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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Rubrica Crónicas do Metro │ Não sobravam lugares (*)

Texto de Alexandra Sobral, Lisboa,
Portugal, 20 Fevereiro 2016
Vi-nos no Metro, com 19 e 18 anos, respectivamente. Tu sério e circunspecto, com o ar imberbe a sublinhar o adolescente que sempre irá contigo, vestido a condizer com o que ao mesmo tempo não te assenta e te molda, a tentar negar o tal ar. Eu com o ar travesso que teimo em afastar e com as roupagens e caracterizações que penso me conferem a maturidade que parece nunca mais chegar. Íamos de pé, que não sobravam lugares sentados aos pares e as tentativas que fomos fazendo para ocupar um desses, foram, de estação em estação, sendo frustradas, pois havia quem, por certo por insensibilidade, distração ou puro e duro egoísmo, sempre se nos antecipasse, deixando sem vaga o lugar par que tanto queríamos e tanto nos escapava. Não conseguia conter o riso, que em cada nova dessas tentativas me saía nervoso e a soar a idiota, deixando-te, eu bem presentia, deveras incomodado, diria mais, envergonhado. A verdade é que não queria que só a minha mão ficasse junto à tua, na pega que quem prevê essas coisas deixa disponível para esse e outros efeitos. Finalmente, à medida que os empecilhos foram saindo, ficou ali disponível o lugar que nos permitiu sentarmo-nos lado a lado e, passados uns breves instantes, que me pareceram várias eternidades, encontrar coragem para deixar que a minha cara procurasse o teu ombro e a minha mão enlaçasse a tua. Tu desarmaste por momentos, e o teu ombro e a tua mão acolheram-me … Só fiquei intrigada com o ar nostálgico que tinha uma mulher, com idade para ser minha mãe, que nos vinha observando desde há umas estações atrás...
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(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos

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