PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 15 de março de 2016

Partilhando leituras | Género dramático

Era a época das radionovelas puras. Em Havana, as emissoras encaixam uma novela à outra, da manhã à noite. A CMQ e a Cadena Azul disputam não só a audiência feminina como os roteiristas para servi-las. Os atores não dão conta, vão de cabine em cabine. Casam-se em uma, divorciam-se na outra, em todas vivem amores adocicados e tremendos desenganos. Se um deles resolve pedir aumento de salário, o diretor dá uma piscada para o roteirista e este os faz morrer no capítulo seguinte, e ressuscita quando voltam pedindo emprego. (…) Junto com o açúcar, Cuba exporta lágrimas para todo o continente. No exterior, os roteiros das radionovelas são vendidos a peso de ouro.

Diante do delírio de programações totalmente dramatizadas, os artistas da ilha caribenha formam um Comitê de luta em prol dos programas musicais. Ninguém os leva a sério. Os empresários só querem saber dos pontos do rating e dos dólares que crescem em suas mãos como a espuma dos sabonetes que patrocinam as soap óperas crioulas. Os ouvintes também não querem renunciar a esse vício prazeroso de sofrer na pele alheia.

Conta-se que um escritor com a imaginação já bloqueada de tanto ter de inventar um roteiro por dia, estava para pedir demissão. Espremia o cérebro, assim como a roupa das lavadeiras que escutavam suas novelas, mas não conseguia uma única idéia nova. O datilógrafo veio em seu auxílio: —Não se preocupe, rapaz. Pegue um assunto velho, de uns dez anos atrás, e inverta tudo. Dê-lhe outro título, troque os personagens. O que antigamente era dito por ele, agora quem fala é ela. Quem vai se lembrar?

Dito e escrito. O escritor de novelas colocou a Marietta onde antes falava o Andreuccio. E do avesso. No começo, aqueles roteiros reciclados alcançaram um bom êxito e ninguém desconfiou do truque. Mas, à medida que os capítulos iam avançando, o público começou a sentir algo estranho no enredo. No jardim noturno, a donzela namorava com atrevimento o galã macho que suspirava timidamente da sacada. O roteirista foi acusado de pervertido. E teve de reacomodar a toda pressa o elenco para que a Comissão de Ética do Rádio não interviesse no assunto.

Isso aconteceu em Cuba e também em todo o continente na década de 1950 e continua até hoje, só que as andorinhas se aconchegam em outro ninho: as telenovelas monopolizam o interesse das multidões tanto em Tóquio como em Madrid ou Moscovo. Por que o gênero dramático nos seduz tanto? É que os seres humanos são assim, um turbilhão de emoções.
(…)
O gênero dramático evoca o passado, adianta o futuro e coloca ambos no presente. Representa-os. Talvez por isso nos pareça tão próximo, tão familiar, porque imita a vida, recria situações que vivemos ou que gostaríamos de ter vivido. Desde as máscaras africanas até as crianças calçando o sapato dos pais.

José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas Apaixonados», Pág. 107. Edição Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil.

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