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segunda-feira, 9 de março de 2015

Ensaio | TALVEZ UMA DISCUSSÃO À PARTE


(O presente artigo foi apresentado na conferência sobre «O Português e a Sua Origem Latina Como Língua de Universalidade, Versus as Línguas Naturais de Angola», organizada pela Casa de Angola em Lisboa, Portugal, a 03/12/14)

Inicio estas linhas sem saber, à partida, que género de texto adoptar. Ao contrário do que carinhosamente se espera, desta vez não trago à tertúlia nada assim de sistemático, tal é o momento de particular desmoralização, quer enquanto estudioso, quer enquanto patriota. O melhor talvez fosse nem sequer vir. Entretanto, fala mais alto o adágio Umbundu, minha língua materna, segundo o qual "Wakukavonga wakuvela uloño; nda ka kusapwila, okuliminlã". Traduzido, daria em qualquer coisa como «Quem te chama põe à prova a tua inteligência; ou algo tem a te informar, ou a te oferecer».

Falar do “Português e a sua Origem Latina como Língua de Universalidade, Versus as Línguas Naturais de Angola” é outra boa oportunidade para a partilha de saberes e pensares, mas, diante da tendência cada vez mais sólida, cá dentro, de subalternização das nossas línguas (africanas, Bantu e pré-Bantu), questiono-me se vale a pena investir no debate fora de portas em prol do respeito pela herança identitária, quando a caravana da discussão esbarra, cada vez mais afónica, na surdez institucional.

O paradoxo mais recente é apregoar a inserção das línguas nacionais no currículo de ensino e ao mesmo tempo investir formalmente na corrosão da memória colectiva com a imposição de um padrão de topónimos baseado em corruptelas.

Ao ler notícia sobre um esclarecimento do Exmo. senhor Ministro da Administração do Território (MAT), que na verdade só cuidou de reforçar a nova descoberta do seu pelouro que consiste em castrar as consoantes K, W e Y nos nomes das localidades (mesmo que de matriz africana não ocidental), desautorizando tudo o que de cultural é substracto, só podia eu estar ainda mais desmoralizado com a gestão institucional deste dossier que tanto denota falta de diálogo intersectorial, onde o Ministério da Cultura e o respectivo Instituto de Línguas Nacionais vêem as suas competências ultrapassadas pela direita.

Abro parêntesis para especular morfologicamente. Se fosse na língua Umbundu, o topónimo Kunene (de origem Bantu) seria a aglutinação do prefixo "Ku", que tem o papel de locativo (no, na), com o adjectivo "unene", que significa grande. Assim, arriscaria em dizer que a palavra Kunene (ku+ unene) tem o significado de "na parte maior; na grandeza", o que não sabemos ao certo se homenageia o território ou a bravura da sua gente. De qualquer modo, os falantes de Oshikwanyama têm a palavra. Este “Cunene” oficial não existe no imaginário do povo, não significa mesmo nada.

Por estas e por outras cá em Angola, é ainda comum o uso do termo dialecto para designar as línguas nacionais de origem africana, sejam elas de matriz Bantu ou pré-Bantu, remetendo-as implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.

Se é inquestionável o avanço científico da língua portuguesa e todas as vantagens que ela representa, também não anda longe de dislate chamar as outras línguas (as da identidade cultural dos indígenas de então) – com estrutura própria, sublinhe-se – de dialectos. Seriam por acaso dialectos relativamente ao português, do qual não originam? Ora, como defende MCCLEARY, Leland[1] (2007: 11), “a sociolinguística não usa a palavra dialecto nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.

Há quem se apegue ao pedantismo redutor de que em Angola só o português é língua nacional, no sentido restrito de idioma que se estende a todo o território. Isto é bem verdade, tal como não deixa de ser verdade que temos um país constituído por um conjunto de nações, o tal mosaico etno-linguístico, havendo pessoas que nascem, crescem, envelhecem e morrem sem lhes fazer a mínima falta a língua oficial.

Em meu entender, para um Estado que só existe desde 1975, e com tudo por fazer no campo sociolinguístico (pois a prioridade até 2002 foi, evidentemente, dada à busca da paz e estabilidade nacional), o mais sensato seria abraçar, estudar, classificar, normatizar. Faria sempre melhor justiça à história. Há que perceber que há uma dimensão de Angola que não cabe em documentos nem na “dicção padrão”.

O português vai bem e recomenda-se, mas também se arrisca a reaver a capa de língua infeliz, enquanto for medida latente para a opressão, ainda que disso não tenha culpa. A caminho de quatro décadas de independência em Angola, não faz muito sentido o recurso à reminiscência das sequelas da alienação colonial e da política do assimilado. A questão já não é o que fizeram de mal às nossas línguas; a questão é o que nós não estamos a fazer de bom a elas, no que nos bastaria imitar a Namíbia e Moçambique.

Gociante Patissa, Benguela, 29 de Novembro de 2014



[1] McCleary, L. (2007). Curso de Licenciatura em Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.

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