corredor de uma repartição. Corriam as primeiras horas de uma manhã laboral. Mantive o olhar na direcção dos olhos dele, como recomenda a boa educação, esperando, em vão talvez, que me saudasse. Não tendo ele tomado a iniciativa, então saudei-lhe eu, com certa pena. Dirijo-me em reacção instintiva, em tom de resmungar, ao companheiro que me acompanhava: "Mas esse senhor não saúda?!" O companheiro, inócuo ao ocorrido, indaga se nos conhecíamos. Por acaso não. Nem faço a mínima ideia de como ele terá passado a noite ou o estado de saúde da conta bancária do homem. Mas seja como for, como figura pública que ele é, e numa fase de praticamente campanha eleitoral, a faltar um mês para ir às urnas, não seria melhor nem pelo menos fingir que tem consideração pelos potenciais votantes?! Rendido à minha lógica o companheiro complementa: "Isso é mesmo assim. Se calhar, se fosse o próprio dono do partido, iria cumprimentar". Moral da história: caros políticos, se der para aproveitar a sugestão que estas linhas encerram, aproveitem. A mobilização faz-se no dia-a-dia, em gestos simples como mostrar que estamos ao nível de nos identificar de maneira desinteressada com o cidadão comum, desconhecido. Guardemos ainda para depois da victória o mau feitio a  que temos direito, o diploma, ou eventuais preferências quanto a classes sociais. Desta vez não cobro pela assessoria, mas o problema é que sua excelência eu não dura para sempre. Ainda era só isso. Obrigado hahahahaha
Gociante Patissa, Catumbela, 15 Julho 2017

Crónica | Problema é o nome da fonte

Nada fácil é a vida de repórter. A mulher, graças a Deus!, tinha o necessário para a polivalência. Redacção, dicção, domínio da língua. Tinha também – melhor dizer tem e terá – um rosto de cinema. Para estar imune à erosão do tempo, agendada em forma de rugas e flacidez, a menina cuidara de emoldurar fotografias da fase mais bonita de sua existência, a qual congelou ao vigésimo aniversário. Como que predestinada à profissão, teve a natureza o cuidado de apetrechar a sua fisionomia com volumes chamativos lá onde o estímulo másculo espera ver no sexo oposto, de quando a quando uma valência. Que o jornalismo – no sentido clássico de actividade de recolha, tratamento e divulgação da informação – não é aquele bolo recheado que nos pintam os manuais e as difusões, isso, só muito mais tarde – talvez tarde demais – ela provaria quando, ao cabo de milhares de portas batidas, conseguiu atracar a bordo de um bilhetinho na Redacção. Na típica vaidade de caloira olhou à volta para escrutinar o valor dos anfitriões pelo preço de suas vestes. Sorriu de triunfo comparativo. Era tudo a roçar o mal-amanhado, pelo que seriam serviçais de passagem, deduziu, jornalistas é que não. Viu-lhe crescer a expectativa de primeiro dia de funções, mas manteve-se quieta. Roía os dentes de ansiedade, sem tirar os olhos da porta, porta pela qual entrariam as estrelas da voz. As horas iam sendo engolidas pelo frenesim, e ninguém lhe dirigia palavra. Não fez drama, até porque ela estava à espera dos jornalistas. Já lhe faziam confusão o recado tonitruante do estômago e o matraquear da máquina de dactilografar. De repente, a sala explodiu numa salva prolongada de palmas. O susto foi inevitável. Esteja calma, é praxe cá da Redacção quando o noticiário central termina, esclareceu-lhe um moço alto, hálito de tinto, tão magro, tão magro que parecia algo propositado… para estar em forma a voz. Fala pausada, boca humana, articulação de máquina. Nessa altura, a novata olhava para o relógio. 12h25. Chegara às 9h30. Desculpa não lhe prestar atenção, é da azáfama para fechar. Eu sou o Editor Chefe, apresentou-se o guardião do templo. Teve de esfregar os olhos para se certificar de que as belas, brilhantes e simpáticas vozes moravam no mesmo corpo que aqueles semblantes carrancudos, feições disformes e lábios avermelhados de anos etílicos em garganta talhada à cascata. Foi-lhe logo atribuída uma jornalista sénior, sua tutora. A província não deixa de acontecer na falta de escola técnico-profissional. O Lead é o parágrafo de ataque. Uma boa notícia abre com conclusão. Grata, chefe. O quê é o assunto; o quando já sabes; onde também tenho de te explicar? Espero bem que não. Quem é o sujeito que é objecto da notícia. Como e porquê são facultativos. Convém anotar, está bem? Não sou rica em tempo. Sim, chefe. Tens de ter bloco de contactos, já sabes quão poucos nesta cidade falam com propriedade. Só fala quem possui propriedades, chefe? Não, minha linda! Fala quem tem conhecimento de causa. E tens de fazer uso do sentido de persuasão, percebes, mulher? Foi o dia mais longo de sua vida. Mais graça tinha a tutora morando nas ondas hertzianas. E décadas trouxeram o direito de varrer o seu whiskey de afinar garganta com os demais. Evoluíra para sénior. Acima do erro, isto é… até ver. Um olhar pela pauta, evento oficial à tangente. Um pouco facto, um pouco opinião, outro pouco realização. Não há som. Sentido de persuasão, percebes, mulher? É a chefe a retinir na memória. No começo o engenheiro relucta, mas acaba no papo. Sem anonimatos. Balanço, números, vantagens. Ela não questiona o significado do nome, é irrelevante diante do capital de prestígio no sotaque estrangeiro. Regressa à rádio, parte o registo conforme o Lead, microfone no ar, reportagem caprichada. Sobe o indicativo de fecho, cai o processo disciplinar. Problema? Falo Pinto era o nome da fonte.

