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sexta-feira, 4 de março de 2016

Rubrica Crónicas do Metro │No meio do mutismo geral (*)

Texto de Alexandra Sobral
Lisboa, Portugal
Crónicas do Metro (que gostaria fossem do quotidiano, mas não são). Hoje fui jantar a casa de uma amiga, ali para os lados do bunker da PJ, e não levei carro (cada vez me apetece menos levar carro, só de pensar nas voltas que tenho de dar para arranjar onde largar o mesmo, não só nos sítios para onde vou, mas, mais gravemente, no sítio para onde regresso, ainda para mais agora que me tornei fervorosa adepta de caminhar e de andar de transportes públicos). Por via disso, fui de Metro até ao Saldanha e fiz o restante percurso a pé. Estava aquele friozinho gostoso que um qualquer cachecol sustém e uma boa caminhada afasta. No regresso, já passava um bocado das onze, a caminhar para a hora em que todas as carruagens se transformam em abóboras, ponderei vir de táxi, mas eu cada vez tenho menos paciência para a conversa de tudólogos de vão de escada dos condutores dos ditos, por isso, e por certo inspirada pelo Duque de Viseu que, a mim e à minha amiga, nos acompanhou ao jantar, decidi vir de novo a pé e de Metro, calcorreando o percurso inverso. Já dentro deste último, no lanço da linha verde que se encarregaria de me trazer a casa, esperançadamente sã e salva, olhei, com olhos de ver (diria a minha avó) para os meus concidadãos ou, pelo menos, para os meus companheiros de viajem, a tentar perceber em que medida o acontecimento do dia, a tomada de posse do novo governo, os incomodaria, regozijaria, ou afectaria de um modo geral. Nada, nada de nada se descortinava, no meio do mutismo geral, das olheiras ostentadas até ao queixo, dos cabeceares sonolentos, da apatia gritante das gerações aparentemente mais velhas, que os outros, os das gerações aparentemente mais novas, esses, que eram 90% do total, fixamente, quase sem excepção, olhavam e movimentavam os dedos por sobre os pequenos écrans dos respectivos e venerados ditadores (aqueles que ditam e se vêm inquestionavelmente obedecidos), os telemóveis! Conclui, assim, e depois de aturada observação, e atento o ar compenetrado com que todos estavam, que, por certo, estariam todos, entre si, a debater o alcance do discurso da tomada de posse, o proferido pelo PR!
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(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos

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