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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Crónica | Um simpósio sobre a zunga mais ou menos inclusivo

Sua excelência eu acaba de dar uma olhada ao programa do inovador primeiro simpósio nacional sobre a mulher zungueira, realizado em Luanda ontem, 14 de Maio, conforme reza o documento. Tudo muito a preceito, doutores e jornalistas e ministros, e tal e tal, é capim. Uns palestrantes, outros moderadores. Até já estou a ver gente a sair da sala engripada, tal é a confluência de perfumes e aromas e ambientadores de orçamento rebuscado. Porque não é para gente com fragrância assim da cantina do mamadou ou do asiático, não.

Até você se pergunta mesmo se um terço dos oradores alguma vez mercou algo na zunga, onde não há garantias de chamar o Inadec por qualquer motivo. Mas pronto, iria faltar um big brother para fazer fé à coisa. Se calhar, é melhor só não avaliarmos por excesso ninguém, não é? E cá está a verdadeira maka do exercício cá das conjecturas, não havendo até ao momento alguma linha na imprensa sobre o êxito ou não do certamente, que nos valha como ponto de partida. Ora pois, não podendo nós partir para a futurologia, uma vez que o evento já aconteceu, e não tendo sido inventado ainda o critério da passadologia, estamos de mãos atadas. Seja como for, o programa nos põe à vontade para reivindicar a ausência dos actores. Pelo menos parte relevante deles.

Primeiro, lê-se que a intervenção daquela que seria o motivo está acondicionada no genérico "Voz da Zungueira - Testemunhos. Preocupações", dando assim uma ideia de papel passivo. Alguma vez um doutor levou bofetada do fiscal, andou com criança febril às costas ao sol e chuva, ou sabe a dor muscular de desfilar com uma ventoinha a tiracolo e não aparecer cliente? Ah, era preciso estudo? Não seja por isso, excelências. Mas então e a escola da vida?!

Ainda há dias circulou nas redes sociais um vídeo muito revelador de uma compatriota que quase parava o bairro, sem precisar de microfone nem de orçamento para o coffee-break nem ar condicionado, como seria de esperar numa palestra macro (teve de ir a imprensa atrás da senhora para se aproveitar da audiência). Parar um bairro por conta de um pregão é proeza que nem os best sellers conseguem sem a máquina da propaganda e marketing.

A senhora chegava, poisava a bacia de peixe fresco e puxava dos pulmões o seu pregão prolixo, mas de uma cadência melódica a dar para a missa: homem kunanga é corno! Essa não merecia o palanque para uma prelecção também, ainda que de 15 minutos? Não há sabedoria popular a ser passada para a classe académica? Olhe, que a coisa não termina por aí.

Em segundo lugar, o reverso da moeda. É que tratar do assunto zungueira sem incluir o seu "carrasco" de estimação, os fiscais das administrações municipais, que ocupam maior espaço nos pensamentos e sonhos das zungueiras do que os maridos e amantes destas, por todos os motivos óbvios, é como assistir a uma partida de futebol que termina nos primeiros 45 minutos, pelo que teríamos um simpósio mais ou menos inclusivo.

Porque até como forma de homenagear o saudável lado fundista do ofício, não seria demais sondar a "Voz do Fiscal - Testemunhos. Preocupações", ou do libanês ou do maliano, ou do marido que espera a esposa em casa para lhe patrocinar do vício do copo e à madrugada calibrar o ventre dela com mais um filho para vir a ser sustentado unilateralmente pelos rendimentos da zunga. Afinal, estamos na era da participação de todos os actores, ou não é isso?

Aos organizadores, fica o nosso encorajamento, afinal o assunto é transversal e querendo ou não, como diria alguém, cada um de nós tem um zungueiro ou uma zungueira na família. Há que estender a reflexão para fora de Luanda, pelo que qualquer pedrada à vossa árvore, já sabem, é derivada dos frutos que carrega. Ainda era só isso. Obrigado. 
Gociante Patissa, Benguela, 15 Maio 2017

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