Gociante Patissa | Benguela, 15 Julho 2017 | www.angodebates.blogspot.com

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Humor | Contas a Joãozinho

Prof: Diga nome de 5 animais q vivem na água.
Joãozinho: Sapo!
Prof: Muito bem. E os outros 4?
Joãozinho: Mãe dele, pai dele, irmão dele e a Irmã dele.
(desconhecido)
www.angodebates.blogspot.com

Anedota | Geografia

- Oh mãe! Tirei nota zero a geografia por não saber onde estava o oceano Atlântico.
-Vês?! Sempre te disse para não seres tão desarrumado.
(autor anónimo)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Anedota

Dois loucos estão sentados na rua, quando um olha para o céu e diz:
– Olha lá o avião do presidente.
O outro questiona:
– Esse não é o avião do presidente. Se fosse, teria uma moto na frente e outra atrás. | (Autor desconhecido) www.angodebates.blogspot.com

Áudio Entrevista | VANTAGENS DO HÁBITO DE LEITURA | Rádio Benguela com escritor Gociante Patissa 11.07.17

Nesta entrevista de 45 minutos , conduzida no dia 11/07/2017 por Filomena Maria, programa "Entre Nós", da Rádio Benguela, o escritor benguelense Gociante Patissa fala das vantagens do hábito de leitura, tendo em conta o homem, o meio e os recursos. Os temas da conversa passam pela radiografia às virtudes e defeitos das estruturas e sistemas de educação; os desafios de natureza antropológica ao papel da família na forja do homem novo leitor, tendo em conta a maioria Bantu cujo veículo de transmissão de valores é a oralidade; O livro impresso versus as novas tecnologias enquanto factor de distracção mas também plataforma de promoção da leitura; O lugar do livro nas prioridades orçamentais da família; As consequências da aceleração escolar no perfil de saída do estudante lançado para o mercado e, para terminar, o reconhecimento da cidade de Mbanza-a-Kongo pela Unesco como Património Mundial. Acompanhe e desde já, gratos pela escuta. Ainda era só isso. www.angodebates.blogspot.com

