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quarta-feira, 16 de março de 2016

Rubrica Crónicas do Metro | "Para quem não se deixa vender aos falsos moralistas"

Texto de Alexandra Sobral
Lisboa, Portugal, 23.02.2016
Eu não dou esmolas por princípio, ainda que seja um princípio repassado de excepções. No metro irritam-me sobremaneira os indivíduos que, cegos, fazem do pedir modo de vida. Alguns conheço desde o tempo de antes da minha era automobilística, alguns mantendo a postura, que já nessa época tinham, a de repetirem sem inovação a mesma lenga-lenga lamurienta e miserabilista, apelando à dor de consciência de quem, mais afortunado, pensa-se, não padece daquela insuficiência, ou ainda a de ficarem furibundos quando a colheita não corre de feição. Mas, como já atrás disse, as minhas regras, pelo menos nessa matéria, não são absolutas, o que se confirma sempre que de mim se vem aproximando o som de um certo ritmo, que já se tornou um ex libris, no que a esse aspecto respeita, do Metro de Lisboa.
Um que é feito com o bater na barra metálica, que serve de guia, por um outro objecto também metálico, batida também repercutida no púcaro que serve para a recolha dos proventos, e o que acontece em simultâneo, em perfeita harmonia, diga-se, com o bater da guia no chão, e o que me leva, invariavelmente, a abrir o porta-moedas e a fazer da excepção regra. Nunca, até hoje, tinha prestado muita atenção ao que o criador daquele ritmo vai dizendo, absorta que estou a ouvir a música, mas hoje, porém, ouvi e ouvi-o distintamente dizer “para quem não se deixa vender aos falsos moralistas”, Fascinante! Que mundo de considerações podem dimanar de tal frase! Será que a mesma é dirigida a quem vai enchendo o púcaro? Será que a mesma é um sarcasmo, por se ficar vulnerável, quem fica, à má consciência atiçada pela desgraça alheia? Será que se dirige aos que pensam comprar a complacência do divino e afastar, por essa via, aquela ou outra maleita? Será que é o afirmar da dignidade, apesar dos pesares e de se estar a estender a mão à caridade? Será, será? A verdade é que gosto de ouvir aquela música. E agora vou tentar ouvir para além dela.
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(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos

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