PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 18 de junho de 2016

Rubrica Victor Manuel Patissa 70 anos | HOMENAGEM (parte3): PARECIA COMBOIO MAS ERA MESMO CASA

Depois da moto brincalhona que se desgovernava na descida e obrigava o uso do calcanhar e a perda de chinelos, se para caber numa eventual lista de mau comprador necessário fosse, o nosso pai teria como razão bastante a forma do que nos ofereceu para morar. Não! Aquilo não existia esteticamente como casa, se entendermos casa como resultado estático da conversão de umas linhas magras marcadas em papel chamado planta. A nossa estava muito acima, só lhe faltando rodas para completar a inspiração que causava. Era uma estrutura comprida a despejar para os dois lados, cujos compartimentos eram autónomos quartos-e-salas. Explico: a cozinha era um quarto-e-sala. O espaço dos rapazes? Idem. Quarto e sala também para o dormitório das meninas. A secção maior, a capital da casa, tinha a porta de entrada na sala de jantar, que dava tanto à sala de visitas como ao corredor que levava ou ao dormitório central ou à fartura logística alocada na despensa. Não se iluda você, que até ali houve adaptação, uma parede teve de ser rompida. Mas, é preciso dizê-lo, qualquer leitura a apontar para eventual propensão de ViMaPa para obstruir a circulação de pessoas e bens é… injusta. Por acaso assacaríamos ao comprador os defeitos estruturantes de um produto? Sem ser propriamente um meio de transporte, a casa fora concebida para o entra-e-sai, ou seja, como geradora de rendimento por via do arrendamento, o que a nossa família veio a herdar. Recordo que a parte posterior tinha ilhado um quarto-e-sala onde morava uma idosa oriunda do Bié, à qual o pai tratava mais como mãe do que inquilina. Por várias vezes, ouvimos o pai anunciar bónus (“este mês ainda fica para a cozinha, mãezinha”), se bem que muita falta também não fazia o valor da renda ao bolso do velho. Até ser derrubada para dar lugar a algo melhor, a nossa casa tinha reparações e ajustes que nunca mais acabavam, o que abria espaço para o assédio de empreiteiros e vendedores de tudo e mais alguma coisa. Eis um registo dramatizado de uma cena real:

DIÁRIO | ATÉ JÁ ENTREI. NÃO TEM CÃO?

“Mas vocês não ouvem?! Anda, vão ver quem está a bater ao portão, pá!”
“Ó papá, é um tio quem tem lata de leite na mão.”
“Lata de leite?”
“Parece que é mestre, a lata está um pouco suja, tem tinta.”
“Dá licença, mano. Até já entrei. Não tem cão?”
“Sim, faz favor. Eu tenho azar, cão dos outros é guarda; o meu mais é que recebe visitas.” 
“Assim as bruxas já lhe partiram a voz. Haka! Boa tarde, ainda.”
“Boa tarde. Está aqui o assento.”
“Obrigado. Ainda um copo de água?"
"Copo de água aqui para a visita!!!"
"Ah! A garganta quase a encravar! Mas estamos bem, é mesmo só a tal vida. Ainda pensamos andar pelos bairros, a ver se encontramos trabalho. Somente.”
“Nós, também, é mesmo assim: dia bom, dia mau. O resto dos problemas… pronto… têem a nossa altura, podemos nós com eles.”
“Vimos que o mano tem uma casa, – sim, senhor! – até que uma pintura mesmo caía bem.”
“Pois. O problema costuma mesmo ser a escolha do caminho, se vamos para a tinta ou para a barriga. E é precisamente quanto?”
“Não te falo mentira! O mano costuma de vez em quando passear na cidade, não é?”
“Sim.”
“O mano, por exemplo, da Kaponte à Zona Comercial (no 28), não costuma ver que há lá umas casas bem pintadas, de frente e qualidade? Aquilo fui eu…”
“Espera aí! Você pensa que sou burro, não? Caramba! Então, um gajo que me aparece aqui com uma lata de leite vazia, dois pincéis no bolso, meio quilo de cal, vai mentir que pintou as casas de uma cidade toda, pá?!”
GP, Katombela, 18.11.2015
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HISTÓRICO
Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja. 
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

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