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Divagações | Nota positiva a Cabo Snoop

É cultor de um segmento de música que a mim diz pouco, quase nada, mas felizmente há lugar para todos os gostos nestas coisas de consumir barulhos organizados que atendem pelo nome de música. O que, entretanto, já não podemos deixar de elogiar é a postura do seu discurso conciliador, cordato e assertivo, ao que alia um fluído raciocínio e domínio da língua portuguesa. O carismático Cabo Snoop, de seu nome de registo Ivo Manuel Lemos, nascido em Luanda aos 01 de Novembro de 1990, despontou em 2010 com o dançante tema "Windeck", que parodia o original "Lean Back", do norte-americano Fat Joe. Cabo Snoop esteve há poucos dias no programa Levanta do Som, da TPA2, no qual não deixou de ser "provocado" pela perspicaz apresentadora Lukénia Gomes, no sentido de se pronunciar sobre a relação com Ho-Chi Fu, dono da produtora Power House, responsável pelo surgimento no panorama artístico de um "miúdo" por si acolhido como ajudante de estúdio, o qual elevaria à "joia" do emblema, com contratos para shows na África do Sul e Nigéria e tudo, no género afro-house. Para se ter ideia, na delegação do Ministério da Juventude e Desportos à 6.ª Bienal de Jovens Criadores da CPLP, que teve lugar no ano de 2013 em Salvador da Bahia, Cabo Snoop e o seu agente tiveram direito à Classe Executiva no vôo e Hotel Cinco estrelas, enquanto um Kyaku Kyadaff, talentoso trovador e compositor e por sinal muito acarinhado pela imprensa brasileira durante o evento, andou "perdido", como os demais jovens criadores da delegação angolana, na classe económica e hospedado em quarto partilhado de hotel mediano com outro delegado. Voltando à pergunta da Lukénia quanto à actual relação entre Cabo Snoop e o seu antigo mentor Ho-chi Fu. "Infelizmente já não temos relação", começou por responder a seu jeito singelo, sempre mantendo a elevação quando se referisse ao seu antigo mentor que, como muitos estarão recordados, teve uma reacção mediática de conflito quando se deu o fim do vínculo. Hoje, Cabo é agenciado pela Arca Velha, do músico e compositor benguelense Matias Damásio, depois de ter sido agenciado pela Hadja Models, um pouco por influência da esposa, que faz parte das modelos da casa. Terminamos estas linhas com a nota com que abrimos, isto é, reiterando não nos revermos no segmento musical seguido por Cabo Snoop, pela sua natureza inconsistente, culturalmente oca, e muito virada para o showbiz, ao mesmo tempo não podendo nós, todavia, deixar de pontuar a idoneidade com que ele gere no plano da coerência discursiva a sua imagem. Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa, 10 Julho, 2017 | www.angodebates.blogspot.com

Diário | Mas aquele chinês se eu lhe chamar um nervo, fiz mal?

"Colega, já viste uma coisa?"
"Qual é a dica?"
"Esse chinês já está começar a me dar raiva, meu... Me responde só ainda. Assim se um dia desses um gajo lhe chamar um nervo, fiz mal?"
"Qual é a maka então?"
"Estou mesmo a lhe controlar... lhe controlar... lhe controlar... Vi mesmo, que... Não! Esse gajo tem uma intenção..."
"Aié? Então ainda em vez de trabalhar - e sabes mesmo bem que trabalho do talho não é para mulheres -, você ainda perde mais tempo com controlar a intenção dos clientes? Intenção de quê assim?"
"Mas você também é muito boelo, jurumemu..."
"Assim é de se ofender?"
"Não, claro que não. Desculpa..."
"Vou pensar. Mas continua..."
"Já passam três meses. Mas aquele chinês afinal é como?! Daqui a pouco vai vir. O movimento dele no talho não varia. Fica ali a mostrar os dentes, cheio de simpatia, porque 'boa talde, amigo, quelo isso, quelo aquilo'. Ele já é que não pede a tal carne de primeira, não pede segunda com ossos, não pede picanha, não pede alcatra, não pede miudezas, nem pelo menos ossos para cães. Nunca reparaste?"
"Agora que falas, estou a dar conta..."
"Assim se um dia desses um gajo lhe chamar um nervo, fiz mal? Quando ele chega, pede só o quê?..."
"Os testículos do animal, muito mais cabrito..."
"Esse chinês assim não deve ser um gay que está a nos seduzir, como quem nos vê como cabrões?!..."
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 10 Julho 2017

