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terça-feira, 24 de maio de 2016

Diário | Mas assim no cemitério não vão duvidar?

“Ó sócio, há um sentimento no meu peito que não estou a sentir só assim bem. Viste aquela notícia de mais de 300 poliangues nas ruas? Eh pá, acho que devíamos ainda dar uma pausa…”
“Relaxa, rapaz. Bebe ainda essa birra nova. O fabricante já pensou em nós mesmo, vamos fazer mbora mais como?”
“É, mô mano, galei mesmo bem, a gente ganha muito mal o nosso kumbú, yá?”
“Falaste, mo wí! Até as mboas nunca deviam só nos chular. É lixado o salo dum gajo.”
“Mas se não adiamos, então é deixar carta. Se o mambo der bum, a sociedade vai entender porque é que andamos a tramancar cubicos. É por uma boa causa. Esses poliangues balaziam mesmo a sério, meu. Olha, se poeramos durante a operação, com a carta, é igual a suicídio. E no suicídio, o morto é sempre compreendido.”
“Não fala assim! Suicídio é uma palavra negativa. Não é o nosso caso. Nós então somos mbora heróis, wé! Não é qualquer um que se mete na noite, só com um carregador de sete balas no calmante, faz assalto atrás de assalto e organiza mbora a vida, xé! Até uma vez galei num filme: ‘os piratas são iguais aos políticos, só que uns roubam protegidos pela coragem e os outros roubam protegidos pela lei.’ Gostaste?”
“Mas em cada missioneira, estamos sujeitos a morrer. À pedrada, à faca ou a tiro ou quê… Depois a minha mboa está pwã, tipo vai ser menino…”
“Mas assim esses anos todos que andamos nesta vida, você alguma vez já morreu?”
“Até ver. Depois, as nossas famílias não sabem as nossas batidas. Vamos só escrever uma carta que, se as nossas vidas tirarem voado, pronto, né?… Porque quem se suicida é sempre a vítima da história, e ficaria bem nosso nome na boca do povo.”
“Fogo! Outra vez com a conversa de suicídio, pá?! Reage como homem, não fica tipo és panina! Estás já a me fazer entchutchu, xé. Já te falei que o meu raio X não falha. Em cada batida, assim já tenho uma amante que mora no sítio, me dá já a pata de qual casa que ferve (porque nesta fase o banco já não bate para guardar lombongo), quem dorme aonde, a porta mais fraca, o nome do guarda, essas coisas, meu. Você mesmo sabe que essas miúdas, para aparecerem bem, vendiam a própria mãe. Cabelo brasileiro, vestido de gala, propina na Fau, saldo no mobile, sapatinhos, hem…”
“Era bom pelo menos termos dois calmantes e dois carregadores de reserva.”
“Não se estressa só, wi. Aquele meu avilo Pin&Puk já garantiu até máscara e tudo. E já que insistes, vou só te falar uma coisa. Você não é suicida, você é um batalhador de mão armada, que pode morrer na calada da noite a tentar roubar para subsair na vida; não és um gajo que desistiu de viver, tipo egoísta, fracassado ou fanático seguidor.”
“É, né?”
“Em vez de deixar carta, vamos então fazer uma coisa mais digna. Vamos adiantar os nossos elogios fúnebres. Você como tem a letra bonita, escreve no meu elogio fúnebre que fui honesto, humanista, incansável, batalhador honrado. A palavra humilde não pode faltar.Ou alguma vez te dividi mal contigo o que biznamos?”
“Mas assim no cemitério não vão duvidar?”
Gociante Patissa. Benguela, 24.05.2016
PS: MINI GLOSSÁRIO DO CALÃO

Biznar – roubar, furtar
Galar – ver
Poliangues – polícias
Mboas – mulheres
Tramancar – assaltar
Balaziar – dar tiro
Poerar – morrer
Calmante – arma de fogo
Estar pwã – estar grávida
entchutchu – confusão, interferência
Fau – faculdade
Pin&Puk – agentes da polícia motorizada que andam sempre em pares
 Wi – vocativo para amigo

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