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sexta-feira, 20 de maio de 2016

[Oficina] Crónica | Cabinda e a mística da noite

Foto: JA imagens
Faziam-se dias e as mágoas hibernavam no canto suplicante do sentimento irrepreensível. Sentia-se a dureza dos dentes comendo-se na fricção do esmalte protetor.

A voz do sol avisava que a imprudência que a levou a desnudar em danças no Tchizo (nome de um monte local) faria dela progenitora da luz. Foi numa noite de comemorar a lua nova, onde saiu despregada do grupo que dançava Kintweni (dança típica da região) e se faz aos braços fortes de Franque Bueia, o jovem de olhos verdes cor da clorofila.


Corpos infernizados se entregavam à didática do amor e eis a voz que por perto se altivava a sentenciar o crime por tudo ter acontecer ali e em flagrante.

Não sendo permitida por razões costumeiras a prática de relações amorosas no chão Cabindense, era o prenúncio do castigo maior na montanha, tinham de dançar, despidos, sob o olhar repreensivo dos bakamas (homens ritualmente mascarados).

“Vocês, os jovem deste tempo, não ouvem mais. Quando ‘quero’, leva no quarto em cima da cama!” (Eram os conselhos dos presentes). Já que fizeram pouca vergonha, vão ter que pagar com vergonha maior, sinal de multa aos espíritos Tchowa (nome local da região de Cabinda).

Dona Kambizi, a mãe destratada pelo facto, não acreditava que aquele episódio estava a ocorrer apenas por desproposito! A sua filha única não poderia estar a passar por aquilo de lhe dormir só assim no chão simples. Não podia ser obra de um mero acaso! Triste, como não podia deixar de ser, sai na calada da noite para juntar mais um prego à imponente Nkonto Nkuta (árvore mágica usada para vinganças), o imbondeiro justiceiro.

“Liberta a minha filha e me mostra o malfeitor, a não ser que ele não come sal, não bebe manjevo (bebida típica de palmeira) e não come sacafolha (refeição à base de folhas de mandioqueira) ”. Súplicas de mãe ferida diante do imbondeiro, pregando forte com uma pedra ao ritmo de um martelo.

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 19.09.2016
Depois de cumprido o ritual, o jovem casal de “malandrinhos” é liberto e regressa à casa ao pôr-do-sol, recomendado a não olharem para trás, nem apertar a mão de quem quer que fosse, para impelir os ventos maus.

Faziam-se outros dias e as mágoas aos cinco dias e cinco noites da vela acesa avisavam que um corpo jazia na praia do Malembo, deixado pelo arrastão Likumbi Lipanha (barco místico noturno, conhecido também por Barco Espanhol), que cumpria assim mais uma missão a favor da dor.

“Porque tu?! Porque tu, minha rival com quem aceitei partilhar o marido para fazer os filhos que eu já não podia dar-lhe? Que desgraça querias tu para a minha única filha?! EH, NZAMBI (ó Deus)”.

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