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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Opinião | O jornalismo, o poder tradicional e a lógica da não contradição

Políticas e politiquices à parte, e com o devido respeito aos concidadãos que exercem a profissão de jornalista (a qual muitos de nós relegamos para mais tarde), cada vez me questiono mais sobre a capacidade de análise dos narradores/redactores, no que respeita a questões elementares da história do país e idiossincrasias nossas. Tive a sorte de aprender um pouco de lógica duas vezes na vida, tendo sido a primeira num curso básico de jornalismo e a segunda nas aulas de filosofia no curso de licenciatura. E parto do princípio que aos profissionais de Luanda se deve exigir um pouco mais, até porque têem mais recursos e oportunidades de aprendizagem, com acesso ao ensino superior e tudo. Vem isto a propósito de uma contradição (quanto a mim grave) que acaba de desfilar numa peça de reportagem do programa dedicado à província de Luanda, emitido pelo canal principal da TPA. Depois de anunciar como facto raro a existência de uma mulher no poder tradicional em Catete, o narrador disse, e cito: "Em Calomboloca, o poder tradicional é exercido com base nos critérios estabelecidos pela população, de geração em geração". Feita a chamada, o que o tele espetador espera é a confirmação disso mesmo no relato que vem a seguir sobre os termos da sucessão, até porque o texto foi produzido, pelo menos é o óbvio, com base no discurso directo da interlocutora. Para o espanto geral (e atropelo à lógica da não contradição), eis que surge a soba Maria nestes termos (cito de memória): "O mais velho [pai] quando morreu, ficamos mesmo assim, tristes. Choramos, choramos, e depois como há um irmão, decidimos que ele é que ia ficar no lugar. Mas o camarada administrador - já sabe essa nossa vida - disse que não, que é melhor ficar uma mulher no lugar. E assim fiquei". Ora, de onde foi o repórter tirar a ideia de ter sido uma sucessão com base nos critérios estabelecidos pela população, se a interlocutora, a soba Maria (poder real/tradicional/dinastia), diz precisamente que foi co-optada pelo administrador (poder político/administrativo)? Bem sei que a autonomia/paridade do poder tradicional é um debate que se adia desde a era colonial. Mas é inquestionável que o país um dia terá de o agendar (com o Ministério da Cultura a falar ao mesmo tom que o da Administração do Território), mesmo até para se respeitar a essência étnica dos povos que fazem o mosaico desta nação em construção, sob pena de nunca mais nos reencontrarmos neste sentido.
Gociante Patissa, Benguela, 07 Abril 2016

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