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terça-feira, 21 de junho de 2016

Rubrica Victor Manuel Patissa 70 anos | HOMENAGEM (parte4): PATISA, O SOBRENOME DE ORIGEM MISTERIOSA, AS RASURAS E O NACIONALISMO ANGOLANO


Há algumas dúvidas e mistérios à volta da raiz paterna da família Patissa. Em meados do século 19 aportou um homem chamado Patisa Mariano na região do Bocoio, aldeias de Cindyanda ou Kanyãlã, leste da Comuna do Monte Belo. Migrara de Mukinda, terriola do nordeste do Kuito, província do Bié (Silva Porto de então) e nunca mais regressou nem se lhe conhecem parentes ou ascendentes, o que é estranho, partindo do princípio que o africano Bantu tem a identidade arraigada no solo. A este respeito, é pertinente chamar à conversa um trecho do cancioneiro Umbundu: «A malanga / cina walile/ petula kopeto weh/ sokolola kuna watunda/» (ó palanca / depois de te saciares / levanta os chifres / lembra-te de onde vieste). A integração com os povos do litoral sul, designados por «vambwelo» viria a efectivar-se ao desposar a jovem Cilombo Malinyã, em consequência do falecimento da esposa que trouxera de Mukinda. Ainda assim, Patisa não escapou à alcunha “Maliyanu Ukwamãnyã” (Mariano o rabugento). Não havendo relatos de comportamentos socialmente reprováveis da sua parte, presume-se que a alcunha resultou de algum choque cultural dada a entoação algo imponente da variante biena da língua Umbundu (acima do diapasão musical e reticente dos Vambwelo). Da aliança com Cilombo, nasceram Alemályu, Cipriano, Henrique, Frederico e Manuel (não nesta ordem). Como se explica que ele nunca quisesse regressar a Mukinda? Algum desgosto? Desamor? Teria cometido algum erro grave e fugido à responsabilização? Na localidade de Olondimba, a caminho da barragem de Lomaum, estão os túmulos de Patisa, falecido no dia 16 de Janeiro de 1937, e esposa, Malinyã, falecida a 22 de Dezembro de 1957. 
Dos filhos de Mariano, destaco o Manuel, a quem o registo oficial atribuiu mais um S, passando a Patissa, inicialmente apenas mais uma criança nascida para o campo, nada antevendo o que a história de Angola o tramaria. Manuel, depois de experimentar o consumo de álcool e não gostar, o mesmo se dizendo da religião católica, aderiu ao movimento evangélico protestante, concretamente a IESA (Igreja Evangélica do Sudoeste – hoje Sinodal – de Angola), fomentada por missionários suíços em Kalukembe, Lubango. Manuel Patissa em 1961 é feito preso político, seis meses volvidos sobre o falecimento da esposa, na «operação ovissonde», em consequência dos acontecimentos do Norte, nos primórdios da luta armada. Passaria cinco anos na cadeia de Bentiaba, na então Moçâmedes, hoje Namibe. Quando sai, encontra os filhos marcados pela revolta. Victor Manuel, que por altura da prisão do pai tinha 15 anos, vai dando sinais já de irreverência (passível de castigo físico), a ponto de ao domingo preterir o dia de adoração para ficar na companhia do seu primo Segundo Miñamiña e brincar ao ocinganji, figura mística africana e de intermediação com o além, conotado com o diabo. No fervor dos movimentos de libertação, Victor Manuel adere às bases do MPLA e mais tarde, não se revendo no nome do colono, resgata o do seu avô paterno e faz um novo registo. Passa a ser Victor Manuel Patissa, obviamente distinto dos irmãos (Adelina Mbali Manuel, Fernando Manuel, o Valeriano Manuel e Henrique Manuel). Tal alteração tem efeitos colaterais à identidade oficial de seus próprios filhos nascidos na década de 1970 (registados como filhos de Victor Manuel). Ainda tentou à caneta rectificar, mas a rasura estava demais evidente. Em tempo de guerra, não havendo meios de voltar do Bocoio, no caso particular tive de obter uma nova cédula pessoal, aproveitando uma campanha de registo de menores na comuna da Equimina, onde ViMaPa era o chefe do governo. Passei infelizmente a ser natural da Baía Farta, quando na verdade sou do Monte Belo, município do Bocoio. 
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com


HISTÓRICO

Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja. 
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

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