Lua de mel

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Utilidade pública | «CONTOS INÉDITOS DE AUTORES ANGOLANOS», colectânea disponível em PDF

Eu tenho a versão impressa, que ganhei em 2014 do confrade Joao Tala, mas acabei de achar na net a versão digital desta colectânea coordenada por Jorge Macedo e patrocinada pelo então BES, hoje Banco económico. . Basta clicar no link para aceder. Coloco abaixo a lista de conteúdo:

- O DR. E. PINTAVA-SE DE PRETO - Arnaldo Santos
- NEGÓCIOS (DO TRADICIONAL AO MODERNO) - Chó do Guri

- A PROFETISA DA VERDADE - Ismael Mateus
JANDIRIANA (VIDA E MORTE NO CARNAVAL) - Jacques dos Santos
- A GRAVATA AMARELA - João Tala
SURPRESA FRUSTRADA - Maria Celestina Fernandess
- A MULATA, O MOSQUITO E CHET BAKER AO PIANO - Ondjaki Angola
- A INOCENTE - Sónia Gomes
- ELAVOKO - Sousa Jamba
FAMÍLIA REAL - Yola Castro

Just a question | O TPI acreditava mesmo que as autoridades da África do Sul prenderiam o presidente sudanês?

Na condição da África do Sul, não acredito que algum país africano cumpriria a ordem do TPI de prender em seu território o presidente sudanês (em funções), al-Bashir, durante uma cimeira de chefes de estado no quadro da União Africana. Pelo que esta condenação, que tem por fim mais uma reprimenda pedagógica no sentido de lembrar os estados signatários quanto ao cumprimento do tratado sobre o tribunal de Haia, há-de ser só isto mesmo, uma censura registada. Se sob o ponto de vista jurídico seria o mais correcto, já por um prisma político uma tal detenção representaria um precedente corrosivo para a própria unidade que se busca nas diplomacias de vária ordem, tendo por base o princípio da soberania dos estados e o limite quanto a imiscuir-se em assuntos de uns e outros. Não nos movendo nestas linhas qualquer intenção de ilibar o presidente sudanês dos crimes de que é acusado, não podemos contudo afastar a hipótese de uma relação de ódio entre os povos do país anfitrião e os do país cujo chefe de estado passaria por vítima de uma "traição" a favor de um tribunal situado na Europa e tido como desprovido de "tomates" para temperar casos que envolvam autoridades ocidentais. Vamos ao debate. Até lá, falando a verdade mesmo, ainda era só isso. Obrigado
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Hoje "se dei encontro" com Bungo Dumbo Casseque no Lobito, daquelas amizades de confiar de olhos fechados e já em vias de extinção

O Bungo é realmente uma pessoa que a vida me veio a mostrar ter sido uma feliz escolha como amigo e merecedor de sonhos e projectos importantes que lhe confiei. Feliz noite

Diário | Mas isso segundo quem?

