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sábado, 9 de julho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (7): FERNANDO MANUEL, O IRMÃO SUPER-PROTECTOR - «PRIMEIRO A FAMÍLIA, DEPOIS A RAZÃO»

Fernando Manuel (1948-2015) durante as 
obras de construção dos jazigos na aldeia do 
Cindumbu, Monte Belo, Bocoio, onde repousam
 os irmãos Victor Manuel Patissa, Adelina Mbali 
Tulituke Manuel e o patriarca Victor Manuel 
Patissa em 2015.
Sempre que o adolescente se metesse em sarilhos, não sendo ele por aí bom de luta corpo a corpo, fazia tudo para correr até perto do irmão mais novo. Depois disso, era só esconder-se dentro de casa, que o irmão assumia imediatamente a confusão, com recurso à ameaça com o canhangulo do pai. Não é que não soubesse da função justiceira do castigo físico, do tipo quem provoca apanha, não. Isto só valia enquanto não se aplicasse aos seus. «Vão bater o Victor porquê? Vocês é que lhe pariram?!» Nunca perguntava «que mal é que ele cometeu desta vez?» Primeiro vinha a família, só depois a razão.

Qualquer homenagem à memória de Victor Manuel Patissa (1946-2001) seria incompleta se não incluísse o seu irmão Fernando Manuel (1948-2015). Desde logo na infância e adolescência, FM podia muito bem ser caracterizado como contracorrente, sendo a primeira destas correntes contrariadas o senso comum. Ora, há uma crença generalizada na cultura Umbundu segundo a qual os irmãos que se seguem (cronologia de nascimento) têem uma relação tendencialmente de rivalidade. Acontecia precisamente o contrário entre Victor e Fernando, com o primeiro (dois anos mais velho) a buscar socorro no segundo vezes sem conta.

Tinham entretanto uma diferença enorme de personalidade. FM tendia para o anti-social. Ele não saía de casa para brincar. Quem quisesse brincar que fosse ter com ele. Só que enquanto brincavam, já um monte de pedras estava de sobreaviso para quando as coisas corressem mal e o uso da violência necessário fosse. Ou seja, brincamos mas sob as regras do meu território. Já o Victor era mais sociável, carismático, engatatão e… trocista. Tinha a seu favor a extensão limitada das aldeias (aqui não estou certo se ainda em Cindyandya, onde nasceram, ou Cindumbu, onde se desenvolveriam e lugar adotado para o fim de suas vidas, ambas da comuna do Monte Belo, município do Bocoio), pois sempre conseguia correr para as “axilas” do irmão e sair impune.

Nesta foto de 4 de Maio de 1982, 
da esquerda para a direita, 
Fernando Manuel e o seu filho 
Malaquias Fernando (6 anos), bem 
como o casal Víctor manuel Patissa 
e Emiliana Chitumba Gociante mais
 os filhos Rosa Ngueve Gociante 
Patissa (6 anos) e Daniel Gociante 
Patissa (3 anos)
FM foi dos filhos de Manuel Patissa a mais directa vítima da “Operação Ovisonde”. Tinha ele pouco mais de doze anos quando se dá a prisão do pai em 1961, acusado pelo regime colonial português de terrorista que usava o altar da sinagoga para fomentar a revolução, na sequência dos ataques no norte de Angola. Durante os cinco anos de cadeia do pai em São Nicolau de Moçâmedes (actual Bentiaba, Namibe), Fernando é retirado da escola pelos tios, para quem o estudo só trazia desgraças. “Se a pessoa que madrugou ainda não voltou, é prudente seguir outra pelo mesmo caminho?”, socorriam-se aqueles da parábola, já que o preso não tinha outra arma senão saber ler e escrever. Em consequência, FM nunca mais conseguiu estudar mas nem por isso deixou de aprender a ler e escrever e desenvolver a profissão de alfaiate.

Fernando Manuel, que também chegou a ir trabalhar como contratado nas minas de ouro de Transvaal, África do Sul, gabava-se, e provas disso não foram poucas, de ser o mais pujante da família. “Aquilo [peso] que eu desconseguir levantar, na família que ninguém mais experimente.” Como é natural, não faltam nas relações momentos menos bons, os quais para já são irrelevantes, até se comparados aos mais conseguidos.

Em nós, filhos de ViMaPa, fica marcada a gratidão pelo mais elevado gesto protector de Fernando Manuel ao idealizar, conduzir legal e logisticamente a última viagem do seu irmão, da sua irmã Adelina Mbali Tulituke Manuel e do patriarca Manuel Patissa ao jazigo na Aldeia de Cindumbu, passando pela exumação dos cemitérios em que haviam sido originalmente enterrados no litoral de Benguela. FM chegou a ser censurado pela direção da Igreja Evangélica Sinodal de Angola (uma vez mais a conservadora IESA), que considerava ritual mundano a transladação de ossos. Se tiverem de me suspender, estão à vontade, teria dito, “o que eu sei é que os hebreus andaram mais de 400 anos com as ossadas dos seus entes até que as condições permitiram o repouso final.”
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com
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HISTÓRICO
Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja.

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