PONTOS DE VENDA

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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (10): A MOTO SIMSON QUE SE MOVIA A FARDAMENTO

Há uma febre que se instala a partir da paz de 1991, o advento da democracia e da liberdade de mercado. Esta febre chama-se caçar riqueza. Assim é que muita gente não perde a oportunidade de embarcar em negócios escusos de promessas fabulosas de lucros, o que passava pelo sector do minério, da joalharia, da botânica e afins. Era ver a loucura com que se caçavam camalhões, alegadamente por a natureza lhes agraciar com propriedades milagrosas, já para não falar da danificação de condutas eléctricas de alta tensão… atrás do bronze. E o mercúrio branco ou vermelho que nunca ninguém na verdade viu… muitos destes negócios terminavam num mesmo fim: a burla, a perda do já tão pouco,.

Para ser franco, nunca notei em Victor Manuel Patissa “ViMaPa” (1946-2001) grande entusiasmo para este lado. O garimpo dele era de outra natureza, conforme já antes referido. O que ele gostava mesmo era de angariar beldades. Pois era. Aqueles que com ele privaram e/ou o conheceram, seguramente retêm a memória do perfil poligâmico. Uma homenagem que omitisse esta página seria não só desonesta, mas também injusta para com os “derivados” do homem, embora discutir o mérito da poligamia passe ao lado do escopo do texto.

Como também já referimos, Situada a sudoeste da província de Benguela, Kalahanga dista 113 Km da sede da Baía Farta. Em 1991, aquando da reposição da administração do Estado, fruto dos acordos de Bicesse entre o governo e a Unita, havia pouco menos de 500 habitantes. A sua população é de matriz Vátwa (pré Bantu), dividida entre Va Kwisi e Va Kwandu, cuja vivência se resumia à caça (com armas de guerra), à recolecção de frutos e à pastorícia. Nesta época, para além do carvão, lenha e múcua, o potencial comercial incluía o tráfico de marfim, de peles de zebra e carne seca, permutados com bens alimentares, agasalhos e aguardente.

É neste quadro que surge um jovem comerciante a transbordar de charme e conforto financeiro, a julgar pela motorizada de fabrico alemão “Simson Enduro 51”, nova em folha. Caçava marfim, um tipo de negócio que exige tacto, confiança e paciência. O jovem era tudo menos discreto. Vai daí que resolve conquistar uma jovem funcionária auxiliar da Administração Comunal. Só que ela tinha sido já angariada nas hostes poligâmicas do chefe, que fizera questão de pagar o dote à família e tudo. Foi-lhe dito isto mesmo, mas o comerciante insistia nas investidas, que logo chegaram ao conhecimento de ViMaPa

Capturado pela guarda e retido na improvisada cela da unidade adstrita ao palácio por “traição comunal tentada”, o comerciante teve estaleca para arrombar o gradeamento e evadir-se para Bolonguera, o destino mais próximo, entre Catengue e Chongorói. Não sendo burro nenhum, levou consigo os documentos da Simson. Mas passados poucos meses sem sinal do foragido, ViMaPa entende carregar motorizada num camião carvoeiro com destino à sua residência no Lobito, onde de meios rolantes só havia uma Yamaha 50 (décima mão) e a bicicleta bugatti. Engraçada foi a alternativa para contornar a falta de documentos. Andava sempre fardado e de arma Akm atravessada ao peito. Desta forma, a polícia civil não o podia mandar parar (uma vez fardado) nem a polícia militar (tratando-se de motorizada civil).

Só talvez um ano mais tarde, o foragido finalmente conseguiria reunir forças para reaver o que era seu, no que usou a influência de um alto oficial da polícia no Lobito. Este visitou ViMaPa num belo dia em casa, tendo acabado tudo em bons copitos de Whiskey e altas gargalhadas.

Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

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HISTÓRICO
Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja.

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