“Oi, mano, td em dia?”
“Desde qdo é q t dei confiança d se mandar essas msgns d se chamar mano?”
“Quê isso? Será q ainda não deste conta q sou eu com qm tás falar, né?”
“Já viste se pensam q sou da UNITA?! Mano, mano… Hum!”
“Tá bom, desculpa já, meu irmão…”
“Mas você tá maluco ou quê?! Irmão não é FNLA? Você cuidado com as msgns então, ouviste?”
“Mas o q é q te deu hoje, ó camarada? Tás estranho, pá. Muita frescura…”
“Mas alguma vez me viste no MPLA p me escrever de camarada?”
“Desisto. Assim não dá!”
“Você esqueceu q esses dias o país tá em campanha eleitoral?”
“Fico por aqui… Era p te saudar apn.”
“Saudar APN?! Quer dizer, eu aqui acordei calmo, vc a me provocar mesmo, né?!”
“Saudar apenas. Apn de apenas. Abreviei. Chato!”
“Ah, assim está bem. Não me faz te disparatar essa hora, ok?
“Posso saber se tás em casa?”
“Qual CASA mais, oh minha vida?! Queres mesmo me desgraçar do sonho com o futuro, né?”
“Como assim?! Não entendi…”
“Vc não deu conta que os dias de campanha recomendam usar camisinha nas palavras?”
“Qual é a tua alergia com os partidos afinal? Já ouvi mas não botei fé nela…”
“FNLA?! Mas, ó coiso, não me faças, ya?!”
“Fé nela quer dizer que não acreditei. Só isso, oh pai do pânico… Prrrs…”
“PRS?! Será que li mesmo bem, escreveste PRS?!”
“Eu disse porras…”
“Ah, pensei… mas é assim: Eu sonho concorrer nas autarquias um dia. Então agora assim se o povo vier a me desconfiar q não sou independente?…”
“Mas a autarquias é qdo?”
“Não sei, né? Mas não custa nada se cuidar… qm avisa amigo é. Td o que vc quiser falar, tens q atribuir a alguém. ‘Segundo o fulano’. Quando ouvires um mambo, procura já saber: segundo quem? Tá numa?”
“Ya. Valeu. Por isso é q te aprecio, pq aprende-se mto ctgo…”
“Aié?… Mas isso segundo quem?”
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa, Catumbela, 06 Julho 2017

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Crónica | O recado profundo de uma actriz em função da próxima telenovela da Semba Comunicação ou quando o próprio cabelo é um acto político

A Semba Comunicação promoveu recentemente, na capital do país, um encontro de auscultação de actores, tendo em vista um novo projecto de telenovela, cujas gravações arrancam no próximo mês de Setembro. Do encontro resultou uma reportagem promocional no programa Flash (disponível no youtube), também da produtora de audio-visuais que gere o Canal 2 da TPA.

Entre as sugestões dos entrevistados para o melhor esperado no próximo produto, ressalta uma aspiração que se reveste de reivindicação profunda, olhando para os problemas sócio-antropológicos que o país Angola ainda não conseguiu resolver, entre estes aquele que tem que ver com os padrões identitários e de beleza, considerando a diversidade étnica que constitui o seu mosaico da Cabinda ao Kunene, do Lobito ao Lwau. Transcrevemos a seguir o desejo de Sofia Buco, actriz e apresentadora angolana de TV:

“É esperar que eu consiga estar num dos personagens e poder representar com o meu cabelo natural, que está lindo, enorme, e poder mostrar que nós temos cabelos muito bonitos, que é lindo mostrar a nossa juba. Tenho muito essa expectativa e vou esperar, quem sabe… quem sabe…”

Chamam a atenção do telespectador dois aspectos. O primeiro é o da própria antítese ontológica, na medida em que fica a ideia de alguém que pede antecipadamente autorização para representar conforme as suas características naturais, num tom de quem, conseguindo isso, estaria a quebrar o que é "normal". O segundo aspecto está no facto de estar a usar tissagem (cabelos sintéticos) precisamente no momento da entrevista em que ela manifesta o desejo de representar com o seu cabelo natural. A pergunta de retórica é inevitável: estará a actriz Sofia Buco a ser obrigada a esconder a carapinha? Ouçamos de novo:

“É esperar que eu consiga estar num dos personagens e poder representar com o meu cabelo natural, que está lindo, enorme, e poder mostrar que nós temos cabelos muito bonitos, que é lindo mostrar a nossa juba. Tenho muito essa expectativa e vou esperar, quem sabe… quem sabe…”

As palavras da jovem actriz angolana carregam, se tivermos de estabelecer paralelismos com correntes activistas no Brasil, uma reivindicação política, onde as mulheres de carapinha se rebelam contra os padrões de estética que impõem perucas e postiços e desfriso.

