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domingo, 3 de julho de 2016

Rubrica Victor Manuel Patissa 70 anos | HOMENAGEM (parte5): HENRIQUE AVINDO MANUEL: O IRMÃO INCONTORNÁVEL NA VIVÊNCIA DE ViMaPa, A CRIATIVIDADE QUE QUASE CUSTOU A VIDA DA FAMÍLIA E… A BURLA ABORTADA

Henrique Avindo Manuel
(1970-1996)
Já denunciei em tempos a trapaça ao telefone urdida por uma alegada herdeira de Henrique Avindo Manuel (HAM), o irmão de ViMaPa que faleceu em 1996, aos 26 anos, por doença. Sobre a trapaça já falo lá mais adiante. Vale por agora sublinhar que o suporte desta homenagem ViMaPa 70 anos fica a dever à memória fotográfica (álbum legado por HAM) de descendentes de Mariano Patissa.

Fruto do segundo casamento do catequista Manuel Patissa, então viúvo e ex-preso político de São Nicolau (hoje Bentiaba), HAM viveu na Ganda até atingir a idade das rusgas para o serviço militar obrigatório. Numa espécie de justiça por pernas próprias, no princípio tácito de que quem tivesse irmãos na frente de combate seria isento, fugiu ele para o litoral, tendo passado uns anos no bairro da Kamaniña, cidade de Benguela. Pouco depois, viria a ser acolhido no Lobito pelo irmão Victor Manuel Patissa, então Administrador Comunal da Kalahanga, à pala de quem escaparia ao serviço militar directamente, bastando estar alistado entre os guarda-costas com guia de marcha e tudo.

HAM tinha notáveis talentos, com realce para o futebol, todavia inibido pelos princípios conservadores da IESA (Igreja Evangélica do Sudoeste – hoje Sinodal – de Angola), além de karateca, exímio guitarrista, cantor e compositor evangélico com temas enviados à Direcção em Kalukembe (por suas mãos passaram aprendizes que deram corpo ao coral adventista de Santa Cruz, no Lobito). Em artes plásticas, HAM fazia gravuras sobre lajes de 20x30cm por ele confeccionadas. Safava-se como carpinteiro, profissão do pai, e construía bem casas de adobes. Enquanto formando da Escola Básica de Formação Docente, dirigida à época por Lino Passassi, a nota mais baixa era a de 14 valores. Como não há bela sem senão, o jovem tinha fobia à electridade, concretamente o choque.
 
Uma de suas criatividades por um triz não nos custou a vida durante os confrontos pós-eleitorais (1993), por quanto a nossa casa, já hostilizada durante a campanha, localizava-se na periferia sitiada pelas forças militares da Unita. Tudo iniciou quando, tocado pelas mensagens patrióticas do programa radiofónico «Angola Combatente», HAM escreveu uma carta pujante contra Savimbi e seus apaniguados e depositou-a no comité municipal do partido, à Restinga. O camarada Silva, da Propaganda, gostou tanto que fez questão de localizar o autor e cimentar bases. Não fazia ideia de ser irmão de um membro do governo, uma vez que HAM não levava o sobrenome Patissa.

Estou recordado da agitação que foi a recepção ao camarada Silva. Agitação porque o feijão, a única coisa que havia para comer com funji naquele domingo, afinal não estava em condições, tinha uma espécie de gorgulhos. Era preciso coar, já pouco tempo faltava para a chegada do Chefe da Propaganda do Comité. Foi assim que, na ausência de um comité bem organizado no bairro Santa Cruz, adstrito à zona4 do São João, o nosso lar serviu de logística durante o ano todo na campanha eleitoral de 1992. A consequência era levar pedradas no tecto vindas da vizinhança, tal era a imaturidade conjuntural.

Na volatilidade dos discursos que chegavam da Capital sobre a rejeição dos resultados eleitorais, um dos vizinhos militantes da Unita teve a nobreza de alertar ViMaPa sobre possível atentado na forja, pelo que lhe salvou a vida o “exílio” de alguns meses no bairro São Pedro, por detrás do Hospital da Katombela. O fomentador era outro vizinho que se metera na intolerância como forma de não honrar as dívidas, que não eram poucas.

Eclodida a guerra, a cidade do Lobito acabou fracturada, ficando o centro urbano sob controlo do governo (apoiado por populares armados) e a periferia em mãos rebeldes. Sem ter o que comer nem acesso à vala da açucareira, restava acompanhar pela rádio as orientações de segurança e anúncios de tentativas de negociação.

Henrique Avindo Manuel, Amós Chitungo
Gociante Patissa e Daniel Gociante Patissa
o segundo e o sexto filhos de Victor Manuel
Patissa (1946-2001), respectivamente
 
E calha que estando reunidos em casa num destes dias, um homem (sabe-se lá com que coragem) desafiou as fronteiras e caminhou da cidade para a periferia, passando pelo Bairro da Luz, escapando às bombas de pesada artilharia. Jogava contra si o azul do fato jeans que se confundia com as cores da farda policial. De repente vimos a nossa zona cercada com homens armados com AKM, morteiros e machados. Provavelmente nada de mal lhe aconteceu, mas não ganhamos para o susto a ver aqueles verdugos passarem vagarosamente e com olhar perscrutante sobre a nossa casa, a do inimigo afinal. Mas por fim falou mais alto a nobreza humana, gesto que ViMaPa veio a retribuir, depois de escorraçada a Unita, ao recusar-se a colaborar na indicação de alvos de caça-ao-homem.

Nota: O relato desta vivência não pretende ressuscitar fantasmas nem qualquer outro fim que não seja o aporte histórico na homenagem à memória de Victor Manuel Patissa. Agora reproduzo a trapaça da falsa herdeira:

"Aló."
"Sim, boa tarde."
"Boa tarde. É o senhor Gociante Patissa?"
"Sim. Quem fala?"
"Aqui é a fulana [pela voz, tinha menos de 30 anos]. Estou a ligar porque o meu professor me disse que há um Patissa e como o meu nome é também Patissa, estou a ligar. Quando é que podemos nos encontrar?"
"Seria para...?"
"Porque eu sou órfã de pai, não conheci a família do meu pai..."
"O seu pai era natural de onde?"
"Espera ainda... Bem, não sei bem. Parece que..."
"Quem lhe deu o meu número de telefone?"
"Ah, bem, ainda quem foi?..."
"Como se chama este teu professor que diz que me conhece?"
"O nome dele me passa na mente."
"O meu lado paterno é dessas aldeias do Cindumbu, Monte-Belo. O lado materno é da Ganda. Neste caso, o teu falecido pai de onde era?"
"Acho que é mesmo do Monte Belo."
"E como é que se chamava?"
"Acho que era Henrique Patissa."
"Olha, por acaso houve um Henrique, falecido em 1996 [aos 26 anos] e nunca sequer foi ao Monte Belo. Não tinha como ir, por causa da guerra. É uma pena porque nenhum dos irmãos do meu pai leva o nome Patissa, que foi o meu bisavô, oriundo do Bié. Todos eles, até o Henrique, se fosse o caso, seria Manuel. O único Patissa foi o Victor, meu pai, que fez questão de incluir o nome no novo registo. Daí que outros primos-irmãos tenham apenas o sobrenome Manuel. Agora se me dá licença, tenho mais que fazer!"

No final do dia, contei o inóspito diálogo à minha irmã mais próxima. Matámo-nos a rir, inclusivamente com alguma suspeita de quem teria municiado (sem competência) a miúda, um parente distante com leve conhecimento da nossa história familiar.
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HISTÓRICO

Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja.

Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

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