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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

[Oficina] Conto | A infelicidade da casca de banana

Texto de David Calivala,
Lobito, 10.02.2016

Quando nasci senti que éramos uma família. Alguns lá pra cima e outros mais lá pra baixo, mas éramos uma família. Sentia eu que nossos rabos ou pés estavam presos na mesma aldeia. Perto de um riacho víamos tudo e sentíamos a nossa aldeia Cacho suportar-nos o crescimento.

Sentia muito amor e admiração a um estrangeiro que, de vez em quando, ajudava para o crescimento do meu país Bananeira. Ele dizia-se dono do continente Bananal. Independentemente do que ele fazia no seu próprio país, o que eu não sabia, porque não via, quando ele chegasse ao nosso país, todos nós ficávamos contentes. Pois ele dava-nos tratamento reconhecido para que crescêssemos saudáveis, isso via-se.

Certo dia, eu senti que a nossa aldeia foi removida do meu país. Com essa remoção o meu país foi derrubado também. Eu escondia um segredo e não contava nada, nem mesmo a ninguém.

Eu senti que, para além de crescido, o meu eu se amarelava e o meu íntimo secreto deixava a dureza e dava lugar à moleza, para o olhar ensalivador de muitos estrangeiros.

A dado momento e para meu espanto, cortaram o meu cordão umbilical, separando-me da minha aldeia. Senti medo, mas muito medo mesmo. Achei que não conseguiria viver fora da minha aldeia e sem ver meus irmãos, era verdade e eu tinha razão. Apalparam-me e fizeram alguma pressão sobre mim. Antes achei que me estavam a acariciar, mas depois senti que me estavam a sufocar com apertos. Num dado momento senti a minha cabeça decapitada, meu corpo sendo rasgado aos poucos. O que mais me doeu foi saber que me rasgavam para desnudar o meu segredo. Espantei-me quando vi que familiares do estrangeiro, que nos bem tratavam em visitas ao nosso país, aprazeiravam-se enormemente quando a suas mandíbulas entravam em confidências com o meu segredo.
Chorei, chorei e chorei muito.

Não se importaram com a minha dor, ou talvez sim e por isso deitaram-me feito lixo num contentor, e aí eu me vi apodrecer. E só agora percebi que nem todo aquele que vem como quem te quer ajudar é porque quer teu bem. Pode sim querer preparar caminho e o momento exacto para….
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.

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