PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Nota solta | O 4 de Fevereiro, a história de todos e de cada um

Manuel Patissa, preso político em
São Nicolau entre 1961-66
A história universal só faz sentido se for colectiva. Por outro lado, a mesma história, porque assenta no registo de acontecimentos sobre pessoas, também só faz sentido como somatório de relatos individuais dos visados. Afinal, tanto os protagonistas, como as vítimas, vêm de núcleos familiares. Embora a nossa história mediatizada só realce o 4 de Fevereiro e, consequentemente, os heróis do território de Luanda, a verdade porém é que o ano de 1961 marcou irreversivelmente localidades, comunidades e os valores de família de muita gente também no centro e sul do país.

As rusgas dos alegados «turras», que ocorreram neste ano, uma reacção desesperada das autoridades coloniais portuguesas, atingiram muitos, entre comerciantes, líderes religiosos evangélicos, e não só, no interior da província de Benguela, empurrados para o centro prisional de São Nicolau (Moçâmedes, hoje Bentiaba, no Namibe). As sevícias a que foram sujeitos os prisioneiros, relatadas na primeira pessoa, viriam a fortalecer as convicções do ainda adolescente (meu pai), que aos 15 anos viu o pai, ainda enlutado, ser torturado e humilhado. Foi na verdade esta revolta de filho que o levaria à adesão dos movimentos, ao exercício da política, administração e tudo mais (com os desencantos previsíveis no rumo do país sonhado).

Em 1961, Manuel Patissa, o meu avô paterno e xará, aos 45 anos de idade e menos de seis meses passados sobre a morte da mulher, foi preso pelo regime colonial português na região do Bocoio, Benguela, e mandado para a cadeia de São Nicolau, abandonando cinco filhos menores. O único crime? Ser líder da sua sinagoga (Igreja Evangélica do Sudoeste – agora Sinodal – de Angola) e saber ler e escrever. Só foi libertado em 1966.

O fascista e racista regime andava tresloucado pelo efeito contrário da sua arma opressora, a fé cristã (usada para amaciar e patrocinar a escravatura), que se revestiu do carácter libertário. De cristãos e bons indígenas, já se encaixavam no estatuto de “turras” (terroristas), associados ao início da luta armada de libertação nacional. Juntamente com meu avô teriam cumprido cadeia o “Liambandino” (corruptela de Diamantino), que cheguei a conhecer enquanto motorista de Chevrolet cinzenta, e o reverendo Malaquias (pai da jornalista RNA Bela Malaquias, salvo erro).

Como em tudo, o ano de 1961, o do 4 de Fevereiro, determinou o destino ideológico de muitos. E isso transcende gerações, não se podendo esperar que os nascidos depois de 1975 sejam completamente alienados ao legado familiar. É certo que se deve olhar para a coisa despidos de sentimentos de vingança. Seja como for, como aliás disse alguém recentemente, não foi à procura de glorificação que os nossos se sacrificaram pela sua Terra.
 Gociante Patissa, Benguela, 04 Fevereiro 2016
www.angodebates.blogspot.com

2 comentários:

Manuel Luis disse...

Tristes histórias do antigamente mas hoje acho que é pior, talvez não nesse País mas noutros, como vemos na TV.
Abraço

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Tem razão, caro Manuel Luís, a história tem a triste mania de se ir repetindo a si própria, só alterando as circunstâncias. Abraço retribuído.