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domingo, 8 de maio de 2016

[Oficina] Conto | Man Barras, o “grego” alheio

João Aguinaldo de Sousa Nobre, de nobreza só tinha mesmo o nome. Trapaceiro da última estirpe, faltava apenas o ensaio da morte para detê-lo das trafulhices. Se desse para morrer um pouco e depois voltar para poder comparar, talvez seria o remédio. (Vaticínios de mãe cansada).
Texto de Lauriano Tchoia,
Luanda, 06/05/2016

Vi-o crescer franzino, corpo de lombriga. Ainda pequeno já infernizava a casa dos pais com as mais impensáveis malandrices, ora escondendo o rádio (aparelho) do papá no saco de arroz, ora simulava ter introduzido pilha alcalina na panela de feijão ao lume, no matreiro truque de levar a panela tóxica ao lixo e comer tudo sozinho num beco.“Os demais que se virem, comam funje simples antes que morram envenenados”(ria-se).
Ajustava pulungunzas em cenas de pancadaria, espalhava surras atoa no coitado do Pascoalito filho da vizinha Minga. O puto alheio era o balão de ensaio, o próprio batuque Cokwe em ressonância!

Da mãe não“ouvia, deixa…” Maratona de surra só lhe atingia da pele p’ra fora. Nos seus catorze anos a cadeia era esplanada de petiscos. Entre todas essas malícias, enorme era o temor em ver nascer mais um “grego” (sinónimo de fora da lei, na gíria dos anos oitenta) de uma mãe em dívida com o progresso da linguagem.

Mais alguns anos ganhou massa orgânica, pobre mãe arrependida não tê-lo desengravidado na gestação. No lugar de filho para amar, estava a sustentar demónio, logo na sua casa? A Suku yange wé! Nada mudou, nada mesmo! Rezas, lamentos e curandeiros só pioraram, era desde então o famoso Man Barras.

Praça do Divórcio o lugar de desfile. Cachudos de todas as maneiras, bebiam whiskey em grades. Pagar,… não é problema, qual é a maka mboa?

Todos os dias, das quinze às vinte e três horas, eram reis pelas posses, mudavam de carros num estalar de dedos, só podiam ser filhos de grandes empresários como se dizia no meio.

Como os dias não são iguais quatro motoqueiros na área, balázios no ar e nas pernas dos cahenches, a tentativa de fugir custou-lhe um tiro nos cornos. Era a vingança de gatunos iguais por má divisão da massa do último assalto.

Funeral de Man Barras, a única lágrima foi da mãe, apenas pelo investimento mal feito num parto de risco. 

Vai bem, Man Barras. Vai bem só já.

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