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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Impressão digital | Circo das vaidades

Por José dos Santos, director do jornal «A Capital», edição n.º 640, Luanda, 04/04/15

Quando decidi abraçar o jornalismo, admirava algumas pessoas que já há muito labutavam na profissão. Tanto pela forma de escrita – muita criatividade -, assim como por aquilo que representavam ser. Gente idónea e, por via disso, verdadeiros exemplos a seguir. Passaram-se os anos e, confesso, vi-me defraudado com algumas pessoas, jornalistas, no caso, que muito admirava. Não porque deixaram de encantar-me com os seus escritos, mas, sobretudo, porque passei a reconhecer em muito deles uma outra faceta: um exacerbado narcisismo.

Deixei completamente de os ver como exemplos a seguir, apesar das referências. Passei, por isso, a colocar-me a milhas de distância, mal os avistasse. A luz que brilhava no horizonte não era, afinal, o ouro que se imaginava. Era apenas uma miragem...

Compreendi com os anos que há por aí gente jornalista que continua a padecer (sempre foi assim, encapuzavam-se) de um narcisismo patológico e que parece piorar com o avançar do tempo. É o narcisismo jornalístico de que me refiro, um conceito que pode servir para caracterizar um profissional do ramo que, sem pejo nenhum – qual Narciso – admira de forma exagerada só a sua própria criação.

Em busca do protagonismo só para si, entende que o seu jornalismo está acima dos demais. Por isso, nutre uma paixão pelo individualismo numa tresloucada busca pela sua auto-afirmação. Só assim consegue os seus objectivos. Egocêntrico, quer ser sempre o centro das atenções. É assim que se estabiliza emocionalmente, tal é a necessidade de exposição, mesmo diante de um trabalho não raras vezes corriqueiro.

O jornalista narcisista quer sempre receber elogios. Porquê? Entende que, como ele, não há outro profissional igual. Não respeita ninguém, nem o trabalho dos outros. Ele é “demais” e ponto final. E faz tudo para chamar atenção, inclusive contar piadas sem graça, levantar conversas sem pé, nem cabeça. O que lhe importa? Nada. É ser apenas o centro das atenções. E bate no peito quando se lhe é dado alguma importância. Caso contrário, cria fantasmas. Nasce logo um clima de desconforto nas relações com os demais colegas de profissão, mesmo daqueles com quem partilha a redacção. Daí aos conflitos é apenas um pequeno passo.

Para o jornalista narcisista apenas conta a sua opinião. E é esta que deve ser levada em consideração. Se contrariado, bufa por todos os poros. Porquê? Sem modéstia, considera-se um especialista em tudo o que é assunto. Por isso, procura centralizar o conhecimento. Trabalhar em equipa? Para quê? É desnecessário. Só ele é que produz sozinho. Os outros colegas apenas atrapalham. Esquece que também pode aprender com os seus pares.

Há gente jornalista, porque narcisista, que teima em acreditar que o seu umbigo é o sistema solar. Acha-se um fenómeno mundial, sem perceber que, no fundo no fundo, está a precisar de consultar um especialista em medicina para a patologia de que padece.

Compreendi, por isso, com os anos, que devo seguir em frente, absorvendo apenas os bons exemplos. É que, contrariamente àquilo que pensam os narcisos do nosso jornalismo, o mundo não é, afinal, tão ridículo assim...

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