CITAÇÃO: "Antes de Gorbachev, não podíamos abrir nossas bocas. Agora podemos, mas nada temos para meter nelas". (In The Doomsday Conspiracy)

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

Crónica: A comuna do Monte-Belo e as intrigantes definições do professor Kambuta Comunal

Desde que conheço o mundo, que o conheço entidade. É carismático por dois estatutos: o de professor e o de kambuta; desde sempre o maior, entre os que o antecederam e os kambutas que nasceram depois na comuna de Monte-Belo, município do Bocoio. Na década de 70 era já chamado “Kambuta Comunal”.

Tinha chegado um recado, segundo o qual Kambuta Comunal beirava a morte, dois dias antes do Natal. Perda dos sentidos entre às oito da noite e às seis da manhã, após convulsões. Recear o pior era inevitável. Entre os Ovimbundu, quando o receptor está longe, a morte não se anuncia como já consumada. Diz-se que a pessoa doente está “muito grave”, por isso, “venham rápido!” Alguns pares de lágrimas corriam.

Nada alteraria a decisão de preterir o trabalho para estar perto dele. Foi só por formalidade que meu kota Amós e eu pedimos dispensa aos respectivos chefes. Com a kota Arminda, éramos três irmãos no carrito familiar. Às 11 da manhã, estávamos no destino. Algumas senhoritas cuidavam do forno para os bolos do Natal. Ainda bem! “Quando me disseram que avisaram Benguela, eu disse que não entardeceria, vocês estariam aqui”, garantiu o doente. E dizia-o com saudável gaba perante a assistência, porquanto o nosso carinho é um direito muito bem adquirido por ele. Sorrimos como retribuição.

Sua esposa, a velha Albina, que em mais uma situação decisiva se revelara grande mulher, abria-nos o rol de queixas. As convulsões em nada tinham a ver com epilepsia, de que o doente tem inclusive antecedentes, mas efeitos de interrupções arbitrárias de medicação. Era a evolução da malária para um ponto letal. A partir dali, estava aberto o campo para sermões.

Na hora de regressar, por volta das quatro e meia da tarde, demos a conhecer que visitaríamos um avó nosso, cuja morada não distava mais de dez minutos de carro. “Não!”, disse ele em tom de autoridade, “vocês vão direito para a casa, que essa hora é tarde”. Voltamos a sorrir ante a demonstração de estatuto sobre pessoas maiores de 30 anos, logo por um doente preso ao balão de soro intravenoso. Por fim, obedecemos.

Motivo de risos foi notar um quadro preto na sala, com escrita a giz: “Pai biológico é aquele que só atira e vai para a vida dele”. Bem visto, digo eu. Quando trazemos à conversa isso de pais biológicos, ou não, é porque algo correu mal. Por acaso temos na família alguns sobrinhos nascidos desses pais biológicos. Definições inusitadas, marca singular do Kambuta Comunal, se bem que, às vezes, incompreendido. Certa vez, enquanto aluno da 8ª classe, fez uma enigmática redacção: “a água é um processo da natureza. Através da sua transformação, por si só, temos as barragens”.

É preciso grande perspicácia conceptual para tal formulação. Os mais comuns dos professores não vão com definições além do livro. Dão logo um zero como nota. Pobres almas. Privam-se de calçar lentes menos estáticas, de ouvir a voz da alma. Como explicar que o rio, que nem nos tempos mais sangrentos do conflito armado chegou alguma vez a secar, não desagúe em energia eléctrica na comuna? Claro está, só pode ser porque se aguarda que a água, na sua condição de processo da natureza, através da sua transformação por si só, nos dê barragens. Portanto, a resposta só pecou por estar muito adiantada para a sua época.

Severino Paulino, o Kambuta Comunal, é primo de Victor Manuel Patissa. Cuidou da escolaridade primária dos filhos deste, à época comissário comunal da Chila.

Gociante Patissa, Benguela, 17 Janeiro 2012

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