Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Discutir o acordo ortográfico em Angola

Publicado pelo Jornal Angolense: http://www.jornalangolense.com/full_index.php?id=2347&edit=471
Autora: Ana Faria


Apartir de Janeiro de 2008, todos os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deverão passar a adoptar a mesma ortografia, ao abrigo das últimas decisões tomadas para implementação do Acordo Ortográfico. O nosso país é membro desta comunidade e, como tal, vemo-nos abrangidos por essa medida. Daí, é importante que analisemos até que ponto a aplicação das resoluções deste acordo sobre a ortografia da língua portuguesa , a única que nos serve de veículo de comunicação e expressão oficial por todo o território e fora dele , nos traz mais vantagens do que desvantagens quer ao nível institucional, quer ao nível das comunidades e dos indivíduos.
Na base da argumentação para este Acordo pode –se ler que , sendo o português a terceira língua ocidental mais falada depois do inglês e do espanhol, a existência de duas ortografias "atrapalha" a divulgação do idioma e a sua prática em eventos internacionais. Por outro lado, advoga-se que a unificação ortográfica facilitará a definição de critérios para exames e certificados para estrangeiros. Se as justificações para as mudanças são estas, não é legítimo perguntar: que tipo de interesses se escondem por detrás destes argumentos, e muito mais quando se sabe que o Brasil é a "potência" que mais vibra e pressiona, com um horizonte de cerca de duas centenas de milhões de falantes? Se as modificações ortográficas propostas no Acordo resultam em 1,6% de alterações para a Língua Portuguesa escrita em Portugal (e, concomitantemente, em Angola) e apenas 0,45% para o Português do Brasil, que impacto terá essa predominância da grafia brasileira no mercado de importação de livros ao nível da CPLP? E em termos de acordos de cooperação entre estados, nomeadamente em matéria de formação de professores de português de que Angola tanto precisa , como vêem os brasileiros este mercado e que vantagens estão já a tirar dele?
O nosso grande problema é que, no nosso país, os técnicos nacionais (somos poucos, sim, mas existimos!) são denegridos a toda a hora em favor de estrangeiros que nem sequer têm a humildade de reconhecer que em Angola também existe massa cinzenta, que tem e produz saber e que não produz mais porque não é devidamente apoiada pelo estado/governo. Trocado em miúdos: o Acordo Ortográfico deveria ter sido discutido e analisado com o concurso dos mais dignos representantes da classe docente que ensina a Língua Portuguesa. Como não o foi, corremos o risco de aplicar resoluções que, na fase actual , poderão atrapalhar (isso sim!) o trabalho dos técnicos angolanos que trabalham com o Português falado e escrito, tentando imprimir-lhe as regras/normas que fazem muita falta a um correcto e eficiente processo de comunicação e expressão pelas comunidades e indivíduos que são daqui, aqui vivem e se reproduzem E PRECISAM DE SE ENTENDER EM PORTUGUÊS.
Por enquanto, limito-me a debitar algumas opiniões avulsas porque estou preocupada com o assunto e tenho responsabilidades na praça. Eu acho que o Português falado e escrito em Angola também reflecte o estado de confusão geral vivido de Cabinda ao Cunene e do mar ao leste, numa só palavra: ausência de regras, primado do individualismo. Nas instituições do estado é o mesmo português que impera, falado e escrito, hoje, pela grande massa de jovens saídos das escolas e universidades.
O que está a faltar é uma eficiente política de estado para o estudo, a promoção e a difusão da Língua Portuguesa em Angola, sem preconceitos nem subterfúgios. O caminho que devemos percorrer já está traçado: é a constituição de um Português de Angola, autêntico e enriquecido por todas as variantes regionais e idiolectos de que o nosso país multicultural, multiétnico e pluri-linguístico é composto. Tal como o Português do Brasil, o de Portugal, o de Moçambique, o de Cabo Verde, o da Guiné –Bissau, o de São Tomé e Príncipe e o de Timor –leste, todos eles considerados variantes do Português . E isto não é nada de novo: assim como temos as variantes do Inglês da Grã-Bretanha, o inglês americano, o australiano, o sul-africano, o indiano, o paquistanês, etc, etc. Basta consultar um bom dicionário de Inglês monolingue e lá encontraremos especificados todos os registos destas variantes. E o ensino da língua inglesa, para os nativos ou os estrangeiros, em nada viu/vê seu desempenho afectado pelo facto de se escrever "centre"(ing. britânico) ou "center"(ing. americano).
Em conclusão, resta-me dizer que isto é um assunto que merece muito mais discussão por parte de todos os angolanos, primeiro, e depois, por parte de todos os membros da CPLP, a saber, linguistas, professores, deputados, homens e mulheres de cultura, políticos, comunidades e indivíduos, pois só a partir daí poderá o Governo orientar-se no sentido de um traçar de políticas objectivas e coerentes para a implementação do Português de Angola. Isso parece-me ser muito mais importante do que marcar balizas ortográficas com versões brasileiras, nesta fase.
Professora licenciada e profissionalizada para o ensino do Inglês e Português.

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