PONTOS DE VENDA

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Diário | Ainda não ouviste que agora sou tio de alguém?

(I)
“Quem mais que está ligar? É aquele sobrinho da província, chato… Alô!”
“Alô, tio, muito teeeempo!!!
“Ah, sobrinho! É como a vida na província?! Assim já sei. Você quando liga, é apoio na escola… Ó filho, quer ser doutor até quando afinal?! Arranja um ofício, varre as ruas, faz negócio, qualquer coisa, pá. Estudo já chega!”
“Ah, pois, tio. A escola por acaso já concluí. Telefono para saber da tia, ouvi que está doente.”
“Não se preocupe, a tua tia já não melhora nesta encarnação. Mas você ainda continua no meio de papéis como cabrito? Isso você acha que é futuro de um macho?”
“O tio também… Ah, mas não. O tio já sabe que a província tem um município novo?”
“Ai, a nossa província engordou?”
“Eu fui nomeado há um ano. Sou o Administrador adjunto do município novo…”
“Não fala isso! Eu sabia! Sempre falei: este meu sobrinho cheio de salitre, cabelo nunca viu pente até parece é pele de ovelha, magro como a caneta, é só livros e mais livros no sovaco, um dia será doutor. Está aí! Você é ALGUÉM, sobrinho! Pronto, desliga, até estou a tremer.… Ó mulher, dá cá ainda um copo de cisangwa. Aliás, cisangwa mais não. Só vinho. Ainda não ouviste que eu agora sou tio de alguém?…”

(II)
“Alô, doutor!”
“Viva, tio! Mas, por favor, chama-me mesmo pelo nome; isso de doutor eu dispenso.”
“Então, posso ir ali fazer uma visita de molhar o cargo, não é?”
“Sim, tio. Pode vir amanhã, é só apanhar o autocarro executivo inter-provincial, eu pago aqui.”
“Mas, ó marido, vais passear ou vamos?”
“Vamos com quem?! Eu vou em visita protocolar, e não fica bem levar companhia.”

(III)
“Alô, sobrinho! Já chegamos. Estamos aqui mesmo no terminal dos autocarros.”
“Ok, tio, já aí vou.”
“A viagem correu bem?”
“Oh, doutor, quer dizer, sobrinho!, autocarro executivo é grande categoria! Vim a dormir.”
“Então, mas e este outro senhor?”
“Ah, é meu amigo. Jogamos juntos a bola na primária, começamos a namorar juntos. Veio comigo passear. Sabes como é que é…”

(IV)
“Dá licença! Bom dia. Mais-velho, acorda! Comecem a fazer as malas!”
“Mas quem é você para me acordar?! Não sabes que somos visitas protocolares?!”
“Eu sou do protocolo! O chefe deu ordem: fazer as malas e voltar no autocarro das 05h30…”
“Mas nós chegamos ontem à noitinha. Eu sou tio do chefe, ouviu bem?! Vou ligar para ele (...) Alô, doutor! Aqui é o teu tio. Um dos nossos subordinados ficou maluco…”
“Não, tio, não está maluco. Madruguei para visitar comunas distantes. Eu convidei o tio para me visitar. Eu ficaria com a sopa e o tio com o prato principal. Agora, se acha que traz os amigos, espera até eu ter a minha casa. Eu vivo na casa do Estado, não é para festanças.”
“Mas então você é chefe no governo para quê?! Se temos um pouco, não podemos mostrar?!”
Gociante Patissa. Benguela, 11 Maio 2016
www.angodebates.blogspot.com

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