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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (8): A VIDA MARCADA PELA POLIGAMIA, OS NEGÓCIOS QUE NÃO ANDARAM E A BURLA DO CAMARADA MOHA

ViMaPa (1946-2001)
No princípio tratávamos as outras esposas do pai por “tias”, até que fomos apanhados na teia de uma indagação de retórica (e passiva agressiva de tom): se vocês lhes chamam de “tias”, significa que os filhos que eu tiver com elas são vossos primos?

Aqueles que com ele privaram e/ou o conheceram, seguramente retêm a memória do perfil poligâmico de Victor Manuel Patissa (Julho 1946-Julho 2001). Uma homenagem que omitisse esta página seria não só desonesta, mas também injusta para com os “derivados” do homem, embora discutir o mérito da poligamia passe ao lado do escopo do texto. A poligamia, entre os africanos Bantu um direito respaldado, moralmente está condicionada à capacidade de sustentar o agregado. E é com base na última premissa que olharemos para as implicações na vida de ViMaPa, enquanto um desafio premente para quem deve prover (à parte o afecto) a logística e a escolaridade de mais de 15 filhos e três lares.

Com a viragem do país para o multipartidarismo, fruto dos acordos de Bicesse (1991) entre o governo de Angola e o então exército rebelde da Unita, Victor Manuel Patissa aposta no cultivo do abacaxi na comuna do Monte Belo, município do Bocoio, onde mobiliza uma plantação de mais de dois mil pés. Urgia empreender para contornar os efeitos do desmame do estado providência (em vista o capitalismo selvagem). O investimento foi para o ralo em consequência do fracasso eleitoral de 1992 e o retorno à guerra civil e corte das vias de circulação para o interior. Como se já fosse pouco, a economia do país colapsa depois de um desenfreado saque a tudo quanto fosse empresa.

Antigo palácio e Administração Comunal da Kalahanga
Era a segunda tentativa fracassada, depois da Pescaria Nova, na comuna da Equimina (finais da década de 1980), quando os dirigentes estavam impedidos de possuir bens económicos. Tal veto era facilmente contornável, bastando registar a empresa em nome de um primo, quando muito. A Pescaria Nova tinha mais nome do que capital. Duas canoas, três casebres de pau a pique e uma meia dúzia de homens e mulheres chefiados por Matemba, o mestre que ousava mandar e lucrar mais do que o dono, representado pelo primogénito e um primo. “Na capoeira só canta um galo”, esclarecia o mestre Matemba.

Não foram só desgraças. A década de 1990 registou na história mais alargada dos Patissa um capítulo importantíssimo: finalmente o velho Manuel Patissa recebia o reconhecimento formal e passava a beneficiar de uma pensão de antigo combatente (pelos cinco anos de cadeia política em 1961 nas mãos da PIDE, arrolado na “Operação Ovisonde”, que mandou missionários à cadeia de São Nicolau, Moçâmedes). A generosa pensão ia acima de 400 dólares mensais (salário de cinco professores do nível médio)… só pecou por chegar tarde, numa altura em que já poucas ambições o octogenário tinha, onde a acumulação do dinheiro representa mais um desconforto do que fonte de sossego.

Foto de autor desconhecido, usada para ilustração
O processo de inscrição foi muito discreto, pelo que arriscaria em dizer que não beneficiou a todos os confrades do mais velho Manuel Patissa (falecido em 2008). O seu êxito ficou-se a dever ao prestimoso papel do camarada “Moha” (o resto do nome propositadamente ocultado), que se comoveu com a história do pai do camarada ViMaPa, ex-colega na Escola Provincial do Partido (Mpla) entre 1986-1991, que tinha equivalência curricular de 3.º nível (entrava-se com a 6.ª classe e saía-se com a 8.ª).

A opinião do camarada Moha passou a contar muito em ViMaPa, de modo que foi com renovado entusiasmo que, anos mais tarde, veio do influente benfeitor a informação de um plano em marcha para financiar viaturas tendentes a minimizar a carência de antigos governantes. Fazia-se acompanhar de facturas (pró-forma) emitidas em nome “Victor Manuel Patissa/Comité Provincial do Partido” e o catálogo das referidas carrinhas. ViMaPa não cabia em si – e com razão. O único meio rolante a que teve acesso alguma vez foi um tractor velhinho de carroça, ao serviço protocolar da Administração Comunal da Kalahanga. Foi-se ao exagero de já mobilizar o motorista. Dado que nessa fase (1998) o seu salário mal chegava para comprar uma bicicleta, fui mobilizado a emprestar cerca de USD 250 (dois salários meus na Sonamet) para o custo da papelada.

Como mais fácil se apanha um mentiroso do que um coxo, veio-se a descobrir que fora tudo inventado pelo camarada Moha para sacar uns trocos ao seu companheiro. Seria retaliação por não lhe ter sido dada gratificação monetária da pensão de antigo combatente? Restou-me fazer uma série de romarias para reaver os USD 250, com alguma briga à mistura. A restituição contou com o empenho das filhas do camarada Moha, envergonhadas e revoltadas pelo comportamento burlesco do pai.

Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com
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HISTÓRICO
Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja.

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