Em países como a Namíbia e a África do Sul, é corrente ver executivos e executivas usando dreadlocks ou guedelhas, também conhecidas como rastas. Seria possível em Angola uma funcionária bancária, por exemplo, usar tal "penteado"? Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa, Benguela, 05 Julho 2017 | www.angodebates.blogspot.com

Humor | Uma garganta não governamental (*)

Chega o homem ao bar de costume e o garçom, armado em conselheiro, pergunta:
- O que você ganha bebendo tanto?
Ao que o cliente, sem pestanejar, responde:
- Nada, eu bebo sem fins lucrativos.
(*) Adaptação e título do blog www.angodebates.blogspot.com

Just a question | Uniforme militar demasiado justo no exército e na polícia, nova moda ou 'deixa andar'?

Recebi em tempos de um amigo nas redes sociais, que obviamente recebeu de outro amigo que repassou ao seu amigo, esta fotografia. À parte a indisfarçável malandrice de macho que motivou a "descoberta", no caso a imponente morfologia a Himalaia dos glúteos, a imagem é relevadora de algo sintomático no que concerne ao atavio das forças castrenses. E não é algo visto só em mulheres. Quando saímos para a rua, o que mais facilmente vemos é a imagem de agentes da polícia nacional cujas calças denunciam a intervenção de um alfaiate, de modo a se conformar com a moda das famosas yuki ou calças de pernas magras e algumas vezes de bainha que nem chega sequer ao nível do tornozelo. Quando o atavio do militar expõe a sensualidade, como atesta esta imagem, será que isso não terá impacto na autoridade que deve ter para com o cidadão comum? Estou mesmo a imaginar uma agente reguladora de trânsito que interpela algum automobilista e, no lugar de mostrar os documentos em papel, o automobilista levanta o documento situado entre o fim do tronco e o início das pernas. É que a sensualidade tem reacções e reacções... Estaremos perante uma moda da "nova Angola" ou apenas reflexo de algum deixa andar? Ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com

Diário | Pode adiantar o assunto?

(I)
“Amigo, despacha, senão nunca mais saímos daqui! Tranca logo o carro, vamos entrar...”
“Mas aqui é assim? Sinceramente!...”
“Anda, homem!”
“Calma aí. Só um instante, preciso, antes, de pigarrear. Porque você nunca sabe em quem vais tropeçar. Por isso é que não gosto muito desses lugares… Já imaginaste se me dá tossir a meio da conversa com um dignitário? Um gajo ainda belisca só a carreira da miúda...”
“Chega na fila, ocupa o teu lugar…”
“Mas nós também, sócio, vamos nos misturar com as pessoas?!”
“Então qual é o jeito?”
“Espera um pouco. Tem de haver um dos nossos…”

(II)
"Bom dia. Tudo bem?
"Bom dia. Tudo sim, obrigado. O senhor como vai?”
“Olha, eu gostaria de falar com o responsável…"
“Ah, neste momento o responsável não está.”
“E noutro momento poderá estar?”
“Isso já transcende a minha previsão, senhor… Pode adiantar o assunto?"
"Olha, eu sou o pai da fulana, figura pública, a cantora. Estás a ver quem é, né...?"
"Olhe, por acaso não estou a ver bem quem é. Mas é assim, como a fila está a andar bem, daqui a pouco o senhor vai ser atendido. Dá, né?…"

https://angodebates.blogspot.com  | Gociante Patissa 30 Maio 2013 – 05 Julho 2017