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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (9): A IMPROVÁVEL EMBOSCADA FATAL E A GÉNESE DO DESERTO

Tinha um hábito pouco elegante para um citadino, aquilo de dormir às 19h00, despertar antes da meia-noite e morcegar o resto da noite escrevendo. Nem a tempo de acompanhar o telejornal ia. A explicação era simples: a cobra mata-se pela cabeça. Ora, como chefe de governo em zonas de fácil ataque pelo exército rebelde, dormir de noite era quase lesa-pátria. Se capturado, Victor Manuel Patissa “ViMaPa” (1946-2001, o terceiro militar na foto a contar da esquerda) seria uma enorme victória na propaganda do inimigo. Vivia-se à risca a emanação superior “Vigilância, camaradas!”

Num dia semelhante a outros, tal como tinha ficado combinado, batia-lhe à porta o motorista do camião carvoeiro antes das cinco da manhã. Satisfeito pela disciplinar pontualidade, ViMaPa (viajante de borla e ainda assim de chefe demissão) assegurava: “a partirmos a esta hora, o almoço hoje é lá.” E assim partia o camião para a comuna da Kalahanga com mais uns três ajudantes de carga na carroçaria. Faziam companhia ao motorista o chefe e o guarda-costas. Não se ia à Kalahanga sem guias de marcha, por sua vez dactilografadas na residência fixa do Camarada Administrador Comunal, no Lobito. Daí que os comerciantes acabassem por suprir a inexistência de meios rolantes protocolares (excepto um tractor podre de velho).

Situada a sudoeste da província de Benguela, Kalahanga dista 113 Km da sede da Baía Farta. Em 1991, quando se dá a reposição da administração do Estado, fruto dos acordos de Bicesse entre o governo e a Unita, tinha pouco menos de 500 habitantes. A sua população é de matriz Vátwa (pré Bantu), dividida entre Va Kwisi e Va Kwandu, cuja vivência se resumia à caça (com armas de guerra), à recolecção de frutos e à pastorícia. Nesta época, para além do carvão, lenha e múcua, o potencial comercial incluía o tráfico de marfim, de peles de zebra e carne seca, permutados com bens alimentares, agasalhos e aguardente.

Conversa-se de tudo para enganar as horas na tortuosa viagem, não faltando na mochila do tropa bolachas e conservas de peixe ou leite condensado. A faltarem talvez uns 20 Km, mata adentro, só se ouvindo o chiar dos pássaros ou o uivar de hienas, avistam-se homens a pedir socorro. Empunham bidons plásticos. Depreende-se que tenham algures o camião avariado e grande é o risco de morrerem desidratados em mata desértica. O passo a seguir é óbvio: parar e prestar a assistência possível, do logístico ao mecânico, pois quem conhece a história das ligações por estrada sabe que nada vale mais do que a solidariedade. Não podiam estar mais engados!

Bala na câmara. Ninguém se mexe! O ambiente é tenebroso. Seriam guerrilheiros da Unita, mesmo havendo a barreira do “Batalhão Queima Casaco” na Bolonguera, do comandante Mateus, primo do próprio ViMaPa? O saque é voraz em segundos. Mas a fúria sobe de tom quando os meliantes acham a arma Akm que andava escondida debaixo do assento na cabine. Comprovada a inocência do motorista, o camião é mandado seguir. ViMaPa e o respectivo guarda-costas são rendidos aos empurrões. O motorista consegue divisar no retrovisor dois corpos caindo na sequência de disparos à queima-roupa. Acelerador ao fundo, chega horas depois à sede da comuna e anuncia a emboscada e o fuzilamento do chefe.

Mobiliza-se o comando para a varredura de resgate do chefe, ou o que restasse dele, antes que as hienas, leões e outros carnívoros chegassem primeiro. O final é menos trágico, estavam ViMaPa e o guarda-costas ilesos. Os ladrões de gado ficaram-se pelo saque e susto às vítimas. Inevitável é a fama de “anti-bala”. O facto mesmo é que seriam vítimas da imprudência, quando o ditado Umbundu já aconselha: “Okalwi watomba oko kakwambata” (o rio que subestimares é que te arrasta). Tal como na Chila, o mandato da Kalahanga conheceria ordem de recuo face à desproporção bélica diante das forças inimigas.

ViMaPa passa temporariamente a trabalhar no Dombe-Grande, até ser nomeado para a Secção dos Assuntos Comunitários na Baía Farta, o que para ele era um presente envenenado, ainda mais vindo de um Sipapala que já fora Comissário Municipal do Bocoio e como tal conhecia a trajectória e perfil de ViMaPa. Começa ali a semente do deserto com o Administrador Municipal, afrontado pela recusa do cargo e consequente revolta passiva do subordinado. Alegando doença e penhora por dívida de tratamento tradicional, impossível de pagar com a ninharia que recebia de vencimento, ViMaPa passaria cerca de cinco anos sem pisar no serviço. “Não estudei nem dei a vida pela pátria para ser mandado apanhar cães vadios”. Neste período, aposta numa fazenda de duas mil plantas ananás no Monte Belo, acreditando que a paz seria “irreversível”. Em vão. E tudo a guerra levou.

Sendo certo que a administração do Estado é um dever que se sobrepõe aos sacrifícios individuais, gostaria um dia de perceber os critérios de colocação. Não deixa de despertar curiosidade o facto de ao militante ViMaPa ter calhado na rifa três comunas recônditas: a Chila (município do Bocoio entre 1981-1985), a Equimina (1986-1990) e a Kalahanga 1990-1993 (município da Baía Farta), que tinham em comum a vulnerabilidade aos ataques de guerrilha, com uma Chila na 7.ª Região Militar do inimigo. Seria interessante que daqui a umas décadas, já com novas gerações nos aparelhos decisivos (dos movimentos de libertação de ontem), fossem dipostos contributos documentais de modo a melhor perceber, recordar e até cantar a história do partido e do país numa escala que inclua notas menores.

Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com
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HISTÓRICO

Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja.

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