PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 9 de março de 2017

Crónica | Não gosto de eleições

E chega aquela fase de usar camisinha nas palavras. Já vamos na quarta. Assim manda a democracia, sistema de governo que, entre nós, tende a captar holofotes pela tendência de se embrutecer na sua faceta dos ciclos eleitorais, pondo em risco importantes conquistas da coabitação e do próprio exercício da cidadania.

Tenho dois blogs, incluindo o satélite e o mais interactivo de todos os canais, o facebook. Chateia-me essa coisa de pensar várias vezes na hora de compor uma frase, pois sou dos que abominam aproveitamentos partidários. É ingénuo, bem sei, ninguém tem poder sobre a interpretação do que torna público. Resta-nos o conforto de caminhar pelos limites da lei e da ética. E não obstante o paradigma capitalista do ou ganhas ou perdes, opinar é já um risco que temos de assumir por imperativos de consciência, se quisermos não deixar de acreditar na meta de uma sociedade plural.

Por isso é que, podendo parecer paradoxal, devo dizer honestamente que não gosto de eleições. Nasci e fui gerado num contexto socialista/comunista, mas não tem nada a ver com isso. Não é que me oponha à essência da democracia, que entrou na minha vida aos 14 anos. Submeter ao crivo do voto popular a escolha de quem melhor está para nos governar, ora, isso é das coisas mais louváveis que há na nossa história. Mas e a paz?

Guardo memória da riqueza inspiradora da parte suburbana sul do bairro Santa Cruz, no Lobito, que reunia comunidades oriundas do Bié, Huambo, Moxico, Balombo, e do Bocoio, num arco-íris tradicional invejável. Na era das radionovelas, pouco menos de meia dúzia de residências possuindo televisores, as noites estendiam-se ao sabor da cana-de-açúcar que já chegava cascada por heróis que a iam furtar aos talhões da açucareira. Havia ainda um dueto de trovadores que andavam de casa em casa e recebiam alguma recompensa simbólica. Todo o mundo era tio e sobrinho por afinidade.

Depois veio 1992 dar cabo de tudo. O tio trovador mais carismático, atolado em dívidas contraídas enquanto técnico de relógios, refugiou-se na militância radical da UNITA (à época braço armado de guerrilha). Recordo a intriga dele contra o meu pai (administrador comunal da Kalahanga), a quem sempre tratou por mano, agora inimigo. Tendo vendido um ano antes um estetoscópio a 20 mil kwanzas, era vê-lo fazer-se de vítima e a exigir o triplo do valor. Porquê? Porque a nossa casa servia de bastião de propaganda do MPLA, que íamos buscar ao comité municipal na Restinga. Almas passaram a ser nada mais do que alvos a abater.

Francamente não gosto eu é do pico do processo que leva às urnas, em função da agitação social, nem sempre saudável e de sequelas indeléveis. Se em política tudo (parece que) vale, sou entretanto adepto de que qualquer que seja o sistema vale muito mais pelo quanto aproxima do que divide famílias. Faltam cinco meses até Agosto, mas já sobe de tom o crónico espectro da confrontação de massas (iletradas e manipuláveis), transformando-se em besta a festa da campanha eleitoral. No final do dia era suposto tornarmos às nossas casas em paz. Adversários, mas juntos por um ideário maior: Angola.

Morreram angolanos no processo eleitoral de 1992. Em 2008 idem. Em 2012 nem por isso menos. Há-de-ser melhor neste 2017? O que sempre digo e peço encarecidamente no seio da minha família (alargada) é que não deixemos as escolhas (partidárias, profissionais ou religiosas) nos separarem! Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa. Benguela, 09 Março 2017

Sem comentários: