Tinha chegado
um recado, segundo o qual Kambuta Comunal beirava a morte, dois dias antes do
Natal. Perda dos sentidos entre às oito da noite e às seis da manhã, após convulsões.
Recear o pior era inevitável. Entre os Ovimbundu, quando o receptor está longe,
a morte não se anuncia como já consumada. Diz-se que a pessoa doente está “muito
grave”, por isso, “venham rápido!” Alguns pares de lágrimas corriam.
Nada
alteraria a decisão de preterir o trabalho para estar perto dele. Foi só por
formalidade que meu kota Amós e eu pedimos dispensa aos respectivos chefes. Com
a kota Arminda, éramos três irmãos no carrito familiar. Às 11 da manhã, estávamos no destino. Algumas senhoritas
cuidavam do forno para os bolos do Natal. Ainda bem! “Quando me disseram que
avisaram Benguela, eu disse que não entardeceria, vocês estariam aqui”, garantiu
o doente. E dizia-o com saudável gaba perante a assistência, porquanto o nosso
carinho é um direito muito bem adquirido por ele. Sorrimos como retribuição.
Sua esposa,
a velha Albina, que em mais uma situação decisiva se revelara grande mulher, abria-nos
o rol de queixas. As convulsões em nada tinham a ver com epilepsia, de que o
doente tem inclusive antecedentes, mas efeitos de interrupções arbitrárias de
medicação. Era a evolução da malária para um ponto letal. A partir dali, estava
aberto o campo para sermões.
Na hora
de regressar, por volta das quatro e meia da tarde, demos a conhecer que visitaríamos
um avó nosso, cuja morada não distava mais de dez minutos de carro. “Não!”, disse
ele em tom de autoridade, “vocês vão direito para a casa, que essa hora é tarde”.
Voltamos a sorrir ante a demonstração de estatuto sobre pessoas maiores de 30
anos, logo por um doente preso ao balão de soro intravenoso. Por
fim, obedecemos.
Motivo de
risos foi notar um quadro preto na sala, com escrita a giz: “Pai biológico é
aquele que só atira e vai para a vida dele”. Bem visto, digo eu. Quando trazemos
à conversa isso de pais biológicos, ou não, é porque algo correu mal. Por acaso temos na família alguns sobrinhos nascidos desses pais biológicos. Definições inusitadas, marca singular do Kambuta Comunal, se bem que, às
vezes, incompreendido. Certa vez, enquanto aluno da 8ª classe, fez uma enigmática redacção: “a água é um processo da natureza. Através da sua transformação, por si
só, temos as barragens”.
É preciso
grande perspicácia conceptual para tal formulação. Os mais comuns dos
professores não vão com definições além do livro. Dão logo um zero como nota. Pobres
almas. Privam-se de calçar lentes menos estáticas, de ouvir a voz da alma. Como
explicar que o rio, que nem nos tempos mais sangrentos do conflito armado
chegou alguma vez a secar, não desagúe em energia eléctrica na comuna? Claro está,
só pode ser porque se aguarda que a água, na sua condição de processo da natureza,
através da sua transformação por si só, nos dê barragens. Portanto, a resposta só
pecou por estar muito adiantada para a sua época.
Severino
Paulino, o Kambuta Comunal, é primo de Victor Manuel Patissa. Cuidou da
escolaridade primária dos filhos deste, à época comissário comunal da
Chila.
Gociante
Patissa, Benguela, 17 Janeiro 2012

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