Há dias que a inspiração anda para lá do oceano
virada contra mim
Se é que não é injusto assim considerar
Apesar de sempre andar com uma caneta no bolso
e nunca me o papel me faltar
Há dias que dá vontade de, assim, escrever
pintar linhas soltas, despreocupadas
recolher em verso a vivência da minha gente
que trabalha até à hora de se recolher...
Pintar no traço preto em papel
a sociologia que se passa dentro de cada Hiace
mini-autocarro feito taxi
É como digo, há bastante tempo
muito tempo mesmo sem sucesso.
Não é poesia suportar o som tão alto da música da viatura?
viatura que, percorrendo 30 km para cima e para baixo,
sem dar por isso, leva e traz gente do seu local de trabalho?
Não é poesia sentir que até as velhotas pedem pela música?
É triste sentir que a poesia não quer saber de nós
sentir o peso dos braços o vibrar da vida
ver nos pôros o falecer da poesia sem ter tido tempo de nascer.
Pois eu seiu o que digo:
Foi a poesia que me aproximou do mundo de letras,
Foi a poesia que me "atirou" para o jornalismo.
E hoje, o que faço?
Entrego-me cobardemente ao batalhão de gente
gente de vários cantos
que vivem asfixiando a poesia, por ela, doce que é
ter sido qualificado para o museu do antiquado.
Bem feito de mim!
Louco pelo que o mundo leitor impõe
lá coloquei de lado a poesia, para escrever romance
Um foi quanto durou para receber o "não" do editor.
Bem feito, gozo-me a mim mesmo.
"Não me dá esperança de vir a tirar o que vou investir".
Mais do que um tolo, me revelei
pois devia ter percebido que, ao contrário da poesia,
a prosa não vende pela alma do texto.
Já não sei escrever? Sinto que o rebelde dentro de mim não concorda.
Pronto fica assim, que qualquer dia ainda sai uma poesia bem feita
Gociante Patissa (A partir de um cybercafé), Benguela, 30/11/07 - Foto: Anónimo
Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Também quis fazer posia
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