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quarta-feira, 2 de março de 2016

Fábulas da Nossa Terra | O Cão, o Gato e o peixe na grelha

Pelo menos uma vez na vida, o Cão e o Gato tentaram levar uma vida pacífica. É que não se justificava mais – entendiam ambos – a rivalidade, vivendo sob o mesmo tecto:
– Vizinho Cão, consegues dizer-me a razão de sermos inimigos?
– Para ser sincero, mano Gato, eis uma pergunta que nunca ninguém me soube explicar! E, por falar nisso, já agora, essa pergunta assim é p’ra quê?
– Bem, não é nada de especial. Mas…
– Eh pá! Acho melhor te afastares. Não penses tu que me apanhaste a pata!!!
– Lá estás tu, ó Cão, com a tua parvoíce! Por acaso te faz mal conversarmos?
– Ora... Digamos que não, se queres saber.

Tanta era a retórica do Gato que ao Cão faltavam argumentos para duvidar do novo projecto de paz no lar. Surpresa, porém, ficou a dona de casa:
– Mas não vos parece que há paz a mais nesta casa? Já não brigam nem nada?
– Quê isso, nossa ama?! – retorquiram os ex-inimigos. – Bem…– avançou o Gato. – Decidimos acabar com a inimizade de longos anos, cuja origem desconhecemos.

O tempo passava e melhor se entendiam. E quando a ama tivesse de sair, um deles fazia de Oficial-dia. Geralmente, o Cão tinha o papel de guarda, enquanto o Gato era electricista. E num belo dia, enquanto a ama aguardava pelo noivo para um almoço romântico, descobriu ela que algo faltava para os temperos. E:
– Amigos, vou sair. Já sabem que nesta casa somos pela responsabilidade, não sabem?
– Claro, senhora! – confirmavam.
– Hoje, de quem é a vez ?
– Do mano Cão, senhora! – disse o Gato.
– Pois! Meu cãozinho, toma conta da casa e ajuda o Gato.
– Pronto! A senhora sabe que sempre fui seu amigo e fiel protector físico. – E dizendo isso, o Cão estendia os braços para mostrar sua mascote de ouro, fingindo sacudir poeira do seu casaco novo, mais novo até que a gravata.

Meia hora depois, com fome e gula, o Cão dirigiu-se ao Gato:
– Confrade Gato, tira então um naco desse peixe na grelha.
– Caro Cão, não digas isso nem mesmo a brincar!
– Gato, então tu achas justo termos de suportar o cheiro do grelhado, com fome?

E nesse puxa e não puxa, a boca do Cão ficava cada vez mais cheia de água, até não aguentar mais. Ali forçou as garras do gato sobre a grelha, beliscando uma boa parte do peixe, o qual devorou num piscar de olhos. O Gato só chorava de dor pela queimadura.

Ao chegar à casa, perante a desgraça com o grelhado, a ama bravou. O Cão limitou-se a fazer gestos de glamour. Alegava que, sendo guarda, não sujaria a reputação por um peixe, por mais romântico que fosse. O Gato, ainda emudecido pela dor da queimadura causada pelo falso amigo, não teve tempo para se defender… e foi expulso do lar.

Moral: Por vezes o mal vem de quem menos se espera, mas quase sempre paga o pobre.

Gociante Patissa, 2007 (adaptação de uma fábula contada na aula de ética social pelo professor João Kassanji Santos durante o curso de sociologia, que não concluí).

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