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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Crónica | Que referências de autoridade moral e cidadania teremos daqui a 40 anos?

Às vezes, observando certas tendências comportamentais na nossa sociedade, ocorre um eclipse entre a esperança e o desespero. 

Esperança, porque é preciso continuar a acreditar no lado positivo do ser humano. O que de errado comete a geração dos nossos mais velhos, a dos libertadores, tarde ou cedo desaparece com a própria geração, é a lei da vida (o maior legado que nos deixam é a obra da reconciliação política e militar). Já o desespero não podia ser menor, quando entre jovens e adolescentes vinga a alienação de indicadores básicos de convivência social. Já falei do caos que seria se cada passageiro de um transporte público tocasse em viva voz a música do telemóvel.

Hoje, depois de pedir a um compatriota (13 anos) que baixasse a música, em vão, vi-me obrigado a lhe lembrar que estávamos num corredor hospitalar (ele até mais combalido), pelo que devia, nas próximas vezes, munir-se de fones, a exemplo de dois jovens no banco ao lado. Aqueles concordaram. É que vinha mesmo a despropósito.

É tautologia dizer que os angolanos não são “iguais”. Nenhum povo é. De qualquer modo, é nas tendências que uma sociedade é “catalogada”, por muito que o relativismo procure negar este critério sociólogo de percepção do “outro”. E a mim, quando o assunto é a postura do angolano no estrangeiro, há qualquer coisa que me intriga. Falo daquela mania de extrapolar o génio festivo e o poder que o poder de compra nos dá. É como se a ONU nos plasmasse o direito exclusivo de falar mais alto, de impor o contacto físico (inconveniente). É como se alguma escala nos tornasse superiores a outros.

Voltei a passar as férias na vizinha República da Namíbia. Povo de maioria Bantu, multi-étnico e linguístico, tão perto de nós, ao mesmo tempo tão distante. Nas províncias de Oshikango e Oshakati, fronteira Norte para eles, Sul para nós, taxistas e comerciantes esmeram-se no português (que não estudam na escola), sinal do quanto o não falante de Oshiwambo e Kwanyama (línguas comuns) movimenta a sua economia. Ao contrário dos comerciantes asiáticos que abundam cá (chineses, vietnamitas), o namibiano raramente levanta a voz. Há quem veja nisso um status inferior, mas basta um pouco de inteligência para ver o óbvio, sendo língua igual a poder: eles dominam a nossa língua, nós vamos geralmente mal no inglês (que estudamos desde a 7.ª classe)

Numa hospedaria de Ongwediva, que acolhe angolanos em busca de saúde, nem mesmo a barreira da língua inibe iniciativas a roçar o desrespeito. Se a bebida atrasa, adiantam-se os berros. O pessoal de serviço, a contra-gosto, mantém-se bem-educado. Há mais gente hospedada, a pagar por sossego (namibianos, ingleses, alemães). Quando ali estive, independiam da hora as brincadeiras de duas mães e suas crianças, cantarolando e dançando: "daquele pai, daquela mãe. Lhe dá! Quadradinho, quadradinho!", enfim.

Ah, também lá se espera pelo médico. Não faltam livros e revistas com chamativas fotos. Por sorte duas mocinhas têem boas batidas e vídeos no telemóvel para curtir e rir. Alguém dirá que se está a exagerar, que seria ofensivo não abrir excepção a grupos profissionais imaculados (diplomatas, religiosos, etc.). Seja como for, assusta este prosperar da árvore, qualquer dia ofusca a própria floresta. Que referências de autoridade moral e cidadania teremos daqui a 40 anos? Como foi que regredimos tanto?

Gociante Patissa. Benguela, 2 Outubro 2015

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