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segunda-feira, 7 de março de 2016

[Oficina] Crónica | «Abre Salão»

Texto de Albano Epalanga, Lobito, 07.03.2016
 (foto de autor não disponibilizada)
Maria Antónia. Calma, simples e muito reservada. Dona de uma beleza natural incomparável, era única na banda que não passava despercebida. Eu já estava com os meus 25 anos, futuro quase definido: Pastor. Muito por influência de meus pais que foram sacerdotes durante muito tempo e parece que a única forma de honrá-los seria seguir a mesma carreira «sacerdotal» fazendo jus ao ditado «filho de peixe é peixe». Os meus Pais eram responsáveis pela evangelização a nível do Lobito. Morávamos no Bairro da Bandeira, segundo alguns dos antigos moradores, o nome terá surgido devido a uma bandeira enorme (da república) que ali se achava, bem no local onde se situa a actual Comarca do Lobito.
Boa tarde! Fixe Pastor? Assim já estás a ler Bíblia né!  era a Maria Antónia, até então a moça mais cobiçada do bairro, lá veio ela com sua voz mansa e agradável. Só que daquela vez me apanhou distraído.
Estou fixe, vocâ sabe que eu ainda não sou Pastor, vou ser se Deus quiser.
Sabe, Manucho, você é muito especial para mim. confesso-vos que o meu coração explodiu quando disse isso) Hoje terá um culto na Igreja e você é meu convidado.

Não hesitei, aceitei de imediato, mesmo cônscio do quão inusitada aquela Igreja era (dessas neopentecostais). Conversa chama conversa, volta e meia estávamos a caminho, aquilo só era eu ("ame", "ame"), afinal passeava com a menina mais cobiçada do bairro.

Manucho com a Mary, ééé!!! É hoje! Assim é só ele já! comentavam os amigos
Fala ai brada!?
Yá. Está fixe meu. (Manucho está nos cumprimentar assim... Só porque está andar com a Mary... Esse wi é malaique, a sério!)
Que Igreja mais bonita! disse a ela em jeito de admiração... Enquanto se cantavam louvores, o pastor ia entrando com a sua Bíblia ao sovaco. De repente e aleatoriamente abriu-a, curiosamente no livro em que meditara. II Samuel 13, ali onde se faz a narração dos filhos de Davi (Amnom, Tamar e Absalão) cujo final foi trágico. Nisto, o Pastor pediu que o acompanhássemos na leitura do versículo 38, que dizia «Assim Absalão fugiu, e foi para Gesur; esteve ali três anos.» O Pastor olhou para a congregação (naquele dia estavam lotadas as cadeiras da Igreja), pediu que fechássemos as bíblias e disse:
Irmãos, há uma revelação muito forte aqui. Sublinhem este nome: Absalão! O Senhor está falar para abrires um salão de beleza, «abre salão», e o Senhor vai-te ajudar a crescer o seu negócio. Irmãs, abram os vossos salões de Beleza! Este nome não veio à toa na bíblia, é mesmo para abrir salão de beleza, irmão.     

O sermão só estava no limiar e eu já me achava céptico, pasmado, acabrunhado, acatabocanhado... Porque também não era essa a forma de pregação que imaginava trazer aos fiéis quando um dia me viesse a tornar um sacerdote. Do culto, ficou-me a dúvida: será revelação ou teologia da prosperidade?
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. Caso queira participar, pode mandar textos (crónica, poesia, conto) para patissagociante@yahoo.com

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