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domingo, 4 de dezembro de 2016

(arquivo) Crónica | O empresário e a visita do governante

Não é para já dos temas que me excitem o gosto. Governante versus empresário? Não é mesmo! É por demais ténue a linha que divide os conceitos no hodierno mwangolê. Um significa outro, outro significa  um. Há por acaso como diferenciar sinónimos?

Permito-me, ainda assim, enfim, partilhar um insólito relato. É desculpar só mais uma (indispensável) divagação. Governar a província de Benguela é um desafio espinhoso, em se tratando da segunda capital de facto do país. Nomes e mandatos houve que só de lembrar não são de favorecer a saúde mental. No entanto, pelo palácio da praia morena passaram alguns de quem as pessoas não se esquecem, uns pelo humanismo, outros pela brutalidade, havendo também quem tenha sabido combinar ambos num só consulado.

Continuando. Há algumas décadas já, certo governante recebeu em audiência um empresário. Presume-se que tenha decorrido sob a feliz dosagem entre o feitio rústico do poderoso (um) e a energia atlética do poderoso (outro), acabando tudo em grande com a marcação de uma data de visita às instalações fabris do empresário a convite deste. “Teremos muito gosto em recebê-lo, camarada excelência”, teria reforçado.

E cedo se fez o dia da visita. O camarada excelência lá todo ele ouvidos e perguntas pontuais, aparentemente a entender o funcionamento das máquinas, num relato recheado de toda a deferência feita pelo próprio empresário. O governante só a observar, de vez em quando depositando um elogio ao empreendedorismo do conterrâneo (o que, sendo ou não sincero, não é pecado, digamos).

No final da jornada, sua excelência o governante é surpreendido com (permitam-me especular) a mais cara mobília na montra. “É uma oferta nossa, camarada excelência, pelo seu esforço”. E o governante, sabe-se lá porquê, agradeceu a oferta com uma cara… só assim. E lá o empresário a se perguntar silenciosamente o que se passava na cabeça do governante que não mandava já chamar um camião para transportar.

Eis que, surpreendentemente, o governante mandou chamar o trabalhador mais antigo daquela fábrica e lhe ofereceu a mobília mais cara que havia na montra, ironicamente oferta do patrão. “Em meu nome, leva esta mobília. É tua, por todo o suor dedicado ao crescimento desta unidade de produção. Bem mereces”, teria sentenciado o visitante. E lá o funcionário agradeceu e assenhorou-se da inusitada oferta. Neste casos, o que dizer do gesto do governante?

Enfim, se vos conto isso, a culpa é dos colegas que um dia decidiram ocupar a borla nas aulas contando cenas dos bastidores da província de Benguela. Qualquer coisa, já sabem: não estive lá. Abraços!

Gociante Patissa, Benguela 11 Nvembro de 2009 (atualizada a 04 Dezembro 2016)
www.angodebates.blogspot.com

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