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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Diário | Governo não é só o marido da república?

“Camarada-Vice! Camarada-Vice! Você, que é mulher, acha que a minha esposa vai sobreviver?”
“A tua esposa está muito mal, camarada… Continua em coma profundo na reanimação.”
“O que estão a fazer é certo? Vê só, Camarada-Vice, vê só! Desde anteontem que não me deixam chegar perto da mulher. Desconfiam de quê? Será que o amor faz mal?”
“É preciso ter calma e deixar os técnicos fazerem o trabalho médico. Ela está grave…”
“Mas, ó Camarada-Vice, então a minha mulher que passo a vida a lhe ver nua, hoje vai ter vergonha de me ver só porque está grave? Vai esconder mais o quê?”


“Tem que confiar no tratamento, homem! E como está o bebé?”
“Camarada-Vice! Eu lá só homem de um filho por barriga? São gémeos, casal!”
“Estão bem?”
“Está tudo! Aquela camarada está a lhes tomar conta como mãe. Obrigado!”
“Ainda bem. E não está a ser fácil mobilizar quadros para este papel de família substituta no vosso caso. Umas camaradas estão colocadas em vossa casa com outros filhos menores, outras aqui de plantão a cuidar dos recém-nascidos, já sem falar da mãe que está nos cuidados intensivos.”
“Obrigado, Camarada-Vice Delegada, a Família e Promoção da Mulher vai receber subsídio da mão de Deus. Até ainda estou alegre só de olhar para os meus bebés. A camarada já viu o instrumento do menino? Se me sair eu, como pai, aos 13 anos já vai acompanhar a namorada para a consulta de gravidez.”
“Isso também seria demais, ó camarada!”
“Demais como, Camarada-Vice? Eu falo mesmo: pode faltar familiares, trabalho, dinheiro, pode faltar tudo, mas sou muito homem! Tenho equipamento para isso! Grupo “O”. Até não precisa esperar o fértil na fábrica da mulher!”
“Olha, ainda bem que falas nisso. O médico chamou-nos para uma conversa muito séria, na qualidade de tua família substituta. O quadro da tua esposa é demasiado crítico. Este é o terceiro parto de gémeos e em cesariana…”
“Concordo com ele. Por acaso, ele não errou na conta….”
“O organismo da tua mulher não vai aguentar uma próxima gravidez, se é que ela sobreviver agora. O médico recomenda por isso, já que toda a gravidez da tua mulher é de risco e também por causa da idade, irem ao planeamento familiar…”
“O quê?!”
“É o que ouviste. O planeamento familiar no combate à mortalidade materno-infantil conta com o apoio do executivo…”
“Executivo já assim é uma pessoa que foi visitar a nossa casa para nos estender na rua?”
“Executivo é o governo…”
“Mas vocês pensam que um governo é coisa de outro mundo ou quê?! O governo não é só o marido da república? Eu também não sou governo da minha esposa?!”
“Camarada, pára de ser egoísta! A tua mulher pode morrer no próximo parto, homem!”
“Olha, Camarada-Vice, já porque vocês nos tiraram da rua, nos deram casa de luxo, escola para os filhos, comida para a família, né?,… querem se meter longe, né?”
“Vocês já têem um agregado considerável, seis filhos mais o casal dá oito.”
“Camarada-Vice, me fala só: a tua mãe te fez planeamento? Você estaria aqui?…” 
Gociante Patissa, Benguela, 9 Junho 2016

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