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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ensaio| A Mulher e o Sonho no Papel de Ligantes em «Rosas & Munhungo», de João Tala

«Não há poema em si, mas em mim ou em ti», como bem defendia o poeta mexicano Octávio Paz (1914-1998). E é nesta aura libertária que partilhamos impressões sobre os contos de João Tala (Malanje, 1959), do seu livro Rosas & Munhungo (UEA[1], 2009).

Médico, Tala é autor de A Forma dos Desejos (poesia, 1997, prémio 1.º Livro da UEA, 1997, da qual é membro, e o 1.º lugar dos Jogos Florais de Caxinde, 1999); O gasto da semente (poesia, 2000); A forma dos desejos II (poesia, 2003); Os Dias e os Tumultos (prosa, 2004); A Victória é uma Ilusão de Filósofos e Loucos (poesia, 2004); Lugar Assim (poesia, 2004); Surreambulando (prosa, 2007) e Forno Feminino (poesia, 2010).

Em forma de pequenos estudos de caso, temos uma colectânea de 11 contos, sobre 11 mulheres marcantes, ao longo de 105 páginas. Da «Passarinheira» (que dá título ao conto de abertura) à Ana Ya Kimbi (personagem do conto «Ela era uma delícia», o último do livro), o leitor anda pela ténue linha entre o real e o imaginário, com aspectos que nos remetem ao realismo fantástico. O construtor socorre-se essencialmente de dois elementos, os quais funcionam como «ligantes», num paralelismo a obras de construção civil: a mulher e o sonho. E porquê? Ora, «ligante é a expressão utilizada para referir materiais que possuem capacidade de aglutinação de outros, habitualmente sob a forma de partículas, e de ganhar coesão tornando-se num material sólido[2]».

Temos um narrador presente, ora protagonista, ora testemunha. «Encontrara-a num qualquer dia, postada no subúrbio da minha infância, depois que começava a conduzir um caminho pelo qual eu crescia (…) Cada vez que buscava ser homem, parecia recuar para essa memória infantil que com frequência me atraía a ela.» (Pág. 11)

Só na página 30 é revelado em discreta nota de rodapé o significado de «munhungo», tesouro até então velado para leitores que não dominassem o termo da língua Kimbundu. Afinal, temos um contraste entre a flor (que simboliza o universo do belo, do terno, do feminino) e a nódoa em «munhungo» (libertinagem, prostituição).

Os contos são relativamente curtos, a narração dinâmica. A linguagem é heterogénea, com o notável cuidado em não falsear as falas dos personagens (o que implicaria um registo de diálogo muito polido), sem no entanto descurar da alegoria. Há mesmo referência a alguém que agia «atoamente». Como defende Roman Jakobson (1983, p. 487), citado em António, Jorge[3], «as funções estéticas não se limitam ao trabalho poético; o discurso de um orador, a conversação corriqueira, os artigos de jornal (…) podem conter considerações estéticas, expressar uma função estética e frequentemente lidam com as palavras valorizando-as em si, para além de sua função referencial.»

Eis uma amostra de como o autor passeia com classe pela poesia, servida aos entrecortes ao longo da narrativa: «A passarinheira namorava os homens, aos quais propunha que lhe comprassem os pássaros. Não eram visivelmente pássaros, mas indícios de pássaros. Para quem lhe comprasse um catuitui, punha-se a gemer formas de um chilreio que parecia balbucios de tal ave; para quem comprasse um pardal, inventava o choro amargo de um pardal fisgado (…) Decidira ganhar desse modo a vida, fazendo justiça aos elogios – sempre alguém lhe descobre um pássaro na garganta: canta como um passarinho, mulher; oh, não canta, chilreia.» (Pág15). Ou a fina ironia no retrato da personagem no conto Ana Rita: «Encontrei-a sobre o peso dos seus anos arrastando um corpo magro. Provavelmente nada mais lhe dói.» (Pág.70)

Os contos são ligados pela guerra como eixo temático, como indica a voz do narrador: «Estávamos no ano de 1991, no finalzinho de uma qualquer guerra, e eu começava a enriquecer de dívidas – ganhava o que não podia pagar – vendia o patrimônio naquele cargo que ocupava e não havia mais nada para justificar, senão depositar as culpas nos acontecimentos que terminaram varrendo a minha época. Como hoje, lá também a culpa era sempre do inimigo – há que inventá-los muito mais para não cair.» (Pág.29)

Pela negativa há uma ou outra gralha, o que revela algum desleixo na revisão, sem comprometer o valor da obra. Quanto à função política do género conto, o livro é um sugestivo apelo à reconstituição do tecido social, o que se resume aqui: «Inquietante, começo a perceber que temos de ir à busca daquilo que esquecemos em nós próprios, aquilo que deixamos nas sanzalas e nos caminhos da pátria, quando a guerra começou com seus fagócitos de chamas e seu destratamento às origens do povo.» (Pág. 54)

É no conto Rebeca Nzoji (Pág. 47) que o sonho se torna tangível, contrariando a ciência que o vê como ocorrência efémera e abstracta: «Nzoji tinha uma estranha mania de ficar desarrumando noites, pulando de sonho em sonho como uma sonâmbula. Irrequieta mas nada grave, não fosse o mau hábito que tinha de buscar água de noite, no pequeno rio que, como ela própria dizia, corria entre nós dois. Isto quer dizer que os seus sonhos eram de mentira ou, pelo menos, não tinham a consistência dos de uma mulher que dorme porque entre nós pouco mais ou menos havia do que laços difíceis».

E não é tudo. «Em 1969, Ana Rita abandonava os estudos para se casar. O noivo era um militar do exército colonial (…) Naquela altura, Ana completaria dezoito anos, tão moça e arrumadinha, se lhe notava o sonho na lentidão dos passos – sabe aquela adolescência no sono de mulher?» (Pág. 69) O sonho é ainda uma fuga à crueldade da vida. «O sonho repetiu-se, por mais estranho que pareça porque Josefa Confissão, afinal, virtualmente amava-me e acreditava que um dia na realidade da vida, pudesse ainda agarrar-me e ser definitivamente dona da minha voz.» (Pág. 26)

O conflito entre «Rosas & Munhungo» é acentuado em dois retratos de sobrevivência: (a) «Contam-me que Amália Tchiquete, para comer vende histórias de sua vida às novas prostitutas (…). São formas de passamentos: retalhos do tempo morto e a morte do ego». (Pág.34) (b) «Aquela mulher fez da sua guerra uma poesia, uma intensa vida de uma Luanda delirante com a paz nos comícios continuados na zunga. E no auge daqueles dias saídos da guerra, aquela mulher recorda seus lutos.» (Pág 104)

Nesta obra bem angolana, João Tala sai-se como um pedreiro que tão bem se socorre de dois ligantes metafóricos, o sonho e a mulher, umas vezes rosas, outras munhungo. 

Gociante Patissa, Benguela, 26 Janeiro 2015


[1] União dos Escritores angolanos
[2] Augusto Gomes, A. P. Ferreira Pinto, J. Bessa Pinto, 2013, p.1. In «Gesso e Cal de Construção». Instituto Superior Técnico. Lisboa, Portugal.
[3] António, Jorge Luis 2004, p.11. In «Ciência, Arte e Metáfora na poesia de Augusto dos Anjos». Navegar Editora. São Paulo, Brasil.

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